Um amor que não se mede

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Dona Nely, a matriarca da família Bicalho. Imagem gerada por IA
Dona Nely, a matriarca da família Bicalho. Imagem gerada por IA

“Você já comeu?”
“Coloque uma blusa quentinha porque está frio.”
“Leve a sombrinha, vai chover.”
“Saia da chuva, senão vai adoecer.”

Essas frases, tão simples e tão cheias de cuidado, ainda ecoam em nós. Minha mãe repousa no colo de Deus, mas sua presença permanece viva em cada lembrança, em cada gesto repetido sem querer. Não há um só dia sem que Dona Nely seja lembrada.

A ciência, aliás, confirma aquilo que o coração já sabia: desde o nascimento, cada ser humano carrega uma herança biológica que vai além do DNA. Milhões de células originárias do corpo da própria mãe permanecem ativas no organismo dos filhos por décadas, sem serem reconhecidas como invasoras. Esse fenômeno, chamado microquimerismo materno, ocorre quando pequenas quantidades de células atravessam a placenta e se instalam em diferentes tecidos do feto, permanecendo ali por toda a vida. Ou seja, Mamãe continua presente em nós não apenas na memória, mas também em nossa própria biologia.

  • Olha a Denise imitando a Mamãe.

De novo? O pensamento é quase automático. Sempre que nossa irmã tamborila os dedos na mesa de jantar, sentimos aquele déjà vu. É como se, por um instante, o tempo se dobrasse e nossa mãe ressurgisse ali, nos gestos repetidos pela Denise. Mas será imitação ou uma herança invisível, dessas que a gente carrega sem perceber?

Poucos conheciam um lado curioso de Dona Nely. Mamãe, a elegância em pessoa, também tinha seu repertório de palavrões inventados. Criações próprias que deixavam meus tios perplexos e rindo sem parar. Era sua válvula de escape, a forma de aliviar o peso dos excessos: maternidade, casa, sala de aula. Tarefas destinadas aos fortes.

Outra paixão eram os cachorros. Nossa casa sempre foi refúgio de muitos companheiros barulhentos e fiéis. Mamãe adorava. Esse amor vinha de berço, herdado do pai, o Vovô Nenê, cachorreiro convicto. Não por acaso, os “cãopanheiros” eram quase sempre perdigueiros, inseparáveis.

E havia também o amor pelo Atlético Mineiro. Guardamos até hoje o autógrafo que ela conseguiu de Gilberto Silva, em uma fila de embarque no Aeroporto de Confins. Um tesouro entre tantas lembranças de sua paixão pelo Galo. Teve ainda aquele domingo memorável em que a Galoucura abriu espaço na arquibancada para que Mamãe passasse imponente em sua cadeira de rodas.

Nas noites frias de inverno, Mamãe nos aquecia com Toddy bem quentinho. E quando o tempo era de vacas mais gordinhas, vinha o luxo do Ovomaltine. O perfume e o sabor do malte eram pura magia. Hoje, mesmo que os produtos tenham mudado, aquele cheiro da infância continua vivo na memória.

Na farmacinha de casa, cada frasco tinha uma história. Às vezes Mamãe ignorava a Emulsão Scott e apelava para o Biotônico Fontoura. Para piolho, era Nelcid. Para feridas, mercúrio cromo e mertiolate – que ardiam mais que bronca de mãe, mas eram sinônimo de cuidado. E a Cibalena, pastilha milagrosa que parecia resolver tudo. Esses nomes podem ter saído das prateleiras, mas continuam vivos na memória afetiva de quem cresceu com esse carinho disfarçado de gosto ruim.

Mamãe era feita de excessos: excesso de amor, de coragem, de fé. Uma leoa na missão de manter a família unida. Uma mulher imensa, que carregava força discreta e generosidade sem limites. Amigos, vizinhos e colegas eram sempre acolhidos pela sua elegância e gentileza.

Hoje entendo que somos feitos de várias camadas. Muitas carregam marcas dos nossos pais. Algumas repetimos com orgulho, outras transformamos. Mas todas nos ensinam lições valiosas: paciência para começar do zero e força para não desistir no meio do caminho.

Como Manoel de Barros, sigo caçando “achadouros da infância”. Volta e meia, uma foto ou vídeo me leva de volta ao perfume do chocolate quente que Mamãe preparava. E nessa viagem pela memória, descubro que o amor dela continua nos aquecendo, como uma xícara fumegante em manhãs frias.

Viva, Dona Nely. Pra sempre, viva.

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