O cheiro da infância, sob o olhar de Elio Vittorini

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O autor italiano Elio Vittorini

Não me lembro de um livro que eu tenha começado sem ter passado antes pela orelha. Sou leitor de orelha também, e não consegui ficar imune ao texto de Leonardo Fróes para “Sardenha Como Uma Infância”, do italiano Elio Vittorini. 

Assim ele abre: “É difícil não mergulhar com interesse num livro que começa afirmando: ‘Eu sei o que é ser feliz na vida’. Mas que ninguém se iluda na esperança de ter aqui uma chave para esse estado que enfim todos almejam”.

Não resisti. Lembro de ter lido em uma noite apenas, tal a força do livro. “Sardenha” faz parte da coleção Companheiro de Viagem, lançada pela extinta Cosac Naify — fazem parte da série outros livros importantes, como “As Vozes de Marrakech” (Elias Canetti), “Marca d’Água” (Joseph Brodsky) e “A Viagem do Oriente” (Le Corbusier).

Vittorini escreveu o livro aos 24 anos, após fazer uma viagem para a Sardenha com uma companhia turística, acompanhado de vários outros. A ideia era escrever algo para uma revista literária. Sua capacidade de observar e escrever diálogos encanta.

Os trechos falam melhor do que eu. É uma viagem à infância, de qualquer leitor. Vittorini consegue colocar cheiros e texturas a cada página, nos pequenos capítulos das pouco mais de 100 páginas, que se transformam em minicontos. É uma obra de juventude, mas recheada de verdade.

Trechos

“Eu sei o que é ser feliz na vida — e a dádiva da existência, o gosto da hora que passa e das coisas que estão em torno, ainda que imóveis, a dádiva de amá-las, as coisas, fumando, e uma mulher dentro delas.”

“E não sei o que se passa em meu rosto nessas minhas felicidades, quando sinto que se está tão bem na vida: não sei se uma doçura sonolenta ou quem sabe um sorriso.”

“Gosto desta realidade de viagem, com estes amigos, este chiado dos bancos, este escuro lá fora, e uma cama de hotel esta noite, e quero isso enquanto dure. Nos campos nenhuma luz se acende.”

“Afundada na planície, tenho a impressão de tê-la inteira — Oristano — à altura de minha fronte, telhados e telhados, assim que ponho a cabeça para fora do carro e desço. Devem ser umas onze, antes do meio-dia, em pleno sol. Ao longe, os chacos calcinados cintilam — e há sono ali! – até o mar; penso no tédio daquelas orlas, no mugido daquelas águas quando incham com as chuvas.”

“Agora, malgrado tudo, quando, sentados numa pedra, meditam, sonolentos, ocupados com coisa nenhuma, eles estão na vida. Os outros que lutam, não, pois se deixam ocupar inteiramente em suas consciências pela luta e pelo movimento, sem conhecer outro prazer que não o da mercearia abarrotada. O segredo estaria em lutar pela existência, mas sem se deixar ocupar, por dentro, pela luta, pelo idealismo dela… De resto, há muito mais vida verdadeira em uma ruminação inerte. O ativismo como fim em si mesmo sempre me pareceu coisa de moscas, que mal param de voar ao redor, pousam e já começam a coçar a cabeça ou a afiar as patas dianteiras.”

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Li outros dois livros do italiano, “Conversa na Sicília” e “Homens e Não”, ambos também lançados pela Cosac. Os livros podem ser encontrados na Estante Virtual ou na Amazon.

Gostou da indicação do livro de Elio Vittorini? Se quiser acrescentar um título sobre o autor ou sugerir um tema para a coluna, deixe um comentário. Aproveite e leia mais indicações da coluna Bússola.

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