Cineclube em Uberlândia leva o bom cinema ao público

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Oficina Cultural é a sede do Cineclube Cultura
Oficina Cultural de Uberlândia, que recebe os filmes do Cineclube | Foto: Paulo Augusto Soares

Quem mora em cidade do interior e gosta de cinema já conhece a dificuldade de encontrar bons filmes nas telas. Se a preferência for por obras clássicas, fica mais complicado ainda. Portanto, ter um cineclube ativo pode ser a salvação para esses cinéfilos.

Em Uberlândia, o projeto Cineclube Cultura vem alimentando a vontade de conhecer e rever obras importantes da sétima arte desde 1985. Iniciativa de Paulo Eduardo Torres, então funcionário da Secretaria de Cultura, o projeto começou com um ciclo dedicado a Gláuber Rocha.

Uma das sessões da época utilizou um projetor de 35 mm a carvão para exibir dois clássicos do cinema dirigidos por Humberto Mauro: “O Canto da Saudade” (1952) e “Argila” (1940).

O projeto começou no antigo Teatro Vera Cruz — depois transformado no Teatro Grande Otelo, hoje desativado. Além das exibições de filmes, havia debates com críticos e pesquisadores.

O Cineclube adotou uma postura nômade, com exibições em outras instalações da cidade, e acrescentou passagens pelos distritos de Uberlândia.

Desde 1995, o Cineclube Cultura está ocupando a Oficina Cultural, construção histórica do centro da cidade.

Os métodos de projeção também mudaram: já houve tempo em que os filmes eram exibidos por uma retroprojeção em uma tela, com imagens geradas por reprodução de vídeo em uma TV. Passou por projetores de 16 mm, até chegar ao projetor multimídia de alta definição.

Na programação, o espectro é amplo: filmes nacionais e estrangeiros, documentários, curta-metragens e animações.

O documentário Edifício Master será exibido no Cineclube

Em 2018, o Cineclube Cultura começou uma parceria com a Programadora Brasil, toda dedicada a filmes nacionais —o projeto é uma iniciativa do Ministério da Cultura, criado em 2007. “É uma vitrine que propicia um primeiro contato com a história do cinema feito no país, alarga o conhecimento sobre o cinema brasileiro e dá acesso a filmes com cópias, até então, inacessíveis ao público”, diz Carlos Magalhães, diretor-geral do programa.

Então, é possível ter contato com clássicos dos estúdios Atlântida e Vera Cruz, que ajudaram a formar a identidade cinematográfica nacional. Além de obras mais recentes e que aumentam o espectro da produção brasileira.

Para Paulo Soares Augusto, coordenador atual do Cineclube Cultura, “é uma ótima oportunidade para conhecer outras possibilidades e cinemas que não estão no circuito convencional, ampliando, desse modo, o conhecimento”.

Em 2018, já passaram filmes de Joaquim Pedro de Andrade, Gláuber Rocha, Anselmo Duarte e Rogério Sganzerla.

“O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, de Gláuber Rocha, foi exibido em 2018

As sessões acontecem aos sábados e a entrada é gratuita. Confira a programação de abril e maio:

  • 7/4: Edifício Master, de Eduardo Coutinho
  • 14/4: Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho
  • 28/4: Estamira, de Marcos Prado
  • 5/5: Cafundó, de Clóvis Bueno e Paulo Betti
  • 12/5: Terra Estrangeira, de Walter Salles e Daniela Thomas
  • 19/5: O Caso dos Irmãos Naves, de Luiz Sérgio Person
  • 26/5: São Paulo S.A., de Luiz Sérgio Person

Cineclube formou crítico de cinema

Vinícius Lemos tem 34 anos e escreve sobre cinema desde 2008. Autor do blog Cinefilia, hoje alocado numa página do Facebook, ele frequentou o Cineclube Cultura.

Para o jornalista e crítico, a iniciativa permite o acesso a obras de qualidade. “Cidades como Uberlândia têm circuito limitado e até um tempo atrás as próprias locadoras não apresentavam grande diversidade. Baixar filmes se tornou uma opção, mas os cineclubes apresentam não só filmes clássicos obrigatórios como trazem títulos que muitas vezes são conhecidos. Fora as discussões sobre essas obras, que são tão importantes quanto o acesso.”

Lemos teve contato com obras clássicas do cinema, como “O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman, nas exibições do Cineclube Cultura. “Lembro de ver uma seleção de filmes do Peter Sellers, de quem, até então, só tinha assistido ‘Dr. Fantástico’. Me chamou a atenção os ótimos ‘Um Convidado Bem Trapalhão’ e ‘Muito Além do Jardim’. Também tive acesso a alguns de Woody Allen, como ‘O Dorminhoco’ e ‘A Era do Rádio’.”

Para uma cidade do interior, com poucos espaços para o cinema de qualidade, o Cineclube assume uma posição vital para o público amante do cinema. “Os cinemas apresentam filmes comerciais e opções de streaming realmente não formam cinéfilos. Além de filmes alternativos, os clássicos são sempre revisitados. Fora que, via de regra, são espaços públicos e gratuitos que recebem espectadores diversos e com quem você pode criar grupos de discussão”, diz Lemos.

Cena de “O Sétimo Selo”, filme de Bergman que foi visto pelo crítico Vinicius Lemos no Cineclube

Serviço

  • O quê: Cineclube Cultura
  • Quando: aos sábados
  • Onde: Oficina Cultural. Praça Clarimundo Carneiro, 204 — Centro, Uberlândia. Tel: (34) 3214-9889
  • Quanto: entrada gratuita

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