Em um mundo de frases, fraseologias e fraseados

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A crônica de Paulinho Assunção é sobre frases

A cada segundo, um volume incalculável de frases — soltas, avulsas, emolduradas ou fotografadas — circula pelas redes. Em circulação, elas colidem-se, atritam-se, dialogam. São replicadas e repetidas.

Aqui e ali reverberam, ecoam, transformam-se e mudam de sentido. Sobem ou descem pelas timelines. Somem. Podem ser revividas de tempos em tempos. Ou são esquecidas para sempre.

E, então, tornam-se lixo vernacular internáutico, nave de letras mortas à semelhança de meteoros à deriva pelo vácuo do universo.

Um bom retrato dessa teia de frases planeta afora seria imaginá-las em um acelerador de partículas como aquele instalado na fronteira franco-suíça em 27 quilômetros de circunferência e a 175 metros de profundidade.

Refiro-me aqui apenas às frases simples (sujeito, verbo, predicado), não às mais elaboradas e complexas do ponto de vista gramatical, como as que costumam haver nos chamados textões.

Às vezes, essas frases lembram ou são de fato aforismos, epigramas, ditos, provérbios. São exclamativas ou interrrogantes. Reticenciosas ou meros calhaus de palavras pelo Facebook, pelo Twitter, pelo WhatsApp, pelo Instagram ou nos comentários de outras postagens, em portais noticiosos e blogs.

Ao sabor do tema e do instante, são frases bem-humoradas, autorais ou apócrifas. Ora raivosas, ora poéticas. E escatológicas, políticas, filosóficas e trocadilhescas. Umas são ternas, outras melodramáticas. E podem surgir muitas vezes de citações pinçadas a esmo em autores conforme a temporada.

Houve, por exemplo, a temporada Clarice Lispector, incluindo as deturpações e os falseamentos de praxe, assim como houve a de Manoel de Barros e há hoje a de Guimarães Rosa. São frases à exaustão.

Diante de tal fartura, um Drummond redivivo poderia até mesmo autoparafrasear-se hoje assim: “Mundo, mundo, vasto mundo, para que tanta frase, meu Deus?”, ele perguntaria.

De todos os modos, estamos irremediavelmente condenados às frases. Na internet ou não. A porta da escrita, do texto, é a frase. O pensamento é constituído por frases. Ou seja, linguagem. Com um pouco de imaginação, parece haver frase inclusive no silêncio.

Neste caso, vejam se não são frases sonoras aqueles quatro minutos e trinta e três segundos de silêncio (ou quase silêncio) da peça “4’33”, do compositor norte-americano John Cage: nada se toca, nada se executa. A música ou uma nova ideia de música desse artista genial são as tosses, os pigarros, os ruídos, os movimentos da plateia inquieta diante da “obra silenciosa”.

“Os punhais que não estão nas mãos podem estar nas palavras”, escreveu Shakespeare, e alguém, séculos depois, pôs a frase em redemoinho pelos enlaces fraseológicos do Facebook. “Saudade de sujar a boca de amarelo com a polpa do jatobá”, escreveu no Twitter um nostálgico pelas frutas do cerrado brasileiro.

E aquelas frases inscritas em muros, tapumes, postes, paredes de casas abandonadas, no chão e nas calçadas das cidades, nas placas de bares, nos para-choques de caminhões? Frases a mancheias, como se dizia nos antanhos.

Minas e sua profusão de frases

Minas Gerais, em suas mitologias do comportamento e da política, sempre foi pródiga em frases. Hélio Garcia, Tancredo Neves, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada ou José Maria Alkimim são alguns dos que alimentaram o armazém frasístico mineiro no campo político.

E, claro, houve o frasista-ourives Otto Lara Resende, mestre condensador em poucas palavras da natureza humana, assim como o escritor versátil que era Eduardo Frieiro, com a sua ironia ácida na observação da vida belo-horizontina.

Em síntese, vivemos em um mundo e em um cipoal de frases. Fraseamos. Fraseio eu, fraseia ele, fraseia você. De repente, inusitadamente, no meio do caminho não há uma pedra, mas uma frase, e você pode ler em uma placa de bar: “Proibido dançar agarrado, mas se quiser pode”.

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Para ler mais textos de Paulinho Assunção, acesse a página de Crônicas do Boas Novas.

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