Jovem mecânica cria selo para oficina amiga da mulher

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A jovem mecânica Bárbara Brier criou a certificação Oficina Amiga da Mulher
A jovem mecânica Bárbara Brier criou a certificação Oficina Amiga da Mulher

Uma novidade que está para chegar a Belo Horizonte, com grande potencial para se espalhar pelo Brasil afora. Trata-se da Oficina Amiga da Mulher, uma espécie de selo de qualidade que vai servir para atrair para as oficinas mecânicas o público feminino que, apesar de ser maioria, vem sendo negligenciado, ou menosprezado, por esses estabelecimentos, majoritariamente masculinos.

A iniciativa é da jovem Bárbara Brier, uma mecânica de apenas 29 anos, mas que já tem mais de dez anos de experiência na área. A oficina que exibir o selo, de acordo com Bárbara, dará para as mulheres a garantia de que elas não serão enganadas, que serão tratadas com respeito e terão um serviço confiável e de qualidade.

Bárbara e sua equipe estão avaliando dez oficinas de Belo Horizonte, uma de São Paulo e outra de Recife, que poderão exibir o certificado, se aprovadas, provavelmente a partir de fevereiro.

Para ser uma Oficina Amiga da Mulher, o estabelecimento precisa passar por um rigoroso processo de avaliação, em que são considerados mais de 150 critérios, como transparência, atendimento, gestão, confiabilidade, liderança e qualidade da mão de obra.

Todos os funcionários precisam passar por um treinamento (que pode ser on-line ou presencial) e assistir a palestras do Movimento ElesPorElas (HeForSehe), que abordam a importância da igualdade de gênero. Sim, a Oficina Amiga da Mulher tem a chancela desse movimento criado pela ONU Mulheres, a entidade das Nações Unidas para a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres.

Bárbara (à dir.) com a equipe da THC Centro Automotivo, empresa que quer conquistar o selo Oficina Amiga da Mulher. Fotos - Arquivo Pessoal - Divulgação
Bárbara (à dir.) com a equipe da THC Centro Automotivo, empresa que quer conquistar o selo Oficina Amiga da Mulher. Fotos – Arquivo Pessoal – Divulgação

No processo de certificação está até o envio de um cliente oculto pela equipe do Oficina Amiga da Mulher, que vai avaliar o atendimento recebido, qualidade da mão de obra, as condições gerais do estabelecimento, se o preço cobrado foi justo, entre outros.

Após os treinamentos e adequações necessárias, os funcionários precisam passar por uma avaliação e só aí as mecânicas poderão receber a chancela de  Oficina Amiga da Mulher. Todo esse processo dura de dois a três meses e o estabelecimento vai receber o selo prata (quando a certificação for feita on-line) ou ouro (quando o processo de certificação for feito presencialmente).

Com o selo, as oficinas vão conseguir atrair ainda mais a clientela feminina, que costuma ser muito exigente mas, ao mesmo tempo, bastante fiel. “Trata-se de um diferencial que as oficinas vão poder explorar no seu marketing”, observa Bárbara. O retorno financeiro da jovem mecânica vem da consultoria que ela dará às oficinas. “Eu serei a ponte entre as mulheres e as oficinas”, explica.

Público majoritário

Bárbara com um grupo de alunas do seu curso de mecânica para mulheres
Bárbara com um grupo de alunas do seu curso de mecânica para mulheres

Uma certificação para as oficinas mecânicas que possa dar segurança para as mulheres não é um mero capricho feminino. Bárbara fez uma pesquisa, com o apoio de entidades como a Federação do Comércio de Minas Gerais (Fecomércio MG), Sebrae/SP e Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios do Estado de Pernambuco (Sindirepa-PE), e conseguiu algumas informações surpreendentes.

Uma delas é que, em média, 53% dos carros que chegam às oficinas mecânicas do Brasil são levados por mulheres. Ou o carro é da cliente, do marido ou dos filhos, explica Bárbara. Outra informação relevante: 50% dos carros vendidos no país, em média, são comprados por mulheres.

“Se quem mais compra e quem mais leva para as oficinas são as mulheres, este público, definitivamente, não pode ser menosprezado e não pode ser enganado”, afirma Bárbara, que teve a ideia de criar o selo após as centenas de pedidos que recebeu de amigas e seguidoras do seu blog Brier Cars para que ela indicasse uma oficina mecânica de sua confiança.

Algumas chegaram até mesmo a sugerir que ela abrisse uma oficina, pois se sentiriam mais seguras se o estabelecimento fosse administrado por uma mulher que é especialista no assunto. “Não estava em meus planos abrir uma oficina mecânica. Mas como gosto de dar aulas e conversar com as pessoas, decidi empreender e criar uma metodologia para credenciar oficinas que possam atender bem, com qualidade, com transparência, as mulheres em todo o Brasil”, assinala Bárbara. Nasceu, então, a certificação Oficina Amiga da Mulher.

Trajetória inspiradora

A jovem Bárbara com dois amigos que, como ela, são apaixonados pelo Alfa Romeo (fundo)
A jovem Bárbara com dois amigos que, como ela, são apaixonados pelo Alfa Romeo (fundo)

A jovem empreendedora Bárbara Brier tem uma história inspiradora. Nascida na periferia de Belo Horizonte, sua incursão no mundo da mecânica, ainda hoje dominado por homens, aconteceu meio que ao acaso. Após terminar o Ensino Fundamental, precisava buscar um curso técnico que já lhe garantisse uma profissão e um emprego.

