Entre heróis e anti-heróis
Na infância, eu acreditava que o mundo era uma ilha. Robinson Crusoé, com sua engenhosidade e coragem, ensinava-me que bastava uma mente criativa e duas mãos firmes para reinventar a vida. Ele erguia cabanas, domava a solidão, fazia da areia e do mar um território possível. Era o herói que enfrentava o desconhecido, e eu, menina, acreditava que bastava ser forte para sobreviver.
Mas a vida adulta me mostrou que não vivemos em ilhas. Nas páginas de As Vinhas da Ira, John Steinbeck apresentou-me famílias inteiras expulsas da terra, caminhando sob o sol da injustiça. Ali não havia cabanas erguidas com destreza, mas barracos improvisados, fome repartida, esperanças divididas. Tom Joad não era um herói no sentido clássico: era um homem comum, carregando nos ombros a dor coletiva. E foi nesse peso compartilhado que descobri a verdadeira grandeza.
Robinson Crusoé morava na estante lá de casa. Não era apenas um livro: era uma herança, passada da infância da nossa mãe para os seus irmãos, como quem transmite um segredo precioso. Mamãe, leitora voraz, parecia se alimentar de literatura. E talvez tenha sido desse apetite que nasceu o meu amor pelos livros. Detalhe importante: mamãe guardava como um tesouro precioso E o Vento Levou, presente do nosso pai. Acredito que o Velho Osvaldo via nela uma Scarlett O’Hara, a heroína da obra de Margaret Mitchell. Mas isso já é outra história. Conto depois.
Voltando ao xis da questão, não pensem que lá em casa todos cultuavam os livros. Um dos meus irmãos, cujo nome é melhor não revelar (se é que vocês me entendem), não era exatamente um devorador de páginas. Só uma obra conseguiu virar nele a chave do conhecimento. E, embora nunca admitisse, deixou escapar o encantamento por O Menino Maluquinho, do Ziraldo. Como a gente descobriu? Uai! Todos os dias, ao chegar da escola, jogava a pasta pela janela, gesto idêntico ao do personagem que deu nome à obra desse mineiro de Caratinga.
Mas, Gisele, o tal menino não tinha nome? Não tinha, não. Era sempre chamado apenas de “menino maluquinho”. É como se o apelido fosse sua identidade. A panela na cabeça, o casaco grande e os sapatos largos viraram sua marca registrada. Ziraldo nunca precisou lhe dar um nome formal, justamente para que qualquer criança pudesse se reconhecer nele. Como meu irmão.
Quanto a mim, diferentemente desse “menino maluquinho”, na infância e na adolescência devorei os clássicos que brotavam da nossa biblioteca doméstica. Havia também outras três espalhadas por Conceição do Pará. A cidade, pequena no mapa, era imensa em páginas. Havia a biblioteca da E. E. Dr. Isauro Epifânio — que anos depois recebeu o nome da nossa mãe —, a municipal e uma terceira, deixada como legado por um padre generoso.
Não sei se resistiram ao tempo, mas naqueles dias eram abrigo certo para minha curiosidade, templos silenciosos onde aprendi que o mundo cabia dentro de um livro. Agora adulta, percebo que o impacto dessas obras é outro: há um novo olhar, uma releitura que se abre como variações sobre o mesmo tema. Quanto a As Vinhas da Ira, reli recentemente, um presente do amigo Paulo Marcelo, que tem lugar de honra na minha biblioteca. E, ao reler esse clássico, descobri que cada idade nos devolve um livro diferente. Como se a obra se reinventasse junto com quem a lê.
Atualmente ando encantada com a obra de Socorro Acioli. Oração para Desaparecer, de que gostei mais do que Cabeça de Santo, está se tornando o meu mais novo livro preferido da vida. Veio fazer companhia a A Guerra do Fim do Mundo, de Mario Vargas Llosa, e a As Vinhas da Ira, de Steinbeck.
Essas reflexões voltaram com força quando assisti a um vídeo de Vinicio Souza, criador do @paginasdemisterio. O influenciador reproduzia um recorte de uma entrevista de Emmanuel Macron, na qual o presidente francês falava sobre os personagens literários com os quais se identifica. Macron transitou por Stendhal, atento às paixões humanas, pelos heróis de Alexandre Dumas, e concluiu que os anti-heróis de Flaubert são os mais inspiradores.
E percebi que há um fio que nos une: da ilha de Crusoé às estradas poeirentas de Steinbeck, dos salões de Stendhal às aventuras de Dumas, até a ironia amarga de Flaubert. Todos esses personagens — heróis, anti-heróis, antagonistas — são espelhos de nossas próprias contradições.
No cotidiano, os anti-heróis nos lembram que a vida não é feita de épicos, mas de imperfeições. Há muitos exemplos nesse vasto mundo da literatura. Brás Cubas, por exemplo, com sua ironia pós-morte, mostra-nos que até o fracasso pode ser narrado com humor e lucidez. E Macabéa, de Clarice Lispector, revela a invisibilidade de tantas vidas comuns, lembrando que o silêncio também é uma forma de resistência.
Hoje entendo que minha trajetória de leitora reflete a própria travessia da vida. Na infância, buscamos o herói solitário, porque precisamos acreditar que podemos enfrentar o mundo sozinhos. Na maturidade, reconhecemos que somos feitos de vínculos, que a sobrevivência não está apenas na engenhosidade individual, mas na solidariedade que nos sustenta.
Robinson me ensinou a resistir. Tom Joad me ensinou a permanecer. Brás Cubas e Macabéa lembram-me de que ser humano é carregar contradições — e que nelas reside a beleza da literatura e da vida.































Como sempre, amei!
Obrigada, Gildinha!