Instituto Ipê: espaço de saúde só com plantas medicinais

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Enfermeira Cida mostra algumas plantas que ela cultiva no Instituto Ipê, no bairro Tocantins, em Uberlândia. Foto - arquivo pessoal

Uberlândia – É na zona oeste de Uberlândia, no bairro Tocantins, em uma casa simples, cedida pelo Pastoral Operária da Igreja Católica, que a enfermeira Maria Aparecida dos Santos Barbosa, a Cida Barbosa, e seus filhos coordenam o Instituto Ipê – Psam (Projeto Semente Ação Mulher), que atende, em média, 150 pessoas por mês.

No local, são oferecidos à comunidade vários procedimentos, como terapias alimentares, reiki, homeopatia, fitoterapia e auriculoterapia (estimulação com agulhas de pontos específicos da orelha). O carro chefe do instituto, porém, é o conhecimento que Cida tem das chamadas práticas integrativas e complementares de saúde, que é o uso de plantas medicinais no tratamento de algumas doenças, que é reconhecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

O saber popular é o condutor para o atendimento no local. Mas, por lá, estão também  profissionais formados pelas áreas da saúde convencional, como médicos e farmacêuticos. Cristiano Barbosa é uma das pessoas que atendem no Ipê. Filho de Cida, ele estudou Fitoterapia e depois Farmácia. É um dos responsáveis pelo pequeno laboratório do instituto, onde são manipuladas as plantas e produzidos os remédios.

Com ele, a história da aproximação com a flora e o saber popular mais uma vez se renova. “Via minha mãe naquela bagunça com as folhas e com os preparos. Então, fui me aproximando. Comecei a estudar e agora estou aqui com ela”, conta Cristiano. Outros dois filhos de Cida, Sandro e Paulo, também atuam no atendimento à população, como enfermeiro e técnico de alimentos, respectivamente.

Repassando conhecimentos

Cida diz que está ficando cada dia mais difícil encontrar plantas medicinais para produzir medicamentos. Foto - arquivo pessoal
Cida diz que está ficando cada dia mais difícil encontrar plantas medicinais para produzir medicamentos. Foto – arquivo pessoal

Apesar de toda dedicação e entusiasmo, Cida e os filhos andam preocupados. O acesso às plantas não é tão simples e não está tão disponível como no passado. “Hoje, compramos nossos insumos e não é fácil encontrar”, explica Cristiano. Por isso, os medicamentos, que eram dispensados gratuitamente à população, passaram a ter um preço entre R$ 10 e R$ 20. “Precisamos, infelizmente, repassar esse custo. Não conseguimos pagar tudo do nosso próprio bolso”, lamenta Cristiano. Hoje, o instituto não recebe nenhum tipo de subvenção nem da prefeitura municipal, nem do governo estadual, nem do governo federal.

Os ensinamentos sobre a utilização da fitoterapia também são repassados pela mãe e pelo filho à comunidade e é uma forma de disseminação da medicina popular. Além dos cursos na própria sede do Ipê-Psam, os dois promovem palestras a convite de entidades e instituições de ensino.

“Explicamos como é a utilização das plantas, características, onde estão e as aplicações. Mas falamos apenas de uma parte das espécies que são autorizados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que são mais de 250. Destas, apenas 76 estão nesse trabalho. São as que estão mais acessíveis à população”, explica Cristiano.

Na Escola Agrotécnica Federal de Uberlândia os cursos ministrados por Cida são frequentes. “Há vários anos vamos até lá e explicamos quais as ervas podem ser usadas para fazer xaropes, sabonetes, pomadas cicatrizantes e outras funções. Sempre aparecem médicos, farmacêuticos, psicólogos e de outras várias profissões”, conta Cida.

No curso a enfermeira fala, por exemplo, das plantas que mais usa, como o Angico, Aroeira e Amora. Todas são fáceis de encontrar e têm diversas aplicações, segundo ela. “Não abordamos espécies de difícil acesso para não criar problemas para quem nos ouve. Se for preciso, fazemos os compostos com essas ervas. Mas sempre apresentamos as mais simples”, relata.

A trajetória

Natural de Centralina, também no Triângulo Mineiro, Cida chegou em Uberlândia em 1961. Ainda criança, conheceu nas práticas da mãe curandeira as propriedades de uma infinidade de plantas do cerrado, que eram usadas no tratamento de alguns problemas de saúde. “Quando entendi o que ela realmente fazia eu tinha 12 anos. Mamãe benzia contra o vento-virado e fazia garrafadas, era parteira, como minhas tias. A pessoa ficava doente e logo corria para procurar por ela”, relembra.

Como tratar de pessoas sempre lhe pareceu uma vocação, Cida fez um curso de auxiliar de enfermagem e passou a trabalhar, após passar num concurso público, na rede municipal de saúde de Uberlândia. Hoje, além do registro profissional de classe como técnica de enfermagem, ela também tem título de Terapeuta Holística e de Gestora Hospitalar. E em quase 40 anos de profissão, passou a mesclar os conhecimentos que aprendeu com a mãe com os ensinamentos que recebeu no curso de enfermagem, sempre ajudando a população da periferia da cidade.

