Não sei como é na sua casa, mas na minha a mesa é ponto de encontro. Tudo começa e termina ali. Não há rede social que substitua esse altar. Ninguém come na cama. Mesa é chão firme, é abraço. Mesmo na pressa, a gente se senta, compartilha, ajeita corpo e alma. A vida é costura: erros, acertos, pontos frouxos. O corpo se cura, a alma ainda se ressente. Mas à mesa, tudo se pacifica.
O dia amanhece com café. Mesa posta, toalha esticada, xícaras alinhadas, pratos de sobremesa esperando o pãozinho simples. Herança de mãe, de avó, de tantas mãos que vieram antes. Costume que atravessa gerações.
Ao meio-dia, o ritmo é outro. Almoço corrido, comida de restaurante, pressa que não perdoa. Mas quando a noite cai, o lar se acende. Fogão vivo, cheiro de alho e cebola impregnando a mão. Arroz fresco, feijão borbulhando. Porque, para mim, fogão apagado é casa sem alma.
E é nesse altar que a doçura se revela. Depois do salgado, vem o açúcar. Nos fins de semana, há espaço para pudim com calda escorrendo pelo queixo e também para goiabada com queijo curando as mazelas da semana. Tentamos ser fitness, mas o nosso coração só encontra sossego diante de um doce que faz a gente suspirar e o dentista chorar. Somos uma família em ponto de fio: doce, grudento, impossível de resistir.
Mas não fique aí imaginando que tudo é um mar de rosas. Em se tratando de comida, por aqui nem sempre há consenso. Pode o doce se misturar ao salgado? Há quem discorde que o lombinho combine com laranja, o tender com abacaxi e o salmão com maracujá. Uns amam, outros torcem o nariz. Bernardo e Juju protestam contra farofa com banana e maionese com maçã. Nem o argumento das tias, de tentar dar chance ao novo, é capaz de convencer a ala mais jovem.
Mas, como as tias são velhas de guerra, no frigir dos ovos, tudo se apazigua. A bandeira da paz vem com prato de maionese sem maçã para o João Guilherme e uma porção de farofa sem banana para Juju e o Bernardo.
- Mas para que esse trabalhão todo?
Uai! Porque por aqui a cozinha não é campo de batalha. É lugar de afeto. Sempre que falo ou escrevo sobre isso, lembro da Nina Simone. A cantora (que eu adoro) disse certa vez que “só se sai da mesa quando o amor não é mais servido”. Por aqui, seguimos esse conselho à risca. E como aqui nessa família grande e barulhenta amor é mato, nos fins de semana o café emenda no almoço, que emenda no café da tarde, que emenda no jantar. A Minas profunda entende: mesa sempre posta, vida devagar, afetos sedimentados.
Ah, de volta à cozinha, vou revelar alguns segredinhos herdados das avós. Todo doce pede sal. Todo salgado pede açúcar. Molho de tomate ganha cenoura ou pitada doce. Arroz doce pede salzinho. Bolo chocolatudo agradece flor de sal. Pequenos gestos que transformam pratos em memória. Doce com salgado é casal agridoce. União de opostos que se completam. Como na amizade, como no casamento. Mistura que dá liga. Que vira abraço, beijo, palavra de afeto.
Resumindo essa prosa toda, cozinhar é ato de amor. Estar à mesa é comunhão. O primeiro alimento é a presença do outro. É ela que nos faz fraternos, companheiros. É ela que dá sentido ao milagre cotidiano: viver juntos, ao redor da mesa.






























