As infinitas leituras e as incontáveis maneiras de ler

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Há inúmeras maneiras de ler

Um peralta cidadão de apenas três anos de idade, recém-libertado das fraldas, passeia pela casa. De repente, ele vê sobre o sofá um objeto aberto que lembra um grande pássaro, como se as suas asas estivessem pontilhadas de negro. Esse objeto é um livro, mas o garoto passeador ainda não aprendeu os rudimentos básicos da alfabetização para ajuntar letras, formar palavras, para daí compor frases e então ler os significados que um texto contém e representa.

Mas, convenhamos, tudo o que faz esse pequeno desbravador das coisas do mundo é ler. Não lê as palavras, mas lê o que lhe passa pela frente. Lê a cor das paredes, o formato e o volume dos móveis, as formas dos brinquedos, lê o próprio olhar do cachorro ou a quietude do gato, se a casa for alegremente povoada por um canino ou um felino. O menino não só lê o que encontra pela frente, mas apalpa, tateia, experimenta, viaja pela aventura das descobertas. Lança-se na incansável expedição de conhecer.

O leitor e a leitora que me perdoem, mas vejo no ato da leitura algo muito mais além do texto, do livro, da revista, do jornal, da tela de um computador ou de um celular. Ler páginas e páginas, sim, isto é o que convencionamos chamar de leitura. Mas desde que nascemos começamos a ler. E mesmo depois de alfabetizados, e transformados em leitores contumazes, ainda assim continuamos a ler o que vai fora dos textos, das palavras, das frases. Somos seres da leitura e para a leitura.

Chama-se quiromancia a leitura das linhas da mão. E descubro que há toda uma nomenclatura para ler a pegada dos animais. É como se os animais escrevessem, por onde passam, a identidade de sua espécie. Digamos: o leão pisa assim, o urso daquele outro modo, a iguana daquele outro jeito, e por aí vai. E as sociedades ágrafas, aquelas que não fazem uso da escrita, são hábeis em ler no chão se por ali, naquela trilha, andou um temível jaguar. Ou uma cobra. Ou um gracioso quati.

Ainda hoje, costumo ouvir que o crepúsculo, quando se tinge naqueles tons de um alaranjado forte e deslumbrante, é indicador de frio, de queda da temperatura. Ora direis, ler o crepúsculo. Mas não duvidem: é comum tal tipo de leitura. Há também quem leia a formação de nuvens no horizonte e diga: “Quando as nuvens se formam daquele lado, vai chover canivetes”. Se é certo ou não, se a chuva vem ou não, pouco importa. Alguém, por atavismo ou diversão, aprecia ler o que dizem as nuvens.

Pode-se ler o que falam os astros, as constelações e os signos a elas correspondentes. Pode-se ler as folhas de chá, a borra de café. Assim como são lidos os búzios. Ainda na infância, escutava histórias de quem — vejam só — lia os interiores da moela de uma galinha. E, claro, pode-se ler pela manhã, caso a amnésia não prevaleça, pode-se ler o que se sonhou à noite. Quantos símbolos podem povoar a lembrança do que sonhamos? Que o diga o doutor Freud, mas também os xamãs, os pajés, os feiticeiros das tribos.

Maneiras de ler a pegada da onça

Certa vez, junto com o magnífico repórter fotográfico Euler Cássia, fui enviado pela Agência Estado ao Sul de Minas, mais precisamente às proximidades da fazenda do governador Hélio Garcia, porque ali, diziam, uma esperta e ladina onça vinha atacando os seus bezerros. Não vimos a onça, já que onças não aparecem para poses fotográficas. Mas Euler viu em um barranco aquilo que poderia ser uma pegada. E não teve dúvidas: fotografou os rastros da onça, mesmo que o editor jamais tenha acreditado em nossa história.

Dessas leituras fora do texto, há uma que, talvez, seja a mais difícil e laboriosa. Qual seja: ler o rosto dos políticos. Estamos em período eleitoral, as candidaturas estão postas. E a leitura do que vai pela expressão de um político, se ele franze a testa, se sorri pelo canto da boca, se olha à sorrelfa e de soslaio, pode nos ajudar a entendê-lo. Mesmo que a página desses rostos seja página falsa, páginas em branco ou página envenenada, como naqueles livros da Idade Média. Aquele, por exemplo, que Umberto Eco retratou em “O Nome da Rosa”.

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