O silêncio das penas brancas

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Imagem - Pixabay
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Um dia desses li um texto sobre escolhas. Não sei quem escreveu. Se você se reconhecer, por favor, se identifique e me perdoe pelo descuido.

O trecho dizia:

“Não sou pra todos. Gosto muito do meu mundinho. Ele é cheio de surpresas, palavras soltas e cores misturadas. Às vezes tem um céu azul, em outras, tempestade. Lá dentro cabem sonhos de todos os tamanhos. Mas não cabe muita gente. Todas as pessoas que estão dentro dele não estão por acaso. São necessárias.”

Sinos, buzinas, banda de música. Tudo para celebrar o “momento revelação”. Como não percebi isso antes? Vivo distraída. E pensar que meu Anjo da Guarda já cansou de me dar bronca:

– Gisele, pare de reclamar que tem poucos amigos. Quem está por perto, não importa como ou por qual meio, é quem realmente importa, quem faz diferença.

Tá bom, Anjo, eu entendi. Não preciso de um Mineirão lotado para chamar de meu.

E quer saber? Não adianta você (será que posso ser informal com ele?) tentar se esconder. Eu sei que está sempre por perto. Prova disso é essa pena branca que encontrei agora mesmo. Ultimamente, tenho colecionado tantas que minha bolsa anda cheia delas. Daqui a pouco dá até para fazer um colchão. Quem sabe assim eu finalmente durma o sono dos justos e até esqueça o Patz de vez?

A Nana, amiga-irmã, ri e diz que é bobagem. Que essas penas são de passarinho.

– Que piada, Gisele! Olha a mangueira cheia de aves, as maritacas na torre da Igreja, os pombos, os sabiás nos postes e telhados.

Mas eu insisto: pena de maritaca é verde, de pombo é marrom. As minhas são brancas. E você já viu Anjo da Guarda verde ou marrom?

Há ainda um segredo que guardo só pra mim : no dia do meu aniversário fico, como disse Drummond, comovida. Desvio o olhar do céu azul e passo a caminhar de olhos baixos, procurando mais e mais penas brancas entre as pedras que teimam em interromper minha travessia.

Pensando bem, ando exigindo muito do meu Anjo da Guarda. Tenho sido invasiva e exigente. Já que eu não tenho, talvez ele precise estabelecer limites.

E quanto às chuvas e trovoadas que insistem em tumultuar meu céu azul? Ah, talvez sejam reflexos da tal “zona de confluência do Atlântico”. Norte? Sul? Sei lá. Melhor perguntar à moça do tempo.

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