Como a matemática está transformando Dores do Turvo

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esquerda para a direita): Dávila Meireles, Luís Guilherme, José Gabriel e Giovana Grossi. Foto - Divulgação
Os medalhistas de ouro de Dores do Turvo (da esquerda para a direita): Dávila Meireles, Luís Guilherme, José Gabriel e Giovana Grossi. Foto - Divulgação

Rio de Janeiro, Teatro Municipal, 15 horas de terça-feira, 14 de novembro de 2017. Quatro alunos da Escola Estadual Terezinha Pereira, de Dores do Turvo, cidade da Zona da Mata mineira, estão entre os 501 estudantes, de todas as partes do Brasil, que vão receber medalha de ouro da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep).

Os campeões de Dores são Giovana Monteiro Grossi, 13 anos, aluna do 8º ano do ensino fundamental, José Gabriel, 13 anos, também aluno do 8º ano, Luís Guilherme, 15 anos, aluno do 1º ano do ensino médio, e Dávila Meireles, 18 anos, aluna do 3º ano do médio.

Apesar da importância do evento, os dorenses não parecem impressionados com a pompa da solenidade e a imponência do teatro (talvez o mais importante do país), embora radiantes com a conquista. E há uma explicação para tamanha tranquilidade. É que desde que a Olimpíada começou, em 2005, somente na primeira premiação não tinha um aluno de Dores do Turvo na solenidade. Dávila, por exemplo, ganhou seis medalhas e foi na terça-feira receber sua quarta de ouro.

A cidade, que tem pouco mais de 4.600 habitantes, transformou-se quase que em selo de qualidade quando o assunto é matemática. Do início da olimpíada pra cá, foram 261 medalhas ou menções honrosas para estudantes da escola – 17 de ouro, 26 de prata, 51 de bronze e 167 menções honrosas. Só na edição do ano passado, foram 4 de ouro, 6 de prata e 10 de bronze.

Poder transformador

Mais importante do que a premiação, entretanto, é observar como a matemática tem contribuído para transformar a vida dos estudantes, de seus familiares, da escola estadual e até mesmo do município.

“A medalha é apenas um pedaço de metal. O mais importante é que ela seja o instrumento para transformar a vida desses alunos, muitos deles de origem humilde, e a de seus familiares; e que os ajude a entrar para o mercado de trabalho e que abra para todos uma nova perspectiva de futuro”, afirma o professor Geraldo Amintas Moreira, o grande incentivador e responsável pelo desempenho excepcional dos alunos da escola Terezinha Pereira em matemática.

Com carinho de mestre, Geraldo acompanha a trajetória de cada um dos 261 alunos que receberam medalhas ou menção honrosa ao longo dos 12 anos da olimpíada. Sabe o nome e sobrenome de todos, que curso fizeram depois de deixar a escola estadual, onde moram e onde trabalham. E conta, com orgulho, que desta lista de 261, apenas um não ingressou num curso superior, pelo menos por enquanto, porque decidiu deixar Dores para ser empreendedor em BH.

Todos os outros 260 ingressaram na faculdade, muitos concluíram o ensino superior e conseguiram bons empregos. Na terça-feira à tarde, no Theatro Municipal, Geraldo pode se encontrar com Fernando Ribeiro, que foi o primeiro aluno da escola estadual a receber uma premiação da Obmep. Ele participou da primeira olimpíada, em 2005, e recebeu uma menção honrosa. No Rio, foi prestigiar o sobrinho Luís Guilherme, um dos medalhistas de ouro.

“O Fernando ingressou na UFMG, onde foi fazer engenharia mecatrônica, formou-se como o melhor aluno da turma e hoje é engenheiro na Cemig”, conta o professor. E exemplos como o de Fernando Geraldo tem aos montes. Mas ele destaca também outra consequência do bom desempenho dos alunos na tão temida matemática: a qualidade do ensino no município vem melhorando ano após ano.

Alunos de todas as escolas mineiras que receberam medalha de ouro no Theatro Municipal, no Rio de Janeiro. Foto - Divugalão
Alunos de todas as escolas mineiras que receberam medalha de ouro no Theatro Municipal, no Rio de Janeiro. Foto – Divugalão

Mais qualidade na educação

O professor conta que em 2005, a nota da escola no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que mede a qualidade da educação em todo o país, era 4 e hoje está em 5,7. (igual ou superior a 6 já é considerado padrão internacional). Isso representa, vai logo ressaltando o professor de matemática Geraldo, um crescimento de 40%. Significa dizer também que, além da matemática, os alunos melhoraram em português, a outra disciplina avaliada no Ideb.

Outro dado que reforça o argumento da melhoria da qualidade do ensino na cidade está no desempenho dos alunos no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). No início de 2000, conta o professor, o número de alunos de Dores do Turvo que conseguiam uma vaga na prestigiada Universidade Federal de Viçosa (UFV), só para citar um exemplo, não passava de dois. Hoje, 30 ex-alunos da escola estadual Terezinha Pereira estão estudando na UFV.

Por conta da excelência em matemática, é grande o interesse de moradores de municípios vizinhos em conseguir uma vaga na escola estadual (a única da cidade, que também não tem escola particular). Atualmente, 12 alunos de Senador Firmino, que fica a 20 km de distância, estão estudando na Terezinha  Pereira.

