O desenho do afeto

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A jornalista Gisele Bicalho, em Imagem gerada por IA
A jornalista Gisele Bicalho, em Imagem gerada por IA

Os laços afetivos que vamos construindo ao longo da vida são como pontos invisíveis que, mais tarde, revelam o desenho inteiro. Às vezes, uma passagem rápida por um lugar nos presenteia com pessoas que se tornam permanentes, amigos que resistem ao tempo e que, sem perceber, passam a costurar nossa história.

Quando voltei à minha antiga estação de trabalho, senti como se estivesse abandonando uma casa para retornar à outra, mesmo que o espaço de tempo entre uma e outra tenha sido mínimo. Mas com o acolhimento, com os abraços, beijos e mensagens de boas-vindas logo percebi que não há abandono quando o afeto nos espera de portas abertas.

Steve Jobs dizia que não podemos conectar os pontos olhando para frente; apenas para trás. E é exatamente isso que sinto. Só olhando para trás consigo perceber como cada encontro, cada despedida, cada gesto de carinho se transformou em linha que une os fragmentos da minha vida. É preciso confiar que esses pontos se alinham no futuro, mesmo quando não vemos o desenho completo.

Toda essa prosa me lembrou da miosótis. Há poucos dias assisti ao vídeo de uma terapeuta que falava exatamente dessa flor. Conhecida como “forget-me-not”, ela carrega no nome uma mensagem delicada e profunda: “não se esqueça de mim”. E eu não esqueço. Não esqueço dos amigos que chegaram e ficaram, dos que me receberam de volta com tanto calor, nem dos detalhes que fazem a vida valer a pena.

Entre altos e baixos, na minha vida a gratidão se espalha como perfume: pela família que me cerca, pelos amigos que permanecem, pelas mensagens que aquecem, pelos abraços que sustentam. Se o amor mora nos detalhes, ele também ocupa os espaços maiores, aqueles que nos fazem acreditar que seguir em frente é sempre possível.

E no meio de tudo isso, há o cotidiano que dá leveza: o almoço festivo que me espera, o molho de hortelã que ainda tenho que preparar, acompanhamento perfeito para o pernil de cordeiro assado. Porque a vida é feita dessa mistura. Entre o extraordinário e o simples, entre o abraço e o tempero, entre o retorno e a mesa posta.

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