Tomou conhecimento dos cursos oferecidos pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), que são bem conceituados no mercado e são gratuitos. Seu desejo era fazer um curso de Web Design. A conselho da mãe, decidiu se inscrever em vários cursos. “Minha mãe me disse que eu precisava passar em qualquer um, pois eu precisava de uma profissão para começar a trabalhar”, relembra Bárbara.

Divulgado o resultado, Bárbara só foi classificada em um curso: mecânica. “Não era o que eu queria, mas tive que fazer”, conta ela. Começou sem muito entusiasmo, mas logo começou a se interessar pelo assunto. Seu empenho e dedicação no curso chamaram a atenção dos professores, que a ajudaram a conseguir um estágio. Logo depois de concluir o curso, em 2005, a nova técnica em mecânica conseguiu um emprego na Fiat.

Como morava em Venda Nova e trabalhava na Fiat, decidiu mudar-se para uma república em Betim, não só para ficar mais perto do trabalho, mas para continuar os estudos. Fez vestibular, conseguiu meia-bolsa do Prouni e cursou produção industrial em uma faculdade particular. Por conta de seu desempenho na graduação, recebeu uma bolsa integral para fazer uma pós-graduação na mesma instituição.

O trabalho na Fiat despertou em Bárbara o interesse por carros antigos. Ela começou a viajar por Minas e até por outros Estados, nos fins de semana, para acompanhar esses eventos. Depois de muitas viagens e de avaliar o estilo dos automóveis, e até mesmo o comportamento dos seguidores desse hobby, disse ter encontrado sua turma entre os amantes do Alfa Romeo.

“Fiquei apaixonada pela marca por conta das histórias contadas pelos colecionadores, que não estão registradas em nenhum lugar”, diz Bárbara, embora confesse que gosta também da turma do Fusca, da Kombi e do Opala.

Foi sua paixão pelos carros antigos que a fez cometer um gesto que muitos de seus amigos consideraram loucura. Saindo da Fiat após um dia de trabalho, se deparou com uma caçamba repleta de manuais de carros antigos, boa parte deles dos anos 70, que um departamento da montadora havia descartado. As indústrias costumam, segundo Bárbara, comprar os manuais dos carros das concorrentes para fazer reengenharia.

Pegou todos que conseguiu, levou pra casa e entulhou no seu quarto, sem saber muito se teriam alguma utilidade. Mas em 2016, precisando de dinheiro, resolveu anunciar no Facebook e no Mercado Livre que tinha esses manuais para vender. Não demorou muito para aparecer interessados, quase todos apreciadores de carros antigos. “Vendi para colecionadores e recebi muitas mensagens de pessoas agradecendo por ter guardado e cuidado tão bem desses manuais”, conta ela.

A Kombi é outra das paixões da jovem Bárbara, juntamente com o fusca
A Kombi é outra das paixões da jovem Bárbara, juntamente com o fusca

Na Fiat, Bárbara foi crescendo profissionalmente e passou a dar treinamento para oficinas de todo o Brasil sobre o funcionamento dos carros da montadora, especialmente para os recém-lançados. Seu último trabalho nessa área foi com o Renegade, da Jeep, que pertence ao Grupo Fiat. Treinando mecânicos de todo o Brasil, a jovem Bárbara descobriu que gostava de ensinar. “Resolvi empreender e decidi dar aula de mecânica para mulheres”, conta ela.

Empreendedorismo

Enquanto percorria nos finais de semana os eventos de carros antigos, Bárbara aproveitava para organizar workshops, seminários, cursos rápidos para o público feminino. Também nessa época ela criou o blog Brier Cars, para divulgar os cursos que ministrava. No contato com as alunas, ela quase sempre tinha que responder a uma mesma pergunta: “você pode me indicar uma oficina da sua confiança?”

Depois de centenas de respostas, Bárbara teve a ideia de criar a metodologia para selecionar oficinas onde as mulheres pudessem levar seus veículos sem medo de serem enganadas pelos mecânicos.  E para assegurar a qualidade dos serviços, as oficinas serão avaliadas uma vez por ano pela equipe do Oficina Amiga da Mulher. Se não cumprir os requisitos, perderá o selo.

“A Bárbara está contribuindo para acabar com essa história de que carro é assunto só de homem e isso é maravilhoso”, afirma Leila Vasconcelos, a representante do Movimento HeForShe em Belo Horizonte. Segundo ela, a mulher ainda fica com receio de levar o carro em uma oficina, pois conhece pouco o assunto e tem medo de ser enganada. Com o selo, de acordo com ela, a mulher vai se sentir mais segura.

Alunas do curso de mecânica para mulheres numa aula prática com Bárbara Brier
Alunas do curso de mecânica para mulheres numa aula prática com Bárbara Brier

Mordida pela mosca do empreendedorismo, Bárbara decidiu fazer carreira solo. Criou coragem, pediu demissão da Fiat em novembro de 2016, depois de 8 anos de casa, e hoje dedica 100% do seu tempo para a Oficina Amiga da Mulher. Além da certificação, ela continua dando cursos de mecânica para mulheres e palestras pelo Brasil.

E a crise que assola o país, não assusta a jovem empreendedora? Não muito. Ela sabe que o desafio é grande, mas começou 2018 com o pé direito. Já na primeira semana do ano viajou para São Paulo para ministrar um treinamento para funcionários de uma oficina que quer ter a certificação e tem uma série de outros compromissos já agendados. Otimista, está certa que dias melhores virão. Que assim seja!

Quem quiser mais informações sobre a certificação pode consultar o site: www.oficinaamigadamulher.com.br

 

 

 

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