A bonita história da artista que se apaixonou pelos livros

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Brasileiros que moram em Mytle Beach, na Caroilina do Sul, no projeto Santa Leitura do ano passado

A artista plástica Estella Cruzmel se apaixonou tardiamente pelos livros. Só começou a ser alfabetizada aos 10 anos e confessa que sempre teve dificuldades com a leitura. Mas a paixão, quando chegou, foi tão arrebatadora que desde 2010 ela não faz outra coisa senão divulgar, diariamente, a literatura brasileira.

O amor pelas palavras, pela narrativa, pela prosa, pela poesia, por Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Adélia Prado e tantos outros é tão grande que ela decidiu abrir uma biblioteca permanente na cidade turística de Myrtle Beach, na Carolina do Sul, para onde levou também o Santa Leitura, um projeto de biblioteca a céu aberto que nasceu em 2010.

“Por meio da literatura, levo um pouco do cheiro do Brasil para os conterrâneos que vivem na cidade ou na região”, explica a artista. De acordo com ela, há uma estimativa de que cerca de 3.500 brasileiros vivem em Myrtle Beach. “Muitos não visitam o Brasil há anos e os livros ajudam a matar um pouco da saudade.”

Até o final do mês Estella embarca para os Estados Unidos para acompanhar o nascimento da segunda neta e já organizar o próximo Santa Leitura, evento que ela realiza anualmente, desde 2013, numa praça da cidade, em junho ou julho, período do verão nos Estados Unidos.

Na bagagem, como faz todo ano, levou cerca de 50 novos livros para ampliar o acervo da biblioteca, que está abrigada num restaurante cujos donos são do Brasil. Já são quase 700 títulos que ela empresta para a comunidade de brasileiros.

Mas Estella sonha mais alto. Sua meta é levar o Santa Leitura para o Central Park, em Nova York. “E vou realizar”, afirma com convicção a artista, que não costuma pensar muito nos obstáculos que pode enfrentar para atingir sua meta. “Penso que, se você quer, consegue”, diz ela.

A artista Estella Cruzmel (à esquerda), ao lado de duas contadoras de história do projeto Santa Leitura - Fotos - arquivo pessoal
A artista Estella Cruzmel (à esq.), ao lado de duas contadoras de história do projeto Santa Leitura | Fotos: Arquivo pessoal

O início de tudo

Caixotes pintados por Estella com frases de Carlos Drumond de Andrade
Caixotes pintados por Estella com frases de Carlos Drumond de Andrade

Estella nasceu numa fazenda próxima a Mariana, entrou para o primário aos 10 anos e, até então, não sabia o que era um livro. Após terminar o ensino médio, fez faculdade de teologia e também artes plásticas, na escola Guignard, mas teve que parar de pintar por conta de uma alergia provocada pelas tintas.

Em 2010, abriu uma loja de moda feminina no bairro Ipiranga, na região nordeste de Belo Horizonte, e como ficava ociosa uma parte do dia, decidiu criar por lá uma pequena biblioteca, que ela chamou inicialmente de Cantinho do Livro.

“Sempre tive muita dificuldade com a leitura e isso me incomodava. Decidi, então, começar uma pequena biblioteca para me distrair e, ao mesmo tempo, oferecer às minhas clientes um diferencial”, conta ela. Começou com um pequeno acervo de 50 títulos. Entre uma poesia de Carlos Drummond de Andrade e um conto de Clarice Lispector, foi tomando gosto pela leitura e a biblioteca foi só crescendo.

No mesmo ano, o cantinho do livro se transformou no projeto Santa Leitura. A biblioteca foi ampliada, com a compra de novos títulos pela dona e também com as doações, e passou a emprestar livros para as comunidades dos bairros Palmares, União, Cachoeirinha e Floresta. Dois anos depois, em 2012, a artista recebeu convite para levar o Santa Leitura para o bairro Taquaril. A ideia era dar à comunidade carente acesso à literatura.

Neste mesmo ano de 2012 Estella decidiu fechar a loja e se dedicar, única e exclusivamente, ao trabalho de divulgar a literatura brasileira. No ano seguinte, 2013, o Santa Leitura foi para a praça Duque de Caxias, em Santa Tereza, onde ficou por cinco anos (sempre aos domingos). Em 2015, com as idas constantes aos Estados Unidos para visitar a filha, começou a sentir saudades dos livros e decidiu levar para lá o seu projeto, bem como a ideia da biblioteca permanente.

