Espelho, espelho meu

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Imagem - Pixabay
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Tem acontecido com frequência. Diante do espelho, percebo que o bigode chinês insiste em se “amostrar”. Confesso que o danado me incomoda. É como se fosse um lembrete diário:

  • Fique esperta, Gisele! O tempo não perdoa. Você já está ficando com cara de maracujá.

Mesmo com esse incômodo, a verdade é que já vivi minha fase de tentar disfarçar, esconder, negar. Houve um tempo em que eu me rendia aos corretivos e bases, algo simples, apenas um esforço para minimizar o danadinho. Acabei cansando. Lembrando que nunca fui muito ligada a esse tal de skincare. Bem diferente das minhas irmãs. Enquanto eu invisto em formas de bolo, elas preferem gastar parte do dinheiro em cremes, loções e séruns. E não é pouca dedicação: uma rotina eficaz exige tempo, disciplina e etapas como limpeza, esfoliação, hidratação e o uso de ingredientes naturais para manter a pele saudável e luminosa.
Dia desses, saindo para o trabalho, até ouvi a Jacq dizer em alto e bom som:

  • Como é que a Gisele tem coragem de sair sem passar sequer uma base no rosto. Com a Denise é a mesma coisa, lamentou, meio que desanimada.

E ela não está errada. Há dias em que até o batom básico exige esforço. Chega a ser um sacrifício. E olha que não estou falando de batons mais marcantes. No máximo um gloss rosinha.
Mas para dizer que não uso nada, tenho uma base e um blush multiuso, pois funciona também como sombra e batom. E há poucos dias comprei um corretivo e um gel. Esse é quase um milagre. Promete reduzir, mesmo que por poucas horas, as tais marcas do tempo.
Quanto ao bigode chinês, pensando bem, será que estou tentando me enganar, que talvez ele não seja um dano? Vamos aos fatos: eu prefiro acreditar que cada linha contém uma história, cada marca é memória que se recusa a ser apagada. O bigode chinês é como se fosse uma assinatura da alegria e da dor que moldam o rosto.
Convencida, volto a me olhar no espelho. E o que vejo não são apenas sulcos e marcas. Vejo mapas. Mapas de caminhos percorridos, de encontros e desencontros, de escolhas que me trouxeram até aqui. E decidi que vou continuar a percorrê-los, sem medo do que ainda virá.
Coincidentemente, há poucos dias me deparei com um post da querida Daniella Zupo justamente sobre o famoso “bigode chinês”. Ela confessa que já pensou em eliminá-lo, mas desistiu. Ecolheu não travar guerra contra o envelhecimento. Preferiu cercar-se de mulheres que cultivam valores para se inspirar, de amigos que a façam sorrir, cuidar do sono (ops!), comer frutas e evitar ultraprocessados. Recomenda: “leiam livros novos e usados, não permaneçam em relacionamentos tóxicos, dancem, rezem, conectem-se com a própria essência. Feio é o corte que fazemos na alma para caber nos padrões. O resto é a beleza de cada um”. E conclui com uma reflexão poderosa: “precisamos aprender a amar numa sociedade que nos ensina, todos os dias, a procurar nossos defeitos”. Me identifiquei total, exceto pelo cuidado com o sono. O zolpidem que o diga.
Ah, e ainda tem o cabelo grisalho. Ai a prosa é diferente. Não abro mão de pintá-lo. Não cedi à tendência de nove entre dez sessentonas. Penso que só funciona para quem não tem marcas no rosto. Há que se ter também muito estilo para desfilar com ele por aí. O cinza bem cuidado é bonito? É, sim. Mas não para mim. Deixo para as ousadas e estilosas.
Resumindo, sobre as marcas do tempo, estou na fase da aceitação. Afinal, são parte de mim. Se não me diminuem; ao contrário, me ampliam, funcionam como testemunhas silenciosas de que vivi. E do que sigo vivendo. O espelho não me devolve apenas marcas: ele me devolve histórias. Cada linha é uma lembrança, cada sulco é prova de que vivi. O tempo, com sua ousadia, insiste em se inscrever no rosto, mas também me oferece a chance de enxergar beleza onde antes eu via apenas incômodo. Aceitar minhas marcas é aceitar a vida que pulsa em mim, com seus risos, dores, escolhas e caminhos. E se o bigode chinês insiste em se “amostrar”, que seja: ele é apenas mais uma assinatura do tempo. Decidi assiná-la e ponto final.

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