Belém vira palco global de decisões sobre o clima

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Futuro do clima pode ser definido durante reunião da COP30, em Belém. Foto - Tânia Rego - Agência Brasil
Futuro do clima pode ser definido durante reunião da COP30, em Belém. Foto - Tânia Rêgo - Agência Brasil

A cidade de Belém se transforma, a partir de hoje (10) no centro mundial das discussões sobre mudanças climáticas. Mais do que a capital temporária do Brasil, a cidade paraense será o epicentro das negociações da 30ª Conferência das Partes (COP30), que segue até o dia 21 de novembro.

Pela primeira vez realizada na Amazônia, bioma essencial para o equilíbrio climático global, a conferência tem o enorme desafio de recolocar a crise climática no centro das prioridades internacionais. Delegações de 194 países e da União Europeia se inscreveram para participar, e Belém espera receber mais de 50 mil visitantes, entre diplomatas, cientistas, representantes de governos, ONGs e movimentos sociais.

O evento ganhou força após a Cúpula do Clima, também realizada na capital paraense, com a presença de chefes de Estado e representantes de alto nível de cerca de 70 países. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, anfitrião do encontro, fez um apelo por ações concretas que possam impedir o planeta de ultrapassar o limite de 1,5ºC de aquecimento médio.

“A COP30 é a COP da verdade”, afirmou Lula, destacando a urgência de financiar a adaptação climática e a transição energética global. Com esse pano de fundo, a COP30 será guiada por três grandes temas: adaptação climática, transição justa e a implementação do Balanço Global do Acordo de Paris (GST, na sigla em inglês).

Adaptação ganha urgência com desastres no Brasil

Na abertura da conferência, a adaptação climática desponta como prioridade. O tema trata da preparação de cidades, regiões e países para lidar com eventos extremos — secas, enchentes, deslizamentos e ondas de calor — que já se intensificam em todo o mundo.

O Brasil acaba de viver um exemplo trágico dessa nova realidade. No último fim de semana, um tornado destruiu o município de Rio Novo do Iguaçu, no Paraná, deixando mortos, feridos e centenas de desabrigados. Casas, escolas e plantações foram devastadas em poucos minutos, revelando a vulnerabilidade da infraestrutura urbana diante da força crescente dos fenômenos climáticos.

Casos como esse reforçam a urgência de investimentos em adaptação e resiliência. Na COP30, os países devem discutir a criação de indicadores para o Objetivo Global de Adaptação, um mecanismo que permitirá medir o avanço de cada nação na preparação para desastres e na redução de vulnerabilidades.

O segundo grande eixo é a transição justa, que busca garantir que a migração para uma economia de baixo carbono seja socialmente equilibrada. Isso envolve requalificação de trabalhadores, criação de empregos verdes e políticas que protejam comunidades vulneráveis.

Durante a Cúpula do Clima, o presidente Lula destacou a necessidade de um mapa de rota global para o fim da dependência de combustíveis fósseis. “A transição não vai acontecer da noite para o dia”, afirmou o líder brasileiro, pedindo um acordo com prazos e responsabilidades definidos.

Por fim, o terceiro tema da COP30 é a implementação do Balanço Global (GST) do Acordo de Paris — um mecanismo de avaliação coletiva do progresso dos países em direção às metas climáticas. A conferência de Belém deverá transformar o GST em ações práticas e mensuráveis, reduzindo a distância entre promessas e resultados.

Financiamento climático é o maior desafio

Apesar da mobilização internacional, a falta de financiamento climático ameaça travar os avanços. Sem recursos concretos, as metas de adaptação e transição justa correm o risco de permanecer apenas no papel.

O secretário-executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, resume o impasse: “Os países ricos prometeram dinheiro, mas ele nunca apareceu. Isso gerou uma crise de confiança que se agravou nas últimas conferências”.

Para tentar mudar esse cenário, as presidências da COP29 e da COP30 lançaram o “Mapa do Caminho de Baku a Belém”, que propõe elevar o volume anual de financiamento climático a US$ 1,3 trilhão. A iniciativa busca apoiar países em desenvolvimento na implementação de políticas de mitigação, adaptação e transição energética.

Outro destaque é o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), lançado durante a Cúpula do Clima. O fundo prevê aportes de mais de US$ 5,5 bilhões para financiar a conservação das florestas tropicais em cerca de 70 países, destinando ao menos 20% desses recursos a comunidades tradicionais e povos indígenas.

Enquanto as negociações ocorrem na chamada Zona Azul, restrita a delegações oficiais, a Zona Verde, aberta ao público, promete ser o coração pulsante da COP30. No Parque da Cidade, em Belém, comunidades tradicionais, juventudes e organizações civis apresentarão projetos e soluções inovadoras para o enfrentamento da crise climática.

“Clima não é conversa de ambientalista. Clima é o nosso dia a dia — está no preço dos alimentos, na conta de luz, no emprego e na vida de todos nós”, lembra Márcio Astrini.

Belém, portanto, não é apenas palco de uma conferência. É símbolo de uma nova etapa da diplomacia climática mundial — um chamado à ação em meio à urgência cada vez mais visível dos desastres naturais. Se a COP30 cumprir sua promessa, poderá marcar o início de um novo ciclo: o da transformação concreta em defesa do planeta.

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