Advogado supera leucemia e cria rede social de doadores

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A rede Salve Mais Um é um canal de doação de sangue e medula

Quantas horas por semana você dedica para ajudar outras pessoas? Se formos absolutamente honestos, é possível que a maioria de nós responda: “nenhuma”. Essa era a resposta que o advogado mineiro Gabriel Massote, de Uberlândia, também daria em 2013.

Jovem, com curso superior, bem-sucedido e autossuficiente, nunca tinha sequer doado sangue, até que se viu vulnerável, precisando de uma doação de medula óssea. Desde então, percebeu que a vida teria muito mais sentido se pudesse, mais do que vencer a leucemia, doar-se a quem precisa.

Foi assim que ele, com o apoio de amigos, criou a plataforma Salve Mais Um enquanto se tratava no hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Hoje, a rede social reúne mais de 23 mil usuários de todo o Brasil e aproxima potenciais doadores de quem precisa de doação de sangue e medula.

Por meio do site, os internautas podem criar campanhas de coleta de sangue, mostrando quem vai receber a doação. “As pessoas se sensibilizam mais quando sabem quem vão ajudar. Acaba sendo mais eficiente”, afirma o advogado.

A expertise de atuar na internet veio do blog Transplantando, que Massote abriu logo no início do tratamento, em 2013, incentivado pela então noiva (hoje, sua mulher) Ana Gabriela Pena. “Eu achava uma perda de tempo ter um blog, dizia que era coisa de quem não tinha o que fazer. Até que ela me confrontou e eu percebi que realmente estava à toa. Hoje eu vejo o quanto foi importante para mim e para outros pacientes que também esperam pelo transplante e querem entender a doença”, diz.

Os textos de Gabriel, ainda hoje no ar, acompanham, passo a passo, as etapas do tratamento e do processo de transplante. O blog reflete a visão do paciente, algo que o advogado procurou na internet quando recebeu o diagnóstico, mas que não encontrou.

Assim, as postagens revelam uma parte do sofrimento vivido na cama do hospital, mas sobretudo expõem o otimismo e o bom humor de seu autor, bem como sua fé. “Essa é a tríade que me manteve o tempo todo acreditando que daria certo”, diz. Acrescente-se a isso uma verdadeira guerra judicial contra o plano de saúde, que se negava a atender as necessidades do advogado.

O advogado Gabriel Massote, que criou a rede Salve Mais Um | Foto: Arquivo pessoal

Salvação veio de Rondônia

Em meio à dor e ao prognóstico de somente 20% de cura, com 97% das células tomadas pelo câncer, Massote foi salvo por um gesto da dona de casa Elza Boaro. Moradora de Ariquemes, interior da Rondônia, ela se cadastrou como doadora de medula em uma campanha, em agosto de 2010. Com essa iniciativa, Elza ainda não sabia, mas salvaria a vida do advogado mineiro três anos depois.

O caminho dos dois, porém, não foi marcado somente por encontros. Houve muitos desvios até que as células sanguíneas de Gabriel pudessem ser substituídas pelas de Elza. A chance de encontrar um doador 100% compatível era de cerca de uma para 100 mil. O cadastro apontava a existência de Elza, mas ninguém sabia onde ela poderia ser encontrada, pois a mulher havia mudado de endereço e o cadastro estava desatualizado.

Como o blog já existia, a primeira campanha encabeçada por Gabriel foi em busca de sua doadora, encontrada com muita dificuldade com o apoio de internautas que se mobilizaram para achá-la. Uma vez encontrada, Elza viajou 6.000 km para que pudesse doar a medula — não uma, mas duas vezes, já que o primeiro procedimento não obteve sucesso.

Gabriel aprendia, então, duas importantes lições sobre a solidariedade. A primeira, ele classifica de “tapa na cara”: uma dona de casa humilde, sem muito estudo, teve a nobreza de cadastrar-se como doadora de medula e não mediu esforços para realizar a doação, enquanto ele, que via-se como uma pessoa esclarecida e estudada, nunca havia feito nada em benefício de alguém que não ele mesmo. A segunda lição foi sobre o poder de mobilização das redes sociais em prol de uma causa.

Elza Boaro e Gabriel Massote | Foto: Divulgação/Governo de Rondônia

Apoio da cama do hospital para doação

Depois dessa campanha, uma outra mobilização formou o que seria o embrião da rede social Salve Mais Um: um movimento para conseguir um tratamento alternativo para Ana Luiza, bebê acometido pela mesma leucemia enfrentada por Gabriel. Assim como no caso dele, a busca pela cura passava por vias judiciais. O advogado preparou a ação internado, contando com a ajuda de outros profissionais que atuavam do lado de fora de hospital.

Amparada pela decisão da Justiça, Ana Luiza foi submetida a um tratamento inédito no hospital Sírio Libanês, mas não resistiu ao câncer. Sua história de luta, porém, foi abraçada por Gabriel, que até hoje se dispõe a ajudar pacientes em dificuldade, aproveitando os conhecimentos que adquiriu com a própria história.

Não à toa, neste mês, ele está em Portugal, terminando uma especialização em Direto da Medicina na Universidade de Coimbra. “A herança que a Ana Luiza me deixou foi essa vontade perene de ajudar outras pessoas”, afirma.

A bebê Ana Luiza, que recebeu apoio de Gabriel | Foto: Arquivo pessoal

Como profissional da advocacia, Gabriel cobra de seus clientes. Mas não se furta a ajudar, da maneira que puder, quem não tem condições de pagar. “Pode soar estranho, mas eu sou muito grato à leucemia. Ela me trouxe a uma outra realidade de vida. Antes, eu achava que era feliz, mas hoje eu sei que não era. Não concebo mais aquela ideia. A felicidade de verdade vem acompanhada por essa sensação de ajudar, de ser útil a alguém”, diz o advogado.

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