O guardião do manacá

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Miguel, de apenas 2 anos, se tornou o guardião do pé de manacá da família Bicalho.. Foto - arquivo pessoal
Miguel, de apenas 2 anos, se tornou o guardião do pé de manacá da família Bicalho.. Foto - arquivo pessoal

Aqui em casa, vez ou outra, o pé de manacá renasce e inunda o nosso quintal de flores. O perfume, delicioso, nos encanta, mas também é chamarisco para centenas de lagartinhas coloridas. Em poucas horas, as bichinhas devoram tudo o que encontram pela frente. Ao final do banquete, sobram somente os galhos desnudos do pobre arbusto.
Mas agora o manacá ganhou mais um defensor. Miguel, do alto dos seus dois anos recém-completados, se arma com os gravetos que encontra pelo terreiro e parte em defesa da árvore. Com a seriedade de um guardião, tenta expulsar os bichinhos, como se fosse o herói do quintal. Não satisfeito, virou os olhos da tia DD.

  • Tia Dedê, bichinho! — , diz ele, apontando para uma lagartinha que facilmente escaparia dos olhos da tia guardiã das plantas da casa ancestral.

Miguel ainda não sabe que, apesar de sua a valentia, a natureza, para desgosto da Denise, seguiria seu curso e que daí a pouco iria, mais uma vez, operar um milagre diante dos nossos olhos. O que era lagarta viraria borboleta. Muitas. O quintal iria se colorir com uma revoada delas. Um deslumbramento.

  • Ah, tá bom. São bonitas. E o pé de manacá?

Em casa, não raro, surge esse tipo de discussão. Alguém corre no Google e conta que a borboleta é símbolo da felicidade, da inconstância, da transformação, da efemeridade e da beleza. E não é só isso. Tem mais. No espiritismo, é o símbolo da reencarnação; na psicanálise, está ligada ao renascimento do pensamento, da imortalidade. E na mitologia grega, personifica a alma, representada como uma mulher alada. Segundo a mitologia, quando alguém morria, a alma saía do corpo em forma de borboleta.
Dia desses, absorta nos significados, me vi apartando uma discussão entre duas das minhas irmãs. Denise saiu em defesa do manacá. Queria porque queria promover uma verdadeira guerra bacteriológica contra as lagartas.

– Vou no Marcelino comprar um produto pra exterminar de vez com essa praga. O Beto me disse que uma mistura de fumo com água costuma dar certo. Ele recomendou também a calda bordalesa. A proporção é de uma parte de cal virgem para uma parte de sulfato de cobre e cem partes de água.

Gilda, contra a matança, apelava para conceitos estéticos e humanitários:

  • Não mate as bichinhas. Elas vão virar borboletas. É só esperar pelo tempo da natureza.

Em meio à discussão, abstraí e foquei no casulo. Na segurança desse abrigo temporário, a borboleta espera silenciosamente pela nova vida. No Aurélio, abrigo é sinônimo de proteção, resguardo das intempéries, refúgio. Em outros dicionários, a definição não é diferente.
E não é que o mesmo conceito também se aplica à vida real? Abrigo é casa, família e amigos. Se você está perdido, sem rumo, lá vamos nós. Não dá outra. O abrigo está no colo, no ombro. Refugie-se aí. Não há tempestade que o derrote.
Em tempos sombrios, o meu abrigo é na casa da minha infância. Essa mesma. A que tem um pé de manacá no quintal. Li em algum lugar, não me lembro a fonte, que a gente sempre encontra conforto numa armadura de afetos e de amor. Talvez o amor seja mesmo como um local de descanso, um abrigo da tempestade. É como num casulo. Torcendo aqui para que você também já tenha se abrigado no seu.

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