Minhas lembranças são a minha história

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Anos atrás meu pai fez um bar na nossa casa, no quintal, só com troncos de arvores caídas. Em volta da mangueira, tinha dois bancos maravilhosos que abraçavam a enorme árvore (…)”

O quintal da casa dos meus avós era imenso. Para nós, um paraíso a ser explorado. O rio era o limite.
–  “Não cheguem perto do rio. É perigoso. Vocês se lembram da família que se afogou?”
Fantasmas nos rondavam. Mas, no Natal havia uma trégua. A mesa construída pelo meu avô ficava perto do rio, em um trecho sombreado pelas árvores.  Ainda impactados pelos presentes que amanheceram na árvore de Natal, passávamos horas naquela mesa, devorando tudo o que havia na cesta que vinha lá do Rio de Janeiro. Presente do Tio Chico.

Para os outros meses do ano havia a mesa redonda. Sobre ela, a sombra das mangueiras, teve até aquele almoço eternizado na memória pela queda de uma manga sapatinha que foi cair exatamente no prato do meu avô. Cena inesquecível.

Se a mesa hoje mal se sustenta, as mangueiras ainda resistem. Seculares, cansadas, nem mangas produzem mais. Mas continuam ali, impávidas, testemunhas de tempos muito felizes.

“(….) Minha infância foi neste quintal. Brincava de Miss Brasil, com toalhas como manto, fazia comidinhas de folhinhas nas panelinhas, brincava de pular amarelinha, cabra cega, de roda e de casinha, de boneca e de tantas outras brincadeiras esquecidas pelas crianças de hoje. Fui princesa tantas vezes com coroas de flores, fui médica, fui mãezinha, dona de casa e fui muito feliz. (…)”

As casinhas eram construídas debaixo do pé de ameixa. Nelas, reinavam absolutas a “Maria”, a “Maristela”, a “Marion” e as “Mariazinhas”. Horas a fio brincando com as bonecas e cozinhando piabas pescadas no rego que nascia lá pelos lados dos Melos e encerrava a sua jornada bem ali, no rio. Suas águas também matavam a sede dos marmeleiros. Ainda posso sentir o perfume dos frutos que depois de maduros viravam doce em tachos centenários, obra das mãos habilidosas da Silvia e da Vovó Cocota. Os tachos foram herdados da minha bisavó. Vieram lá da fazenda do Macuco.

“ (…) Nossas noites eram perfumadas pelas magnólias, pelas damas da noite, jasmim do cabo , manacás e cheiro de comida boa que só a avó da gente sabia fazer. (…)”

Hoje, para eternizar o jardim da Vovô Cocota, Denise planta manacás no quintal lá de casa e a Lulu cultiva camélias lá em Brasília.

Eu também amava o jardim, mas era seduzida por aquele cheiro do bife grelhado. E o feijão que cozinhava por horas a fio no último buraco da trempe do fogão a lenha? Hummm! Tinha também a carne de panela. Perfumes imortalizados pela memória. Não por acaso, estou sempre em busca do café, do bolo, da comidinha perfeita.

“Meu avô e suas histórias de caçadas estão vivos na minha mente. (…)”

Hoje, isso é impensável. Não conheço ninguém que se embrenhe pelas matas com esse propósito. Mas, em outros tempos, Vovô Nenen, como num ritual, caçava todos os anos. Com o dia amanhecendo, ainda posso ouvir o ronco do caminhão, as conversas misturadas aos latidos daqueles perdigueiros. Era o Vovô saindo para caçar lá na pros lados de Goiás.

Na matula ia muita carne de panela e farinha. Vovô, estranhamente, não comida carne de caça. Nem nós! Comer carne de paca, tatu … Nem pensar! Mas gostávamos do ritual, dos preparativos, da saída, dos vários dias que dormíamos na casa da Vovó Cocota.  Até que o Vovô voltava cheio de histórias e de latidos de cachorro.

“Minhas lembranças são a minha história.”

Minha história interessa a mais alguém além daqueles que dividiram comigo momentos inesquecíveis? Talvez não. Mas pode ser que inspire alguém como a Claudia Grande, do projeto 60 anos,  que me inspirou e me levou a esse mergulho no passado.

Com amor para Gyslaine, Gilda, Maria Luiza, Denise, Jacqueline, Paulo Humberto e Ricardo, Marise, Josita e Sebastião. Como homenagem à memória da minha mãe, dos meus irmãos Guilherme e Osvaldinho, Vovó Cocota, Vovô Nenen e Sílvia.

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