Memórias de uma Copa do Mundo–Carbonade Flamande

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O Carbonade Flamande é receita inspirada na Bélgica
O Carbonade Flamande é receita inspirada na Bélgica | Foto: Helil Lourenço

O ano era 1994 e muita coisa em minha vida tinha início. Completar a primeira década, brincar sem supervisão, assistir, conscientemente, à minha primeira Copa do Mundo. Também foi o ano que marcou minha mudança de percepção sobre comida. Foi a primeira viagem da qual tenho registro claro de sabores e cheiros.

Julho de 1994 marcou nossas últimas férias com a família de quatro pessoas unida. Pai, mãe, irmão e eu. Talvez essa tenha sido a razão de a memória continuar tão viva em mim. Lembro como se fosse hoje das 12 horas intermináveis até a praia de Piúma (ES). Fomos no Monza 83 do vovô Murillo. Carro que resistiu bravamente aos intermináveis “quebra-molas” da cidade de Castelo.

Piúma parecia um paraíso, com aquele mar calmo que deixava minha mãe tranquila e permitia uma liberdade nunca vivenciada antes. Brincávamos de manhã até o anoitecer.

Numa dessas brincadeiras, rasguei minha blusa predileta, ao escalar um portão de grades em forma de lança. No fim do dia, era hora de sentar para ouvir as histórias do tio Luiz Garcia… Acho que desconheço melhor contador de histórias e a ele devo boa parte de meu encantamento pelas artes escritas e pintadas.

O sabor de peroá frito e bolinho de aipim com o maior camarão que eu havia comido até então eram adoçados pela barraquinha verde de churros. Nos tempos atuais, aquela barraquinha seria facilmente promovida a “food truck”, mas nos anos 90 valorizávamos mais nosso “produto interno bruto”, sem firulas e arabescos.

Assistimos à final num boteco no fundo da casa do tio e fomos tetra. Uma alegria contagiante tomou conta de todos, era como se todos os nossos problemas silenciassem por um instante. Perder o jogo contra a Bélgica me remeteu a essas lembranças e me fez ter vontade de ressignificar o sentimento de eliminação em uma memória positiva de paladar. Quem sabe assim os problemas do país silenciariam por um momento na minha cabeça.

Lembrei de um prato belga que comi em abril ao visitar Bruges: Carbonade Flamande. O prato é simples, mas exige dedicação, tempo de preparo e paciência.

A inspiração do Carbonade Flamande veio de Bruges | Foto: Marina Cunha/Arquivo Pessoal

Os passos para o Carbonade Flamande — e a alma da marinada

Primeiro passo: limpar a carne. Um corte de segunda demanda uma limpeza criteriosa. Nervuras, gorduras excessivas em nada colaboram com o paladar e, portanto, não ganham espaço na panela.

Em seguida, a marinada: tomilho, cebola, cerveja, alho, sal e pimenta. Dica: embale com plástico filme para que outros aromas presentes na geladeira não contaminem seu trabalho. Deixe a carne descansar por uma noite.

Acho graça com tudo que tem a palavra “mar” no nome… Na minha vida, mar e alma têm praticamente o mesmo sentido e acredito que uma boa marinada tenha exatamente a função de dar alma aos preparos.

Depois de uma noite bem dormida (tanto para você quanto para a carne), hora de refogar. Pegue aquela panela grande que você tem na cozinha, ou a maior frigideira, e faça em etapas.

O importante é que todos os cubos de carne fiquem em contato com o fundo da panela. A carne precisa dourar com espaço, assim como nós quando esticamos a canga na praia para ficarmos bronzeadas. Selada a carne, reserve tudo em uma vasilha à parte, adicione a cebola, o açúcar até que um caramelo se forme.

Nessa hora, volte a carne à panela, coloque o bouquet garni, disponha o pão com mostarda sobre o preparo (com a mostarda virada para baixo), complete com a cerveja, fogo baixo e assista a um filme, ou quem sabe dois!

Já que a proposta de prato fala francês e a ideia é ressignificar a vida, minha sugestão de filme é “Os Intocáveis”. E se você gosta de cozinhar ouvindo música, aposte na trilha sonora deste filme. “Boogie Wonderland”, da banda Earth, Wind & Fire, vai temperar sua panela com swing e sensualidade. E “Feeling Good”, com Nina Simone, trará aquela sensação de dever cumprido.

INGREDIENTES

  • 700 g de acém (limpos)
  • 2 cebolas grandes
  • 1 colher (sopa) de azeite
  • bouquet garni (tomilho, salsa e louro)
  • 2 colheres (sopa) açúcar mascavo
  • 3 fatias de pão italiano
  • mostarda de Dijon
  • sal e pimenta-do-reino a gosto
  • 1 litro de cerveja. Usei uma Gold e uma Dunkel. Temos opções nacionais de baixo custo
  • 330ml de cerveja Gold para Marinada
  • água se necessário
  • pimenta síria
  • alho

MODO DE PREPARO

Marinada: Tomilho, cerveja, sal (1 colher de sopa para cada kg de carne), pimenta síria (a seu gosto) e 3 dentes de alho. Deixe a carne marinar por uma noite.

Ligue a playlist indicada e refogue a carne no azeite (conforme instrução do texto) aos poucos. Reserve os cubos de carne já selados. Na mesma panela, adicione as cebolas cortadas em meia-lua, quando murcharem coloque o açúcar até caramelizar, adicione os cubos de carne e misture até a carne incorporar o caramelo com cebola.

Passe mostarda de Dijon em cada pedaço de pão. Seja generosa (aqui uma colher de sopa bem cheia por fatia). Coloque-os sobre a carne, com a parte da mostarda virada para baixo. Não esqueça o bouquet garni. Adicione cerveja até cobrir o pão. Deixe cozinhar em fogo baixo com a panela tampada, prepare o filme e aperte o play.

No meio do filme, aproveita a pausa para esticar as pernas e cheque o líquido de cozimento, revire o fundo para que não queime. Caso seja necessário, adicione água.

Convide alguns amigos e aproveite a vida com todo sabor que a Bélgica é capaz de nos proporcionar e sirva com raízes fritas.

Para conseguir enrolar as fatias de batata doce, você precisa descansá-la em água gelada por uma hora. Depois, faça os canudinhos e prenda com o palito de dente. Feito isso é só fritar.

Os chips de batata doce no ponto

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