Jovem de 24 anos doa fígado e salva vida de bebê em BH

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O jovem Luiz Fernando com o pequeno Ravi, a quem ele doou parte de seu fígado. Fotos - Álbum de família

Sem exageros. A corrida por um transplante de órgão pode levar meses ou anos, quando não leva a pessoa doente à morte. Mas há casos supremos de amor e de altruísmo manifestados por parentes de quem está entre a vida e a morte. E quando não há, entre os familiares, a compatibilidade sanguínea, ou outro tipo de impedimento, a situação torna-se ainda mais grave. É preciso contar com a sorte, com a solidariedade de outras pessoas.

Esse foi o caso do menino Ravi Fantini Tocafundo, que nasceu em 16 de abril de 2016 num hospital de Belo Horizonte. Poucos dias após o nascimento, a família descobriu que ele era portador de atresia das vias biliares, uma doença de causa desconhecida que afeta os dutos biliares. Nos casos mais simples, uma cirurgia para desobstruir os dutos resolve o problema. Nos casos mais graves, como o do pequeno Ravi, a única solução seria um transplante de fígado. Caso contrário, seu tempo de vida seria curto.

A mãe de Ravi, Camila Tocafundo Santos, de 28 anos, conta que a doença do filho foi detectada quando ele tinha apenas 25 dias de vida. Os médicos não sabiam dizer qual doença ele tinha, segundo ela. “A partir de então, comecei a procurar todas as informações possíveis na internet. Foi quando percebi que meu filho estava com todos os sintomas citados nas reportagens. Procurei, com a ajuda de meu pai Marco Túlio e minha madrasta, Flávia, a maternidade onde ele havia nascido. Ali, nada pode ser feito”, diz.

A mãe Camila com o filho Ravi, no seu aniversário de 1 ano
A mãe Camila com o filho Ravi, no seu aniversário de 1 ano

Segundo a mãe, o bebê foi transferido para outro hospital e após vários exames, foi submetido a uma primeira cirurgia para ligar a alça do intestino ao fígado. Mas os médicos já alertaram os país que, dependendo do resultado, a única saída seria mesmo um transplante de pessoa viva.

Camila teve uma gestação tranquila, Ravi nasceu de parto normal, mas mesmo após a cirurgia, não apresentou melhoras. Foi, então, transferido para um terceiro hospital e após mais uma bateria de exames, veio a notícia que os pais mais temiam: a única chance do bebê seria mesmo o transplante de fígado. “O chão simplesmente sumiu”, relembra a mãe.

Em casos parecidos, a orientação é sempre procurar um possível doar entre os parentes próximos. Mas nem o pai, nem a mãe, os avós e nem os irmãos dos pais puderam fazer a doação. A saída, então, seria tentar conseguir um doador compatível, alguém estranho, em qualquer parte do Brasil, que estivesse disposto a doar um pedaço do seu fígado para salvar a vida de um bebezinho.

Campanha na web

O pai de Ravi, o produtor musical Ciano, teve, então, a ideia de fazer uma campanha via web. Como transplante em bebês só é feito em São Paulo, a família perdeu as contas de quantas vezes teve que viajar para a capital paulista.

Quase nove meses após o início da campanha, o telefone dos pais toca. Do outro lado da linha estava o jovem Luiz Fernando Calsavara, 24 anos, de São João del Rei, se oferecendo para doar parte do seu fígado para salvar a vida do Ravi. Foi para São Paulo, fez os exames e os resultados mostraram que havia compatibilidade e que ele poderia ser o doador. “Quando o encontrei na porta do hospital, foi uma emoção imensa. E após o resultado, a felicidade foi geral”, relata Camila.

Mas a angústia dos pais ainda não havia terminado. Como o doador não era parente do menino, foi preciso correr atrás de uma autorização judicial para que o transplante pudesse ser feito. Enquanto esperavam, Camila e o bebê ficaram em uma Casa de Apoio em São Paulo. “Vi muitas crianças na mesma situação de Ravi, mas que não tiveram a mesma sorte e acabaram morrendo”, lamenta a mãe.

