Gustavo Fonseca, o mineiro que cuida do meio ambiente mundial

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Gustavo Fonseca é o mineiro que ajuda a proteger o meio ambiente

Gustavo Fonseca coordena a distribuição de recursos para projetos ambientais em mais de 150 países, estimulando economias sustentáveis, baseadas em formas alternativas de energia, com menor impacto no meio ambiente. Além disso, é um cientista respeitado entre seus pares e criou uma pós em Biologia da Conservação na UFMG, por onde já passaram mais de 400 alunos.

Atualmente, o biólogo e diretor de Operações do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF na sigla em inglês), Gustavo Fonseca, está longe da Belo Horizonte onde nasceu, mas diz que guarda características muito mineiras em suas missões pelo mundo, como a boa escuta e um certo desejo de encontrar consensos.

Bom líder, ótimo político e excelente cientista. Um perfil raro no metiê da sustentabilidade, na opinião de quem já trabalhou ao seu lado, como a consultora de comunicação na área ambiental Isabela Santos. “É um perfil raro e de extrema competência porque, muitas vezes, o profissional é um tremendo acadêmico, mas não tem habilidade para fazer política ou liderar uma equipe”, pontua a consultora, que trabalhou com Gustavo Fonseca na ONG Conservação Internacional.

Para se dar bem nessa área, o executivo do GEF aconselha a especialização acadêmica, que dará uma base sólida para ocupar qualquer cargo na área ambiental, mesmo que muito distante da universidade.

De Washington, onde é a sede do GEF e onde vive, Gustavo Fonseca concedeu a seguinte entrevista ao Boas Novas MG.

Gustavo Fonseca com o ministro do Meio Ambiente do Butão

Boas Novas MG — Você nasceu em BH, mas sua formação se deu fora de Minas. Qual seu laço mais forte com o Estado, o que guarda das terras mineiras?
Gustavo Fonseca — Sim, fiz o curso de Biologia na UnB e mestrado e doutorado na Flórida (EUA), mas meu laço mais forte com Minas Gerais, além de obviamente ter nascido, é a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde dei aulas bastante tempo. Passei no concurso de 1985 para professor. Mais tarde, em 1989, fundei a pós em Biologia da Conservação. Fui o primeiro diretor do programa, orientei as primeiras teses e hoje é um programa bem-sucedido que já graduou mais de 400 pessoas.

BN — Você tem assentos em vários conselhos de ONGs ambientais, como a CI-Brasil, a Rare, a WWF…
GF — Eu tinha até pouco tempo, mas decidi me ausentar para não dar margem a interpretações de conflito de interesses, não deixar espaço para dúvidas sobre estar beneficiando uma ou outra com recursos do GEF.

BN — Mesmo morando nos EUA você trabalhou para colaboração entre instituições dos EUA e de Minas.
GF — Sim, fui um dos fundadores da fundação Biodiversitas e levei o escritório da Conservação Internacional para BH. Trabalhei mais nessa área de ciência e conservação no que diz respeito à política de advocacy [prática com a finalidade de influenciar políticas públicas e recursos; lobby]. Estruturei um centro de pesquisas aplicadas na área de biodiversidade nos Estados Unidos e, quando já estava pensando em voltar para a UFMG, me convidaram para trabalhar no GEF. Consegui uma licença da universidade para o que estou fazendo agora.

Gustavo Fonseca é um dos responsáveis pela negociação de redução de emissão de gases poluentes

BN — Quais suas principais atribuições no GEF?
GF — É o mecanismo financeiro das convenções internacionais do clima. Sou o diretor de programas, propicio recursos para projetos em mais de 150 países. É um ambiente de negociação em prol do meio ambiente. Meio ambiente é um espaço que é comum a todos e a sociedade demanda soluções que são negociadas de maneira transparente e diplomática. Por exemplo, tenho participado anualmente das negociações para contenção das emissões desde 1992. Às vezes é chato, pesado, não anda muito rápido, mas, se queremos soluções duráveis, esse é o trabalho a ser feito. Para costurar todos os acordos, o trabalho é de formiguinha. O GEF trabalha de quatro em quatro anos, passamos um ano arrecadando para, em seguida, passar a gastar os recursos. Agora estamos terminando um ciclo, fase final para obter recursos para os próximos anos.

BN — Que conselhos você daria a quem deseja trabalhar nessa área?
GF — O meu conselho é se especializar antes, tentar adquirir os preceitos científicos mais sólidos se tiver opção e oportunidade. Faça um curso avançado para ter ferramentas importantes para o resto de sua vida. Quem começa a carreira como generalista acaba ficando prejudicado porque não sabe como os preceitos científicos são aplicados. Então é uma maneira menos eficiente de buscar espaço nessa área. Você pode trabalhar com política ambiental, por exemplo, mas a parte científica é importante.

BN — O que pensa de as exigências de redução das emissões serem as mesmas para países ricos e países pobres ou em desenvolvimento?
GF — O que se constata é que essas coisas estão interligadas. Não dá pra ter desenvolvimento sustentável sem ter ambiente saudável que dê uma condição para todos. Essa antiga dicotomia não existe de maneira muito clara. As metas do desenvolvimento sustentável, definidas pela ONU, são um reconhecimento de que essa dicotomia não existe — somos pobres então devemos ser preservados na redução das emissões, por exemplo. O planeta fica cada vez menor e temos de cuidar do que é comum a todos. O que o GEF faz é acelerar a transição dos países pobres para práticas de desenvolvimento econômico sustentável, energia renovável, e tratar de criar mecanismos de compensação que incentivem a floresta em pé ao invés de cortar e desmatar.

O mineiro de Belo Horizonte participa de conversas que visam à conservação de florestas

BN — Qual a posição do Brasil perante o Fundo?
GF — O país é o segundo maior receptor do GEF, são US$ 170 milhões por ano, cofinanciados por outros doadores, uma carteira grande e de longo prazo. O Brasil tem capacidade instalada, pessoal, instituições sólidas, tende a sofrer menos com as crises políticas que outros países. Nesse ponto, o Brasil tem dado continuidade à maioria dos projetos.

BN — O que você leva de Minas em suas missões pelo mundo?
GF — As pessoas acham que sou mineiro de criação, apesar de ter crescido em Brasília. Me atribuem características de mineiro, como falar muito, ouvir muito, ser diplomático e ter um desejo de achar pontos em comum e não entrar em conflito sem necessidade. Dessa parte da antiga política mineira não consegui me livrar (risos).

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