Para iniciar o Santa Leitura em Mytlhe Beach, uma cidade litorânea com cerca de 20 mil habitantes, ela teve que pedir uma licença para a prefeitura local. Com a autorização, começou num domingo ensolarado de junho de 2015, por volta de 11h, e ficou até o final da tarde. De lá para cá, todos os anos, durante três domingos consecutivos, seja em junho ou julho, o projeto está numa praça da cidade, para a alegria dos pais e, especialmente, da criançada, já que o foco central é a literatura infantil.

Já os adultos que querem ler um livro de um escritor brasileiro podem pegar emprestado na biblioteca do restaurante Sabor Mineiro. Basta olhar o acervo, escolher o exemplar, assinar um caderno com nome e título que está levando e devolver até 30 dias depois. O empréstimo é gratuito. Desde que a biblioteca foi aberta, quase três anos atrás, não houve nenhum caso de empréstimo que não tenha sido devolvido.

O Padre Márcio Ribeiro de Souza ajuda artista a conseguir doações de livros infantis
O padre Márcio Ribeiro de Souza, da paróquia de Santa Tereza, ajuda a artista a conseguir doações de livros infantis

Pura paixão

A dedicação exclusiva de Estella aos livros pode fazer o leitor imaginar que ela é uma mulher de posses, de família rica, que pode se dar ao luxo de não fazer mais nada na vida a não ser divulgar a literatura, que não lhe rende nenhum tostão. Ledo engano. A artista tem uma modesta aposentadoria de pouco de mais de R$ 1.000 do ex-marido.

Os livros que ela distribui, especialmente no projeto Santa Leitura, são conseguidos especialmente por meio de doações. Para ganhar os exemplares, ela diz que tem a ajuda de dois anjos: um deles é o padre Márcio Ribeiro de Souza, pároco da igreja de Santa Tereza, que é parceiro do projeto desde 2013 e ajuda a arrecadar livros infantis; a outra é a amiga Cleo Zocrato, que tem uma loja no edifício Maleta, no centro de Belo Horizonte, e ajuda recolhendo exemplares nos sebos da cidade.

“Tudo que os sebos não querem ela recolhe e eu pego”, conta Estella. O resultado da coleta é levado para a praça Salvador Morici, na Floresta, que ela adotou por meio de uma parceria com a prefeitura de Belo Horizonte. Todos os dias, de 9h às 10h, a artista está no local para distribuir a quem se interessar um exemplar de um livro. A cada dia, são doados pelo menos dez livros, o que significa a doação de pelo menos 200 por mês (250 no mês de cinco semanas).

Por mera coincidência, Estella Cruzmel mora na rua Silva Jardim, a mesma em que morou, nos anos 20, Carlos Drummond de Andrade, o seu autor preferido. Para homenagear o escritor, para estimular o gosto pela leitura e também para exercer o seu lado artista, ela pinta caixotes de madeira, escreve em cada um frases de Drumond e distribui pelos jardins da praça. Dificilmente quem passa pelo local fica indiferente aos caixotes.

Mesmo com sua viagem aos Estados Unidos, onde deve ficar até março, o Santa Leitura não para. Para dar continuidade ao projeto, ela conta com a ajuda de vizinhos que abraçaram a ideia. Até que ela volte para assumir o posto, todos os dias haverá alguém nos bancos da praça Salvador Morici distribuindo livros.

Livros sno banco da praça Salvador Morici, na Floresta, que são doados pelo Santa Leitura
Livros sno banco da praça Salvador Morici, na Floresta, que são doados pelo Santa Leitura

E a menina que aprendeu ler muito tarde, que tinha certa aversão à literatura e que não lia, por ano, mais do que três livros, hoje lê pelo menos três por mês. “Infelizmente, não estou tendo tempo para ler mais”, lamenta. Aos que questionam seu desprendimento, já que o projeto não lhe garante nem mesmo o sustento, ela afirma que o retorno maior nem sempre é financeiro.

Aliás, Estella gosta muito de uma frase de um dos versos de Drummond, que está em um dos caixotes que ela coloca na praça do Santa Tereza: “Que a felicidade não dependa do dinheiro”. E como sonhar também não depende de dinheiro, a artista vai continuar trabalhando para conseguir viabilizar o seu grande sonho: levar livros de escritores brasileiros para o Central Park por meio do seu Santa Leitura.

Serviço

Quem quiser colaborar com o projeto Santa Leitura doando livros, pode entrar em contato com a própria Estella por meio de sua página no Facebook – facebook.com/LeituraNaPraca 

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