Na rede pública, conheceu o homeopata e cirurgião pediátrico Wagner Deocleciano Ribeiro, que passou a ser seu parceiro na difusão das práticas integrativas. Sob a supervisão do médico, Cida começou a produzir remédios de homeopatia, que eram distribuídos à população. “Havia voltado de um tempo de estudos na França e recebi um convite da Universidade Federal de Uberlândia para desenvolver um trabalho de pesquisa e docência. Aceitei e ainda entrei para a residência em cirurgia infantil”, relembra.

O médico conta como começou a parceria com Cida. “Ela já desenvolvia o trabalho de fitoterapia e com a ajuda de empresas da cidade montamos a farmácia de homeopatia no bairro Pacaembu”, lembra.  A energia, disposição e entusiasmo no trabalho era a marca registrada de Cida, diz Wagner. “Quando eu vinha com uma ideia, ela já apresentava outra. Produzimos muito”, recorda.

Multimistura

Foi também na rede pública que Cida teve o primeiro contato com uma multimistura que foi desenvolvida pela médica paulista Clara Brandão, que resulta em uma farinha de grande valor nutricional. Ela é feita de subprodutos de alimentos como casca de ovo fervida, torrada e triturada, semente de abóbora torrada ou semente de gergelim triturada, farelo de arroz triturado e cozido (sem colocar água), farinha de milho ou fubá, pó de folha de mandioca torrada, triturada e peneirada e folhas verdes (chuchu, abóbora e outras).

A adoção da farinha na dieta de crianças desnutridas ganhou força no Brasil com a adesão da Pastoral da Criança, na época liderada por Zilda Arns, para a sua aplicação nas camadas mais pobres da população. Atualmente, o programa de orientação alimentar contra a desnutrição, desenvolvido pela médica Clara, está em todos os estados brasileiros e em mais 15 países da América Latina, África e Ásia.

Junto com os profissionais da saúde com quem trabalhava, Cida passou a produzir e a distribuir também essa multmistura. O médico Wagnner Ribeiro também acompanhou na comunidade onde trabalhavam a distribuição da farinha. “Houve aceitação grande justamente pela ligação com a Pastoral da Criança. Acompanhei vários casos e os resultados eram espetaculares. Essa mistura, aplicada à homeopatia, trouxe grandes benefícios para a população mais carente de Uberlândia”, afirma o médico.

A conta do industrial e os benefícios do quintal

Um estudo apresentado pelo Ministério da Saúde (MS), em julho deste ano, apontou que a indústria retirou mais de 17,2 mil toneladas de sal dos alimentos desde 2011, quando foi firmado acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia) para diminuir o sódio nos produtos alimentícios. E não é apenas o sódio nos alimentos que está na lista de enfretamento do ministério. Há um acordo em tramitação para a redução do açúcar nos alimentos, além de uma melhora nas informações dos rótulos dos produtos.

De acordo com a pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), divulgada em abril deste ano, o excesso de peso no Brasil cresceu 26,3% nos últimos dez anos, passando de 42,6% da população em 2006 para 53,8% em 2016. Segundo o estudo, o problema é mais comum entre os homens: passou de 47,5% para 57,7% no período. Já entre as mulheres, o índice passou de 38,5% para 50,5%.

Todo esse esforço do governo para a mudança de postura da indústria e de hábitos da população é o que Cida vem tentando fazer nos seus quase 40 anos de trabalho. “As pessoas tinham mais saúde no passado. E eu acho que é porque consumiam mais produtos naturais, menos industrializados”, afirma a enfermeira.

“Fui criada com o que tínhamos no quintal da casa onde vivíamos na infância. E criei meus filhos com o que tínhamos no quintal onde eles cresceram. Frango, ovo e até o leite eu produzia com a soja que a gente plantava”, conta Cida. “Não dá para acreditar que aquele alimento amarelo que você encontra na lata é daquela cor mesmo. Tem química ali”, sentencia.

Com a credencial de quem acompanhou muito de perto o seu trabalho e a sua disposição, o médico e amigo Wagner faz uma síntese do trabalho da Cida. “O que ela revela é que a simplicidade de levar as pessoas de volta ao contato com o meio-ambiente, com as culturas populares, com os chás é o que realmente traz qualidade de vida”.

Serviço: O atendimento à população no Tocantins

Para quem quer recorrer aos remédios e ensinamentos da Cida, o caminho é simples. Basta ligar para o instituto e agendar.

Telefone: (34) 3224-0136

Endereço: Rua Capitão Diomar Menezes, 196, bairro Tocantins, Uberlândia (MG)

Por conta da dificuldade financeira da instituição, são cobradas taxas simbólicas pelos medicamentos, que são usadas para ajudar nas despesas do Instituto Ipê.

 

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