O poder dos clubes em tratar assuntos fora do futebol

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O poder dos clubes pode gerar bons exemplos

Os clubes brasileiros já entenderam que têm um papel importantíssimo fora das quatro linhas. Ações que englobam temas antes espinhosos e para os quais a grande maioria virava as costas, hoje, fazem parte do dia a dia das maiores instituições esportivas do Brasil. E o que é melhor: com efeitos imediatos sobre seus torcedores.

Claro que ainda temos um longo caminho a ser percorrido, que precisamos mudar muita coisa neste país, mas, se existem instituições capazes de mover grandes massas, não tenham dúvida, essas são os clubes de futebol. Mesmo que alguns torcedores virem a cara e ainda fiquem presos aos seus preconceitos e queiram seguir usando viseiras, assuntos como a violência contra a mulher, igualdade de gênero e paz no futebol cada vez mais começam a fazer parte da rotina de quem acompanha futebol.

Vamos a um exemplo claro e recente. Nesta semana, o Corinthians publicou em suas redes sociais que a Lei Maria da Penha completou 12 anos, mas ressaltou que a realidade das mulheres brasileiras ainda é de violência física e psicológica. Na publicação, o clube afirmou que apoia a luta pela igualdade, pelo respeito e pela vida e incentivou as denúncias pelo telefone 180.

Só no Twittter, o Corinthians tem 5,8 milhões de seguidores e, claro, o alcance desse posicionamento é enorme. Mas o clube não contava com um engajamento tão rápido ao, quase que simultaneamente, ser divulgado que negociava com o jovem atacante Juninho, do Sport. O jogador, de 19 anos, foi indiciado em novembro do ano passado por agressão, ameaça e injúria contra uma ex-namorada.

Campanha da torcida

A notícia caiu como uma bomba entre os torcedores, que questionaram de imediato a possível contratação do clube, em uma prova irrefutável de que a publicação do próprio Corinthians tinha causado efeito. A reação, certamente inesperada, fez o clube repensar a contratação pelo menos da forma como estava sendo conduzida. O clube se deparou com uma campanha que mostra a força das redes sociais: a hashtag “juninhonocorinthiansnão” rapidamente tomou conta da rede social.

A diretoria do clube paulista demorou para divulgar sua decisão, dando a entender que, caso fosse contratado, Juninho teria que se submeter a algumas exigências que, se não fosse a força popular, não estariam de forma alguma no eventual acerto. O jogador poderia assinar um contrato de risco, com cláusulas diretamente ligadas ao seu comportamento fora de campo. Por outro lado, a possível contratação poderia render uma boa ação, que era a promessa de acompanhamento e assistência psicossocial ao atleta.

O fato é que, na quinta-feira, dia 9, o clube oficialmente desistiu de contratar o jogador, o que comprovou ainda mais a força da massa — ironicamente motivada pelo próprio Corinthians.

Poder da massa

Uma análise fria desse acontecimento traz vários ensinamentos. Primeiro, comprova a real capacidade, às vezes desperdiçada, dos clubes em divulgar temas de interesse geral e seu alcance. A grande maioria das pessoas que leu a mensagem do Corinthians nas redes sociais talvez jamais saberia mais sobre o tema ou lembrasse da Lei Maria da Penha se não fosse exatamente por ali. E também dificilmente associariam a contratação de um jogador de 19 anos ao tema.

O segundo ponto é a capacidade de conscientização que pode ser ampliada por meio dos clubes. A mensagem (abaixo) tinha poucas linhas, não mostrava números sobre a violência contra as mulheres, mas deixava um recado claro. Talvez, mais linhas e mais dados poderiam não ser lidos em um mundo que cada vez mais se preocupa com as notícias curtas e diretas.

O Corinthians, claro, não é o único exemplo de ações nesse sentido (ainda bem). Usei aqui na coluna pelo fato de ser recente e ter causado uma repercussão que, a meu ver, é interessantíssima. O próprio clube paulista já teve bons resultados em março, no Dia Internacional da Mulher, quando lançou a campanha “Respeita as Mina”, que não só falava da violência contra a mulher, mas também de machismo e da importância de respeitar torcedoras e jogadoras.

Nova chance

A campanha poderia render ainda mais pontos positivos — de forma inesperada. Apesar da rejeição imediata causada pela possível contratação de Juninho e da consequente desistência do negócio, o clube pode, em casos semelhantes, exercer uma função social ao, quem sabe, recuperar atletas. Partindo do princípio de que eles podem receber outra chance e que um acompanhamento pode ajudar, outros “Juninhos” podem ser criados no Corinthians e em vários outros clubes do país.

Na minha opinião, o futebol não precisa formar apenas jogadores. Ainda mais em um país como o Brasil, é preciso formar as pessoas. Nem todos que passam pelas categorias de base dos grandes clubes brasileiros irão ter grandes salários, jogar na elite ou até mesmo seguir na profissão.

Os clubes são instituições poderosas demais e podem ajudar demais nesse processo. Se a confederação nacional pouco faz, é outro assunto. Para mim, os clubes são marcas fortes e que atraem milhares de pessoas — mais do que a própria CBF. Exercer sua função social pode mudar a cara de um país apaixonado por futebol.

Conhece outros bons exemplos? Entre em contato pelos meus endereços ou deixe seu comentário aqui no site. Sempre é bom divulgar histórias bacanas!

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