O futebol e sua capacidade de mudar o mundo

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O futebol prova sua capacidade de mudar o mundo
Crianças no Líbano com as bolas do Paz em Movimento | Crédito: Bruno Castro

Que o futebol é capaz de promover mudanças sociais eu nunca duvidei disso e nem preciso dessas linhas aqui para falar da sua importância para toda a sociedade — mas vou usar sempre esse espaço para falar de iniciativas que merecem ser aplaudidas de pé. Histórias boas devem ser contadas. A que vocês irão ler a seguir está sendo escrita neste momento. E é especial.

A ideia de que o esporte pode impulsionar mudanças significativas está sendo colocada em prática em um projeto espetacular. Um exemplo para ações desse tipo que podem e devem causar efeitos semelhantes em vários cantos do Brasil. O projeto, intitulado Paz em Movimento, levou, nas últimas semanas, bolas de futebol para crianças que hoje vivem no campo de refugiados sírios em Al-Awdah, no Líbano, na fronteira entre os dois países.

No local, vivem atualmente 1.700 pessoas que fugiram da guerra. O objetivo é transformar a vida dessas crianças e dar um novo significado ao espaço tomado pelo conflito. Em outras palavras, o futebol será capaz de ressignificar uma área devastada e marcada de forma negativa.

O Paz em Movimento foi criado pelo grupo de pesquisa em Cultura Corporal da Universidade Castelo Branco (UCB), do Rio de Janeiro, e, por meio de um crowdfunding (além de dinheiro próprio), chegou ao Líbano. Tendo a Educação Física como mediadora de interesses sociais, três professores e dois alunos da universidade embarcaram para o Oriente Médio, levando 130 bolas, tendo o foco nas escolas do campo de refugiados e apresentando o futebol não apenas como uma atividade motora, mas também como fator de pluralidade cultural.

O trabalho está sendo feito em parceria com a ONG URDA, que administra o campo de refugiados no Líbano.

Durante duas semanas, os professores da UCB realizaram diversas ações no campo de refugiados — o trabalho se encerra nesta sexta, dia 3. Entre elas, workshops nos quais trabalham a relevância da prática esportiva e sua importância para o desenvolvimento infantil. Foram feitos cursos com profissionais que lidam com as crianças, como mulheres que trabalham no centro de reforço escolar que existe no local, funcionários da ONG que administra o campo ou refugiados interessados em futebol. A ideia é que o trabalho tenha continuidade quando a equipe deixar o Líbano.

Na prática, as bolas foram usadas em atividades lúdicas com o mesmo objetivo. Na primeira semana, os brasileiros comandaram as ações. Nos últimos dias, o trabalho ficou dividido entre atividades internas e ao ar livre, já sob a coordenação da equipe local. E, para completar, filmes foram exibidos a céu aberto no campo de refugiados. O tema, claro, é o esporte. Essa foi uma experiência destacada pelos organizadores — a reação das crianças chamou atenção.

O projeto Paz em Movimento leva cinema ao Líbano | Foto: Luciana Julião

Futebol abrindo caminhos

Segundo uma das professoras da universidade, Luciana Julião, as crianças locais são carentes de atividades mais estruturadas e tem tempo de sobra. Uma das questões que impressionou a professora foi a falta de habilidade motora das crianças, fato provavelmente ligado à falta de estímulo. Para Julião, a marca mais bonita que ficou da passagem pelo Líbano foi a participação das meninas, normalmente excluídas, no processo — elas se encantaram com as atividades e se divertiram muito fazendo isso.

Para a professora, a receptividade foi incrível. E o diferencial foi o fato de terem levado algo diferente — no caso, as bolas. De acordo com ela, as pessoas estavam acostumadas a receber comida, boné e outros objetos, mas não tinham a oportunidade de ter um grupo permanecendo no local. As 130 bolas foram doadas para que as cerca de 700 crianças do campo possam continuar praticando as atividades.

As bolas como objeto de integração no campo de refugiados | Foto: Luciana Julião

Documentário

Todo o trabalho realizado no Líbano está sendo registrado e vai se transformar em um documentário a ser exibido não apenas na TV como em festivais de cinema e vídeo. Artigos científicos também serão produzidos, o que servirá de base para novas ações do projeto. Exibição de fotos feitas pela equipe no ano passado também chamou atenção

Como o grupo que organiza o trabalho é de pesquisa em cultura corporal, tudo vai se transformar em uso acadêmico sobre o desenvolvimento de crianças em espaços como um campo de refugiados. Mas, o mais importante, é a tentativa de criação de um núcleo local para manter as atividades depois que os brasileiros saírem, mesmo que, a partir do Brasil aconteça uma contribuição com informações. Para essa manutenção no Líbano, uma ideia que ainda está sendo avaliada é de pagamento para alguém para fazer as atividades. O grupo ainda estuda como fazer esse financiamento.

Outras ações

O trabalho do Paz em Movimento merece mesmo ser aplaudido. O projeto já desenvolve trabalhos em favelas do Rio de Janeiro e programa uma nova missão, desta vez para a África. No Rio, o trabalho é realizado de forma contínua por parte dos professores, que são ligados à rede pública de ensino carioca.

Em 2017, o grupo visitou o Hait. No país da América Central, outras atividades também foram feitas, além do futebol, como pode ser conferido no vídeo abaixo.

Como saber mais

Vale muito conhecer o projeto pelo Facebook e no canal do YouTube. Em breve as redes sociais serão carregadas com mais imagens e vídeos. Contatos podem ser feitos pelo email taoideias@gmail.com.

Sabe de alguma ação desse tipo, que usa o esporte como fator de inclusão e desenvolvimento? Entre em contato com a coluna. Histórias assim merecem ser contadas e divulgadas.

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