O curso de pré-vestibular Lunos, na vizinha Ubá, que é a cidade polo da região, decidiu apostar na competência dos jovens de Dores e deu a 16 alunos da escola estadual 100% de bolsas no cursinho preparatório para o Enem. Até janeiro, o Lunos ficará sabendo se valeu o investimento, mas as perspectivas são muito boas.

Geraldo conta também com orgulho da parceria feita recentemente com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), uma das instituições de ensino superior mais conceituadas do país. A fundação está buscando escolas públicas com bons resultados na educação e pede que elas indiquem seus melhores alunos para fazer o seu vestibular. Se o aluno for aprovado, ele terá 100% de bolsa durante o período do curso, moradia em apartamento próximo à FGV no Rio de Janeiro e mais uma ajuda de custo de R$ 2.000 por mês para outras despesas.

Uma das alunas da escola estadual de Dores de Turvo fez o vestibular e aguarda o resultado. O professor Geraldo calcula que o aluno da FGV gasta, em média, incluindo mensalidade, moradia, hospedagem, alimentação, transporte, cerca de R$ 8 mil/mês.

Novos horizontes

“Essa premiação dos nossos alunos na olimpíada, sem dúvida, abriu pra todos eles novos horizontes”, comemora Ângela Campos, a diretora da Escola Estadual Terezinha Pereira. “Os que terminaram o ensino médio conseguiram passar com facilidade no vestibular, muitos ganharam bolsas em universidades, alguns já se formaram e ocupam boas posições no mercado de trabalho”, acrescenta a diretora, que explica, de uma forma muito simples, como a escola tem conseguido esses resultados tão expressivos na matemática ao longo dos anos.

“Tentamos mostrar aos nossos alunos que a matemática é um desafio que eles podem conquistar. E é como no esporte: para ser bom, é preciso muito treino”, diz a diretora, ressaltando que a matemática na escola de Dores do Turvo, ao contrário do que acontece em boa parte do Brasil, não é um bicho de sete cabeças. “Ao contrário, nossos alunos que entram no sexto ano já chegam sonhando em participar da olimpíada e ser um medalhista”, afirma Ângela.

Para o município, que tem como principal atividade econômica a pecuária de leite, a Obmep também foi um achado. Dores do Turvo, quando se fala em desempenho de alunos na tão temida matemática, vou sinônimo de excelência. Jornais de grande circulação, revistas nacionais e até mesmo o Jornal Nacional, da Globo, abriu espaço para mostrar a cidade como um bom exemplo.

O professor nota 10

O professor Geraldo é o principal responsável pelo desempenho dos alunos da escola estadual Terezinha Pereira a Obmep.
O professor Geraldo é o principal responsável pelo desempenho dos alunos da escola estadual Terezinha Pereira a Obmep

Geraldo Amintas de Castro Moreira, 58 anos, 38 deles lecionando matemática na escola estadual Terezinha, é o grande responsável pelo desempenho dos alunos na Obmep. Com este tempo no serviço público, professor Geraldo poderia se aposentar para curtir a vida, a família, os amigos, viajar. Como tem dois cargos (concursado em ambos), se aposentou em um deles, mas não quis deixar as aulas de matemática.

Ele conta que em 2005, quando foi realizada a primeira edição da Olimpíada Brasileira da Matemática (Obmep), decidiu, sem muita pretensão, inscrever alguns alunos da escola e prepará-los para a competição. As expectativas não eram muito grandes, mas divulgados os resultados, cinco alunos do município ganharam menção honrosa. O resultado serviu como um estímulo e já no ano seguinte, vieram as primeiras medalhas.

Em todas as edições, a escola sempre tinha pelo menos um medalhista de ouro. O que é um feito, sobretudo considerando o universo de alunos do município. No total, a escola estadual tem 520 alunos, como conta a diretora Ângela Campos. Qual o segredo, Geraldo?

“Nenhum”, explica Geraldo. A não ser, completa o professor, o que faz parecer que se trata mesmo de algo fácil, mostrar aos alunos que a matemática está o tempo todo na nossa vida. “Eu associo as aulas com o cotidiano. Enquanto o aluno não percebe que a matemática está diretamente ligada à vida, ele não vai ter sucesso”, assinala o professor.

Outro ensinamento do professor. “Matemática depende de muito treino associado a raciocínio. Então, estimulamos nossos alunos a pensar muito”, diz Geraldo. Para treinar os jovens para a olimpíada, o professor usa o contraturno, num trabalho voluntário, com aulas pelo menos duas vezes por semana.

O resultado é não somente as medalhas conquistadas pelos alunos, mas também o reconhecimento da excelência do trabalho do professor. Em 12 premiações da Obmep, Geraldo foi premiado em dez. Já ganhou notebook, tablets, cursos de qualificação e, óbvio, os aplausos da comunidade de Dores do Turvo, que o reconhece como um professor nota 10.

Olimpíada 2017

No próximo dia 22 de novembro, será divulgado o resultado da Olimpíada de 2017. Sem querer criar muita expectativa, Geraldo acha que a escola estadual vai pelo menos repetir o desempenho do ano passado, com quatro medalhas de ouro. Saberemos em breve.

O que é a Obmep

Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep), que foi criada em 2005, é uma realização do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e tem como objetivo estimular o estudo da matemática e revelar talentos na área.

A competição é destinada a alunos do 6º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio. É promovida com recursos do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e do Ministério da Educação (MEC), com o apoio da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM). Na olimpíada deste ano, participaram quase 47.500 escolas públicas de todo o Brasil.

 

 

 

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