Em 16 de fevereiro de 2017, quase um ano atrás, Ravi renasceu. Com a doença, o bebê tinha a pele amarelada (icterícia), urina de cor escura e fezes esbranquiçadas. A mãe ainda lembra, com emoção, da primeira vez que viu o filho, logo após a cirurgia, com a pele corada e as fezes e urina normais.

“Foi maravilhoso. Ali, eu senti que meu filho estava salvo e que poderia viver uma vida normal. Foi uma alegria sem tamanho. A doação de órgãos é um ato de muito amor”, diz ela.

E quem também se emociona ao lembrar da história é o jovem doador Luiz Fernando. Ele acredita que doou para o bebê cerca de 30% do seu fígado, que não fez a menor falta, já que o órgão está completamente regenerado (o fígado é o único órgão do corpo humano que tem capacidade de regeneração).

“Doe órgãos. Doe vida”

De sorriso fácil, Luiz Fernando conta que sempre sonhou em ser um doador de órgãos.  “Desde criança, eu falava com minha mãe que, um dia, iria realizar este sonho”, conta ele. Mesmo morando em São João Del Rey, Luiz Fernando nunca mais perdeu o contato com a família de Ravi.

“É como se já nos conhecêssemos de outras vidas”, conta ele, que hoje é chamado carinhosamente de “vovô” pelo pequeno Ravi, que está agora com 1 ano e 8 meses cheio de vida, sapeca, sorridente, vivendo uma vida completamente normal como qualquer criança de sua idade.

Como gratidão, Camila Tocafundo diz que o “anjo” que apareceu na família para salvar seu filho representa tudo que há de melhor na terra. “O sentimento que tenho por ele é de amor e profunda gratidão. Ele é um grande homem.”

Luiz Fernando com Ravi, quando ele tinha ainda poucos meses de vida
Luiz Fernando com Ravi, quando ele tinha ainda poucos meses de vida

Luiz Fernando tem certeza de que depois de seu ato, muita coisa mudou em sua vida. “Passei a ver tudo de outra forma. Não consigo nem encontrar palavras para explicar. Aprendi a dar mais valor à vida, a amar mais, a buscar sempre o bem para o próximo, pois você tem um retorno maravilhoso”, conta ele.

E não há no seu gesto, de acordo com Luiz Fernando, nenhum ato de heroísmo. Basta, de acordo com ele, ter um pouco de solidariedade, pensar um pouco no próximo e se dar conta de que a doação pode representar, especialmente para quem recebe, a diferença entre a vida e a morte. Por isso, ele espera que seu gesto sirva de inspiração para outras pessoas e faz um apelo: “Doe órgãos. Você estará doando vida!”.

 

Transplante

Um dado muito positivo, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO): no ano passado, entre janeiro e setembro, o número de transplantes hepáticos com doador vivo cresceu 20,4%, na comparação com o mesmo período do ano passado. Com doador vivo não parente aumentou 73,7%.

 

4 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns minha jovem e Nobre jornalista Idamares que matéria maravilhosa eloquente abençoada um exemplo para o Brasil e para o mundo que o exemplo de doador espontâneo como no caso do jovem e destemido Luiz Fernando seja imitando e estimulado no Brasil e no mundo inteiro para alento de mães e pais que passam estão passando por esse mesmo problema com falta de doadores de órgãos vitais para crianças como Ravi no Brasil e em todo ???

  2. Realmente muito bom este post! Conteúdo Relevante!
    Gostei bastante do site, vou ver se acompanho toda semana suas postagens.
    Trabalho pela internet a alguns anos com meu blog de decoração e adoro
    tudo referente ao assunto. Sei que o assunto não é decoração mas adoro
    saber novidades em diferentes nichos e áreas. Obrigada

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