Banquete dos sentidos à sombra de uma romãzeira

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Imagem de Lee Travathan - Pixabay
Imagem de Lee Travathan - Pixabay

Acabei de ler “Sombras da romãzeira”. Tariq Ali, autor desse livro magnífico, me pegou de jeito. As artimanhas dos reis católicos Isabel e Fernando para manterem o domínio sobre a “Espanha Muçulmana”, a luta dos líderes de clãs tradicionais dispostos a usarem a espada em defesa da sua fé me mantiveram conectada à obra. Só que ao fim e ao cabo tudo isso acabou virando pano de fundo para um banquete dos sentidos.

É Anão, o cozinheiro, quem me conduz pela história. Ele trabalha na cozinha da família de Omar, guerreiro respeitado, líder de um clã tradicional, proprietário da Vila al-Hudail.

Interessante como é a roda do destino. Enquanto lia e me encantava com o livro, em um pit stop nas redes sociais, eis que me deparo com um post da Andrea Pio. E sobre o que era mesmo? Sobre o Figo Hami, sobremesa que ela preparou para adoçar a sua quarentena. Tudo a ver com as delícias árabes, né mesmo?

E tem mais: Tio Francisco nunca devolve o prato vazio. Se ganhou um mimo, lá vem outro de volta. Dessa vez foi um doce de toranjas colhidas por ele no quintal. Dali foram direto para o fogão a lenha. Doce e amargo. Tal e qual o romance de Tariq Ali.

Mas voltando à cozinha do Anão, em meio a temperos, legumes, verduras, carnes e doces o mestre das panelas ainda encontra tempo para ensinar.

– “Um verdadeiro talento nunca usa a receita de outros. Quantas pitadas de sal? Quantas de pimenta? Que ervas? Não é apenas uma questão de saber, embora seja importante, mas de instinto. Esse é o único segredo do nosso ofício.

Segundo ele, a coisa se passa assim:

– Você começa a preparar um prato especial e percebe que não tem cebola na cozinha. Então, pega um pouco de alho, gengibre, sementes de romã, pimentões e amassa tudo formando uma pasta e usa esses ingredientes para substituir a cebola. Acrescenta um cálice de suco de uva fermentada e eis um prato completamente novo. Quando a refeição da noite é servida, a senhora Zubaida, cuja generosidade todas conhecem, prova. Ela sempre gosta, sempre. É na mesma hora percebe que há um ingrediente novo. Quando a refeição termina sou chamado à sua presença. Ela me cumprimenta e depois pergunta detalhes sobre o prato. Claro que eu conto o meu segredo, mas enquanto falo já esqueci a medida certa dos ingredientes que usei. Talvez eu nunca faça esse prato outra vez, mas quem provou jamais esquecerá a mistura perfeita de sabores.

E lá vem mais sabedoria:

– “Como um grande poema, um bom prato nunca se repete exatamente igual. Se você quer ser um grande cozinheiro, tente, mas lembre-se do que eu disse.”

Não sei como é aí na sua casa, mas por aqui se a comida é boa a conversa flui e a alegria toma conta da mesa. Tal e qual na casa de Omar.

“Os sons de risos que vinham da sala de jantar aquela noite, a boa disposição eram sinal que o cardápio preparado pelo Anão tinha sido aprovado por ser patrões. Naquela noite foram brindados com um cordeiro assado, coelhos cozidos em suco de uva fermentada com pimenta vermelha e cabeças de alho inteiras; almôndegas recheadas com trufas, vários de almôndegas fritas em óleo de coentro, servidas com pasta de pimenta; uma vasilha grande com carne com osso imersa num molho cor de açafrão; outra vasilha grande de arroz frito; pequenos folheados e três tipos de salada – de aspargos, salada mista de cebola, tomates e pepinos temperados com ervas e suco de limões frescos, salada de grão de bico com iogurte, temperada com pimenta.

– Escutem. Digam ao Anão que hoje não vamos provar os doces e bolos de queijo. Peçam para ele servir apenas os roletes de cana de açúcar. Foram mergulhados em água de rosas?”

E entre batalhas e conchavos, a vida na cozinha do Anão segue o seu curso, tornando-se – pelo menos pra mim- um dos cenários mais ricos da história. E dá-lhe água na boca. A descrição dos pratos é pra tirar qualquer um da dieta.

– “Ouçam bem todos vocês, meus comensais. Esta noite preparei meu assado favorito. Só pode ser consumido depois que o sol se põe. Nele, vocês vão encontrar vinte e cinco batatas graúdas cortadas em cubos. Vinte nabos, limpos e fatiados, dez taros descascados até ficarem brilhando e dez peitos de cordeiro. Quatro frangos dos quais se tirou todo o sangue, uma tigela com iogurte, ervas e temperos para dar um tom ferrugem. Acrescente à mistura uma xícara de melado e, por Alá, está pronto. A carne e os legumes devem ser fritos à parte, depois misturados na água onde os legumes foram cozidos. Deixe ferver devagar. Os rabanetes, cenouras, pimentões, tomates, cebolas e pepino estão lavados, aguardando pacientemente para juntar-se ao assado na baixada de prato.

Vou parar de dar spoiller. Nem vou falar que na história sobra até para o Montezuma, imperador dos astecas, líder do território onde hoje é a Cidade do México.

Leia e depois me conte tudo.

2 COMENTÁRIOS

  1. Gisele
    Tempero é pessoal e intransferível. Vai da intuição do cozinheiro. E também acho que receita é só referência. A Alquimia culinária é essencial.

    Vc já a série ISABEL? As duas primeiras temporadas são muito legais.

    Estou adotando suas crônicas. Beijo

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