Por que insistimos em ser ilhas?

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    Ovos nevados: receita de Marina Cunha

    Na semana passada, fomos surpreendidos por mais uma catástrofe sem precedentes. O continente africano foi tomado de assalto por um ciclone que já matou mais de 700 pessoas. Planejava o cardápio do evento de sábado e não havia me dado conta, até aquele momento, que esse acontecimento, de uma forma muito subliminar, havia direcionado meu olhar para a composição do cardápio.

    Hoje, enquanto pensava sobre o que escrever, percebi um fato constante nos pratos que fiz. TODOS eram ilhas. A salada, rodeada de vinagrete, o escondidinho sobre o prato parecia a Ilha de Páscoa. O linguado repousava na mata verde de espinafre e isolava-se de tudo com um oceano de molho de uvas moscatel.

    Mimi e Josefin começaram a cantar “Creep”, do Radiohead, e as lágrimas brotaram de forma incontrolável. Quando nossa busca pela individualidade (tão necessária, isso é fato) nos isolou tanto? A “água” consumiu Moçambique, consumiu Mariana, consumiu Brumadinho. O que buscamos tanto lavar?

    A Inglaterra está há meses tentando se desvencilhar da União Europeia. Passa por dias e dias de discussões legislativas desgastantes e não há sequer um consenso sobre essa decisão de isolamento, nem no Legislativo nem na população. Será que essa vocação insular é natural?

    Quando passamos a acreditar que somos esquisitões demais e nos fechar? Por que depois de conquistar a globalização deixamos de construir pontes? Por que estamos nos dividindo novamente em polos binários? Conseguimos o máximo da representatividade, descobrimos tantas formas de amar diferentes e por que ainda não entendemos que somos todos “so fucking special” e não parte de nós apenas.

    Os porquês que nos perseguem

    Por que permitimos que o pior de nós aflore quando sabemos que essa parte ruim existe? Por que comemoramos barracos em chama? Por que comemoramos a morte de uma criança? Por que celebramos ditaduras e ditadores? Por que olhamos pessoas diferentes com desconfiança se nos sentimos, em boa parte do tempo, “esquisitos” também?

    Acabei de ler o relato da professora Katemari, que admiro e respeito muito, sobre um check-in que ela acabara de fazer. A fila para o procedimento estava imensa, mas havia a opção do “check-in premium” e não havia absolutamente uma pessoa na fila. Ela se direcionou a esse balcão para imprimir seu cartão de embarque.

    A atendente afirmou que Katemari estava no lugar errado, mas que faria a impressão. Todos da fila de check-in convencional olharam para Katemari como se ela fosse uma “esquisita”. Acontece que a professora era cliente premium. Foi julgada de forma errada e nenhuma das almas que interagiram com ela tiveram a curiosidade e o cuidado de fazer o questionamento antes de julgarem o que viam. Por que fazemos isso?

    Nenhum de nós é melhor que o outro, no entanto, somos todos especiais em nossa individualidade. Por que isso não é o suficiente para construir pontes que já fizemos no passado?

    O Japão pós-guerra se reconstruiu, a Europa foi devastada pelos bombardeios e hoje evoluiu em seu pensamento coletivo, metrôs funcionam e são usados por todos e não apenas pelos pobres, as pessoas respeitam os espaços públicos, valorizam e usam praças, parques, museus.

    Até quando colocaremos nossas crianças na escola sentadas uma de frente para a nuca da outra porque temos medo de ser confrontados pela ingenuidade inteligente de uma criança? Por que precisamos ser fortalezas o tempo todo?

    Pensando nisso, sugiro a receita de hoje. Como não tenho respostas e acho que essas respostas podem ser diferentes para cada um de nós, o prato de hoje é a tentativa de adoçar essa reflexão necessária: Ilha Flutuante.

    Também trouxe algumas iniciativas coletivas para ajudar as pessoas que estão em situação de vulnerabilidade na África:

    Pelo mundo

    (obrigada Priscila Gama pelo compartilhamento dos links)

    Em Minas Gerais – vítimas de barragem

    Receita da Ilha Flutuante (ou ovos nevados)

    Para o creme

    • 1 litro de leite integral
    • 1 fava de baunilha do Taiti
    • 18 gemas
    • 150 g de açúcar

    Para o caramelo

    50 g de açúcar

    • 100 ml de água
    • 50 ml de Amaretto

    Para as claras em neve

    • 18 claras
    • 1 pitada de sal
    • 150 g de açúcar

    Para decorar

    • Amêndoas laminadas torradas

    Preparo

    Creme: Corte a baunilha longitudinalmente e raspe as sementes e junte ao leite (tanto as favas quanto as sementes). Ferva o leite.

    Enquanto aquece o leite, bata as gemas com o açúcar até que dobrem de volume e fiquem num tom de amarelo bem claro, quase creme.  

    Despeje o leite fervendo aos poucos sobre as gemas mexendo sem parar (eu usei a batedeira na velocidade 1 – não tenha pressa nessa etapa, do contrário as gemas irão cozinhar e a textura será arrasada).

    Leve essa mistura de gemas e leite ao fogo baixo até engrossar, não pare de misturar. Para checar o ponto, mergulhe uma colher de sopa no creme e faça um risco com o dedo nas costas da colher. Se o risco se mantiver e o creme não escorrer, está pronto.

    Caramelo: Misture a água, o açúcar e o Amaretto e leve ao fogo até dourar (o ponto do caramelo é líquido, não puxa).

    Claras (nuvens): Bata as claras em neve com uma pitada de sal. Quando estiverem firmes, adicione aos poucos o açúcar e depois faça “bolas” com a ajuda de conchas e disponha sobre uma travessa forrada com papel manteiga e caramelo e asse em forno pré-aquecido a 180°C.

    Para montar as taças, disponha o creme, as nuvens, regue com o caramelo e salpique as amêndoas.

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    Quer ler as outras receitas e crônicas da Marina? Então visite a página do Cozinhas Gerais! Vamos trocar receitas e histórias?

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