Sinfonia das Bolhas

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Imagem - Pixabay
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Eu sou do time do “quanto mais espuma, melhor”. Sem meio-termo, sem moderação. Polêmicas à parte (fujo delas como quem foge da cruz), se o assunto é detergente, shampoo, pasta de dente ou sabonete, não me atenho a discursos técnicos. Minha escolha é simples e definitiva: só confio em produtos que façam espuma generosa, daquelas que parecem querer escapar da pia e invadir a sala. É a espuma que me convence de que a sujeira se rende, que o prato brilha, que o chão respira. É ela que me garante que o cabelo vai ficar limpo, solto e perfumado. E que o banho não será apenas um banho, mas um ritual do qual não abro mão. E é também por causa das borbulhas que demoro no banho.

  • Gisele, a energia tá cara. Olha o desperdício! A natureza está cobrando a conta! Desliga esse chuveiro. Tá parecendo uma sauna! Tem mais gente querendo tomar banho.

Sobre as reclamações, são tão frequentes que até já me acostumei. Sei de cor. Mas não abro mão. Banho há que ser perfumado, longo, com muita espuma e bem quente. E isso vale para café, chá, comidinhas e também para relacionamentos. Se é que você me entende. Nada morno me atrai.
Voltando às borbulhas, não por acaso a espuma virou símbolo de prazer e descontração. No cinema, em “Pretty Woman”, Julia Roberts, em uma cena icônica, canta dentro de uma banheira cheia de espuma.
Na música, Rita Lee sugere um banho a dois, também cercado de espuma, celebrando o relaxamento e a liberdade. Ou vai me dizer que nunca prestou atenção nesses versos? “(…) El cuerpo caliente, un dolce farniente. Sem culpa nenhuma. Fazendo massagem. Relaxando a tensão (…) ”.
E o que dizer da canção “Borbulhas de amor”, famosa na voz do cearense Raimundo Fagner? “Quem dera ser um peixe, Para em teu límpido aquário mergulhar, Fazer borbulhas de amor p’ra te encantar, Passar a noite em claro, Dentro de ti, um peixe”. Sobre esse verso, vou deixar por conta da imaginação de vocês. Vai que você me cancela se eu for muito explícita?
Só me atrevo a dizer que a espuma pode ser bem mais que limpeza. Pode ser inspiração, festa e até mesmo, e por que não, uma “vagabundagem” boa, se é que você, mais uma vez, me entende.
Ah, já ia me esquecendo de contar: alguns momentos no banho são pura inspiração. Tenho as melhores ideias justamente onde? No banho, uai! E não estou sozinha. O Google garante: chama-se “efeito chuveiro”. Dopamina em alta, criatividade borbulhando. Teve até aquele chefe (cala-te, boca!) que chegou a pedir a compra de uma caneta que fosse à prova d´água. Queria rabiscar as ideias no azulejo. Deixar lembretes para não correr o risco de que tais ideias se esvaíssem como bolhas ou secassem como a toalha. A caneta foi comprada. E mais não digo. Melhor abstrair (ou seria abafar o caso?).
Polêmicas, ex-chefes, impacto ao meio ambiente e contas de água à parte, sigo fiel ao meu lado exagerado. Se a vida me oferece pouca espuma eu invento mais. Porque só nas borbulhas encontro o espetáculo capaz de transformar rotina em festa. Nem que seja só durante o banho.

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