Aplausos para a Holanda: grandes olham para pequenos

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Futebol holandês cria solução para os clubes pequenos

Desde que me entendo por gente, o futebol holandês é sinônimo de jogadores habilidosos, de times bem montados e de um estilo de jogo alegre como a tradicionalíssima cor laranja de sua (linda) camisa. O país do imortal Cruyff tem três campeões continentais (Ajax, Feyenoord e PSV), mas hoje seus clubes ocupam um papel secundário no cenário. Uma alternativa criada pelos três gigantes para reforçar o futebol local chama a atenção e me fez pensar no tanto que esse exemplo poderia ser repetido no Brasil.

No início deste mês, jornais holandeses divulgaram a notícia de que os três clubes criaram um plano para reforçar o futebol holandês por meio do repasse das receitas obtidas pelas equipes nos torneios continentais para todos os demais participantes da primeira divisão holandesa, a Eredivisie. O projeto ainda precisa ser aprovado pela federação local, mas se trata de uma iniciativa única e que pode realmente fazer diferença.

O que seria distribuído é relativo a 10% do total das receitas, e alguns estudos baseados nas prováveis campanhas dos clubes no continente chegam ao valor de 10 milhões de euros, o que parece ser “pouco”, se repassado a mais 15 clubes, mas se trata de uma quantia relevante para começar a mudar o cenário atual de desequilíbrio.

Além de reforçarem o caixa das equipes menores, os três gigantes ajudarão, com essa iniciativa, a revelar valores que podem depois atuar nas principais equipes holandesas e certamente reforçarão a própria seleção, que, não custa lembrar, não foi à última Copa. Isso sem falar que irão competir com equipes melhores e em um campeonato mais equilibrado, o que também traz benefícios técnicos para todos – sem falar na valorização financeira da própria competição.

A ideia original também passa por uma redução de 18 para 16 equipes na primeira divisão e a determinação de que todos atuem em campos gramados, o que evitaria o uso da grama sintética. Em um país pequeno como a Holanda, um campeonato com menos times certamente teria benefícios qualitativos e, sem dúvida, fazer com que todos joguem em pisos iguais é justo e nem deveria ser discutido. Ainda serão estudados temas como uma eventual adoção do sistema de play-off para definir o campeão, com o que eu não concordo, e a manutenção dos times B dos três grandes na segunda divisão.

Sobre os play-offs, tema para um outro momento, a meta é aumentar o interesse comercial pela competição, que já usa esse método para definir o rebaixamento. Para mim, justo é que o campeão seja conhecido após todos jogarem contra todos, ida e volta. Até pelo fato de o mata-mata já existir na Copa da Holanda.

Bom exemplo

Uma ação desse tipo pode causar efeitos semelhantes em campeonatos nacionais europeus que também sofrem com um desequilíbrio abissal entre grandes e pequenos, como em Portugal, por exemplo, dominado eternamente por Benfica, Porto e Sporting, na Escócia, há anos nas mãos do Celtic, ou na Grécia, com raras variações entre campeões.

Uma boa distribuição de renda faz com que a Premier League inglesa seja o campeonato mais equilibrado e rentável do mundo. Com a divisão das cotas base de TV feita de maneira igualitária entre os clubes e a premiação por mérito, de acordo com a classificação no campeonato, entre outras ações, a Inglaterra permite que clubes pequenos encarem os grandes de igual para igual e inclusive contratem estrelas, tirando jogadores que atuam em clubes de peso continental incomparável. Um exemplo recente foi Shaqiri, principal jogador suíço, que deixou a Internazionale, da Itália, para defender o Stoke City, rebaixado na última temporada inglesa.

Os benefícios estão todos aí. Ligue sua TV e acompanhe o bom futebol, os estádios cheios e bem cuidados, os craques e a rentabilidade não só da Premier League como da Championship, a segundona inglesa que tem média de público maior do que o Brasileirão há anos. A experiência dos inventores do futebol poderia ser replicada na Espanha, onde conseguir tirar a taça de Barcelona ou Real Madrid é algo sobrehumano.

E por aqui?

A divisão absurda das cotas de TV no Brasil cria abismos diários no nosso futebol, assim como a total desunião entre os dirigentes, com cada um olhando para seu umbigo. Só por aqui times que são rebaixados seguem recebendo uma cota de TV infinitamente maior do que aqueles que arduamente sobem para a elite. E o abismo só aumenta, ano a ano.

Um pensamento em prol do bem comum, como está acontecendo na Holanda, ou mais igualitário, como é usado na Inglaterra há anos, serviria para reforçar o futebol brasileiro como nunca. Os clubes grandes já perdem suas revelações bem cedo, mas um campeonato mais equilibrado e mais atraente poderia render mais dinheiro para manter esses jogadores por mais tempo, ou seja, não seriam apenas os pequenos que teriam benefícios. Isso sem falar, claro, na seleção brasileira.

O efeito dominó de pensar globalmente também traria benefícios para aqueles clubes tradicionais, que hoje estão longe da elite, mas que andam mergulhados em dívidas astronômicas. Ajudaria também a, quem sabe, dar um calendário para os pequenos, sumidos em estaduais falidos e nada atraentes. E, claro, serviria também como uma força para novos clubes, com poucos anos de vida. Óbvio que isso tudo passaria por uma reestruturação que englobaria diversas questões administrativas em várias áreas. A redistribuição de recursos é apenas um dos pontos.

Claro que isso é um sonho e duvido muito que chegue por aqui nos próximos anos. Mas, em tempos de tanta desigualdade em vários setores, o futebol poderia servir como combustível para mudanças estruturais. E como poderia…

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