
O IBGE confirma: 76% dos brasileiros comem arroz todos os dias. Numa conta rápida, cada um de nós carrega 34 kg desse grão ao longo do ano. Juntos, somamos 7,26 milhões de toneladas, um oceano branco capaz de encher 3.450 piscinas olímpicas.
Mas números não dão conta do que o arroz realmente significa. Caldeirão de afeto e tradição, cada colherada guarda recortes de memórias de infância, rotinas apressadas, encontros familiares e festas memoráveis. O arroz atravessa casas, mesas e gerações como um fio silencioso, unindo o Brasil de ponta a ponta não apenas como alimento, mas como símbolo de pertencimento.
Na minha família não é diferente. O arroz é prático, gostoso, versátil e cheio de memórias. Acompanha quase tudo. Se sobra, vira bolinho ou mexidão; se o desejo é por sobremesa, logo vem à cabeça o arroz doce sapecado da Vovó Cocota. Nos almoços de sábado, o arroz com suã é de lei. E o lá de casa é bem diferentão. Ganha o colorido dos pimentões, dos tomates e das cenouras. Tudo bem picadinho. Mas por que legumes se na receita original não tem? Uai, é pra trazer mais sabor e dar um arzinho de festa.
Nos almoços de domingo e nos aniversários, quando tem arroz de forno a festa tá garantida. Na receita original Vovó Cocota acrescentava camarão seco de latinha. Há anos procuro por essa iguaria. Mas, recentemente, um feirante do Mercado Central de Beagá me contou que faz tempo que a empresa deixou de envasar o produto. Portanto, para minha tristeza, o camarão de latinha não existe mais. Nem por isso, o nosso arroz de forno perdeu o brilho.
No fim de ano, o arroz se veste de esperança e ganha a companhia da lentilha. Dizem que atrai fortuna. Vai que, né? Mas essa opção não é regra. Esse prato pode vir pra mesa também com o toque natalino das nozes e das passas.
E quanto ao arroz com feijão nosso de cada dia? Ahhh, esse continua imbatível. Pelo menos na nossa casa, é o preferido de dez entre dez Bicalho Resende.
Por falar em tradição, Papai tinha um hábito que sempre me encantou. Bastava que um de nós começasse a refogar o arroz na gordura de porco com alho, para que ele se juntasse a nós com uma xícara na mão. O arroz estalando – sim, o arroz grita histérico quando está torrado -, alho e sal para temperar, água quente para completar. Essa era a deixa. Papai enchia a xícara com aquele caldo grosso, carregado de amido, e degustava cada gole como se fosse iguaria rara. Talvez fosse mesmo. Eu nunca provei. Até hoje experimento de leve enquanto cozinho. Qualquer dia desses me aventuro nessa descoberta gastronômica. Vai vendo.
Voltando às muitas facetas do arroz, reitero: esse grão é capaz de se reinventar em cada prato. Já citei o mexido. De quando o arroz se mistura ao feijão e às sobras do dia anterior transformando simplicidade em aconchego. O arroz com ovo molinho ganha ares de infância. Lembra almoço rápido e cheio de afeto. Já no risoto de maracujá, o preferido do João Guilherme, se veste de sofisticação, mostrando que também sabe ser ousado e delicado. E como se não bastasse, tem o arroz que atravessa fronteiras e chega até nós em forma de gohan, influência asiática que conquistou espaço na mesa brasileira. Por enquanto, ainda não nos arriscamos a preparar em casa; o consumo segue restrito aos restaurantes.
E como nesse filme não tem só mocinho, o arroz também carrega um lado vilão. A ciência revelou que o excesso do grão não é recomendado para quem convive com o diabetes. Na minha família, infelizmente, o índice glicêmico alto é presença constante. E por isso, entre o arroz soltinho que alegra a mesa e o cuidado com a saúde, aprendemos a equilibrar tradição e ciência, lembrança e responsabilidade.
O arroz, afinal, é mais que grão: é símbolo. Atravessa gerações, mesas e culturas, carregando memórias de família, sabores de infância e até alertas da ciência. É o arroz doce que adoça lembranças, o gohan que nos conecta à Ásia, o mexido mineiro e o bolinho que traduzem aconchego, e também o estudo que nos lembra dos cuidados necessários à saúde. Entre o barulhinho da colher na panela e os gráficos de índices glicêmicos, o arroz nos ensina que somos feitos de tradição e de escolhas. Ele é herança, identidade e presença, um fio invisível que nos une à mesa e à vida.





























