UFV e Leonardo DiCaprio trabalham em nova Arca de Noé

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As linhas em branco indicam os milhares de corredores, em todos dos continentes, onde poderiam ser criados os corredores ecológicos. Imagem - Divulgação
As linhas em branco indicam os milhares de corredores, em todos dos continentes, onde poderiam ser criados os corredores ecológicos. Imagem - Divulgação

Uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV) juntou-se à Fundação Leonardo diCaprio (LDF) para desenvolver um trabalho que tem como meta assegurar a sobrevivência da terra para daqui a 50 anos – projeto que foi batizado como a nova Arca de Noé. O resultado acaba de ser divulgado em Washington pela diretoria da fundação do ator norte-americano, que foi criada em 1998 para trabalhar pela preservação do meio ambiente.

Os pesquisadores da universidade mineira foram os responsáveis por mapear possíveis corredores ecológicos em todo o mundo, que vão permitir o livre deslocamento de animais, servir para a dispersão de sementes e, consequentemente, para o aumento da cobertura vegetal nessas áreas que deverão ser protegidas. .

“Esses corredores vão servir como uma espécie de autopista para os animais”, explicou ao Boas Novas o professor Elpídio Inácio Fernandes Filho, que coordenou a equipe de pesquisadores da UFV responsável pelo desenvolvimento do trabalho. Como na passagem bíblica sobre a arca de Noé (Gênesis, capítulos 6-9), diz o professor, a intenção é assegurar a sobrevivência de espécies que correm o risco de desaparecer.

E há mesmo motivos para preocupação. Segundo o último Relatório do Planeta Vivo feito pela ONG World Wide Fund for Nature (WWF), do qual o ator Leonardo DiCaprio é conselheiro, o desmatamento generalizado já fez desaparecer da Terra metade das espécies de vertebrados (mamíferos, aves, peixes, répteis e anfíbios) desde a década de 1970.

Os professores (da esq. para a dir.), Pedro Christo, Guilherme Oliveira e Elpídio Fernandes Foto: Daniel Sotto Maior-Divulgação
Os professores (da esq. para a dir.) Pedro Christo, Guilherme Oliveira e Elpídio Fernandes, da Universidade Federal de Viçosa. Foto: Daniel Sotto Maior-Divulgação

Situação trágica

A situação é muito pior para as populações de água doce, que registraram um declínio global de 80% no mesmo período. Um terço dos recifes de coral do mundo, que são considerados os “viveiros” do oceano, já morreram. Outro terço deverá sumir até 2030. “A situação em que nos encontramos não é apenas trágica para as milhares de espécies que nunca mais vagarão pela Terra, mas poderia ameaçar a existência de nossa própria espécie, o homo sapiens”, diz texto assinado pela fundação do ator Leonardo DiCaprio.

Na avaliação de entidades que se preocupam com a preservação do meio ambiente, como a WWF, além de pesquisadores e ambientalistas, para garantir a sobrevivência humana é preciso que metade do planeta esteja protegido para manter recursos biológicos da flora e da fauna.

“É uma meta muito ousada, mas pode ser feita se houver uma conscientização global de que a sobrevivência da espécie humana depende da sobrevivência de outras espécies”, assinala o professor Elpídio.

Ao anunciar em Washington o resultado da pesquisa, o diretor executivo da Fundação Leonardo DiCaprio, Justin Winters, explicou a proposta de criação dos corredores ecológicos. “Uma rede de segurança de ecossistemas protegidos e conectados ao redor do planeta poderia evitar uma crise climática e criar um mundo onde a natureza e a humanidade coexistam e prosperem”, disse.

Justin Winters também alertou que sem uma diversidade de plantas e animais, os principais ecossistemas poderiam entrar em colapso, ameaçando recursos sobre os quais a civilização humana se baseia.

Segunda etapa

“Os ecossistemas saudáveis ​​capturam, filtram, reciclam e distribuem a água da chuva, irrigam as culturas e fornecem água potável para bilhões de pessoas. Eles também absorvem enormes quantidades de dióxido de carbono, o gás de efeito estufa, que causam as mudanças climáticas. Sem os ecossistemas intactos, o carbono atmosférico seria mais do dobro do que é hoje, tornando o planeta inadequado para a habitação humana”, assinalou o executivo da LDF.

O trabalho dos pesquisadores do Departamento de Solos da UFV vai, agora, subsidiar os esforços da Fundação Leonardo DiCaprio para arrecadar 20 milhões de dólares para financiar a próxima etapa da pesquisa.  Nessa segunda fase, como explica o professor Elpídio, será feito o que ele chama de “refinamento”, para definir, com mais detalhes, a viabilidade de cada um dos corredores pensados na pesquisa inicial.

“A meta é ligar unidades de conservação do mundo inteiro. No modelo que desenvolvemos, estão previstos caminhos mais curtos e de menor esforço para os animais, mas precisamos checar se no meio desses caminhos não existe uma cidade, uma plantação comercial, estradas”, assinala o professor.

Na segunda fase da pesquisa, como informa o professor, serão incorporadas equipes de outros países, que vão ficar encarregadas do refinamento do trabalho inicial em seus países de origem ou mesmo nos continentes onde vivem.

Os pesquisadores da UFV, de acordo com o professor Elpídio, ficarão responsáveis pela definição dos corredores no Brasil. Sua expectativa é que o ator Leonardo DiCaprio consiga os recursos para que a pesquisa seja retomada no início do próximo ano.

Como nasceu a parceria

O professor Elpídio explica que o convite para que Universidade Federal de Viçosa realizasse a pesquisa para a Fundação Leonardo DiCaprio partiu da Fundação Globaia, com sede na Inglaterra. De acordo com Mano França, um dos diretores dessa fundação inglesa, a entidade do ator norte-americano considerou a possibilidade de convidar universidades dos Estados Unidos e da Europa com as quais já havia trabalhado.

Mas França, que conhecia um ex-aluno de doutorado do professor Elpídio, argumentou que seria importante que a tarefa fosse executada por uma instituição brasileira, por conta da posição do país no ranking de diversidade biológica. Sugestão aceita, os trabalhos começaram em meados do ano passado.

“Encaramos como um grande desafio realizar essa pesquisa em escala global”, conta o professor Elpídio. Para a missão, do qual participaram também os professores Pedro Christo, Felipe Simas, Martim Meier e Guilherme Oliveira, todos especialistas em geoprocessamento, foram usados mapas e dados cartográficos de todas as áreas protegidas e conhecidas do planeta, especialmente da Agência Espacial Europeia.

Sem verbas para o projeto e sem um computador com capacidade para processar tantos dados, os professores tiveram que apelara para a criatividade. Para rodar os programas, eles utilizaram 24 computadores comuns, de salas de aula, funcionando durante madrugadas e finais de semana, para não atrapalhar a rotina dos alunos da universidade.

Em maio deste ano, dentro do prazo estabelecido, os resultados finais da pesquisa foram entregues à Fundação Leonardo DiCaprio. A expectativa do professor Elpídio é que para a próxima etapa, com os recursos que devem ser levantados pelo ator, a universidade possa contar com computadores mais potentes e adequados para a tarefa.

 

 

 

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