Palavras de bons augúrios, imagens de bons presságios

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A borboleta que traz bons augúrios

Imagine-se uma casa simples, em alguma rua igualmente pacata de uma localidade do Brasil mais profundo. Melhor que seja à tarde. Digamos, no meio da tarde, quando tudo em volta é pura quietude. Uma das janelas da casa está aberta. E o movimento no interior dessa residência imaginada é o movimento de uma vida doméstica comum e normal.

E então entra de repente pela janela uma borboleta. Não é uma borboleta qualquer. É uma pequena borboleta branca que invade os cômodos, esvoaça daqui e dali, e logo sai. Sai, sim, mas deixa como marcas de sua passagem um tipo de sinal.

O nome popularmente conhecido dessa borboletinha alva e frágil é boa-nova, assim grafado com hífen, como prescreve mais um dos acordos ortográficos que dão os ditames para a língua. E o sinal que ela deixa entre as pessoas que ali residem é o sinal da boa notícia, de um fato bom que ocorreu ou que está para ocorrer.

Pouco importa se tais sinais sejam atribuídos às chamadas crendices. Superstição ou não, essa imagem da borboleta que aparece casa adentro sem que ninguém a espere está enraizada na cultura popular. Uma imagem que se soma a tantas outras com o mesmo teor de reconforto.

Na literatura, e para se ater ainda à presença das borboletas no imaginário como portadoras de bons sinais, há um momento de “Grande Sertão: Veredas” em que tal presença traz igual reconforto ao bando de Riobaldo Tatarana. É um instante em que a guerra dá uma trégua. O tiroteio silencia. “Assim pararam, o balançar da guerra parou, até para o almoço, em boa hora”, conta Riobaldo. E logo acrescenta:

“E então conto o do que ri, que se riu: uma borboleta vistosa veio voando, antes entrada janelas a dentro, quando junto com as balas, que o couro de boi levantavam; assim repicava o espairar, o voo de reverências, não achasse o que achasse – e era uma borboleta dessas de cor azul-esverdeada, afora as pintas, e de asas de andor. – ‘Ara, viva, maria boa-sorte!’ – o Jiribibe gritou. Alto ela entendesse. Ela era quase a paz.”

Sábio, Riobaldo observa que a borboleta não é a paz total, ela é quase a paz, assim como se trouxesse um intervalo que apazigua e distensiona o ambiente de guerra. Mas a borboleta, sim, permitiu até o riso entre os combatentes, provocou júbilo no jagunço Jiribibe, que a chama de “maria boa-sorte”.

Como se sabe, guerra é crise, é conflito, é embate. E lá veio a borboleta. Esta não branca, como a acima mencionada, mas de outra cor, agora azul-esverdeada e pintas. Veio e exerceu naquele cenário em crise da epopeia de Guimarães Rosa como que um bálsamo, um unguento nas cicatrizes da conflagração norte-mineira.

Borboletas de bons augúrios

Nas crises, é comum a invocação de palavras e expressões que, vindas lá do reino oceânico da língua e da formação cultural de um povo, servem como um mantra de enfrentamento e não desistência. “Dias melhores virão” costuma ser uma dessas invocações que, se não têm qualquer poder sozinhas, sem o poder dos atos, fazem o trabalho do otimismo.

Ou seja: essas borboletas de bons augúrios transformadas em palavras e ditos, em palavras e provérbios, querem sempre dizer que no final do beco há uma saída. Pode não ser muito, mas não custa sonhar com a boa notícia.

É ainda Riobaldo quem diz: “Entre os currais e o céu, tinha só um gramado limpo e uma restinga de cerrado, de donde descem borboletas brancas, que passam entre as réguas da cerca”.

Não custa também lembrar que, na mitologia dos índios Kaingáng, a borboleta branca é um espírito de um homem bom que fez paz. E Eça, em seu “O Primo Basílio”, escreve lá pelas tantas: “Em torno das velas uma borboleta branca esvoaçava. Era bom agouro!”

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