3 livros de contos que merecem sua atenção

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A coluna indica três livros de contos

A proposta desta coluna é indicar, a cada semana, três livros de um determinado tema. Livros que podem se agrupar em um assunto, uma expressão, uma ideia. E que fujam das listas dos mais vendidos e das resenhas publicadas com frequência em jornais, revistas e blogs.

Nesta semana, indico três livros de contos que merecem sua atenção.

Fugitiva, de Alice Munro

Seus contos podem fazer as vezes de um romance curto. Como estrutura, temos mulheres que buscam seu lugar, questionam suas posições, como no conto que dá título ao livro — uma menina tenta mudar de vida e deixar o ambiente repressor em que vive, submetida à violência. Ou em “Ocasião”, em que a personagem tenciona ocupar o espaço, deixar de ser substituída na vida pessoal e profissional.

Um dos mais fortes de “Fugitiva” (Biblioteca Azul) é o conto “Silêncio”, que trata da busca de uma mãe por sua filha. As vidas caminham e a mãe não desiste do reencontro, sem saber que a separação talvez tenha sido a forma de se encontrar. Em comum, temos a descrição de um Canadá fora do meio urbano, com paisagens monótonas, em sintonia com a vida retratada por Munro. A escrita é precisa, com descrições enxutas. Um grande livro.

De Repente, Uma Batida na Porta, de Etgar Keret

Os contos do autor isralense são curtos, raramente ultrapassam as 10, 12 páginas, o que provoca uma concisão poderosa, com narrativas que se resolvem sem necessariamente encontrar um fim para o leitor. Suas histórias passeiam pelo fantástico, o nonsense, o inusitado, o acaso, sempre tratadas com bom humor e um domínio da técnica impressionante.

Como no conto que batiza o livro. “‘Conte-me uma história, ordena o barbudo sentado no sofá em minha sala.” Assim começa e nos leva a um desenvolvimento tenso, paralelo ao absurdo, quando lemos que cada vez mais gente entra na sala do narrador para ouvir a história que não se emenda. Quando “De Repente, Uma Batida na Porta” (Rocco) termina, temos certeza de que ele está falando da relação Israel/Palestina, mesmo sem mencioná-la, sem sequer dar pistas. Mas poderia ser sobre a solidão, o medo, o terror.

Velórios, de Rodrigo M. F. de Andrade

O livro nasceu para não existir. Lançado em 1936 pelo jornalista e advogado, foi retirado de circulação pelo próprio autor um ano depois, quando assumiu o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan, hoje, Iphan). Achava que seu trabalho não poderia se misturar à produção artística. O livro só foi relançado, então, cinco anos após sua morte, em 1974. Ficou assim, somente com a versão da José Olympio, por 30 anos, até que a Cosac recuperou os oito contos de “Velórios” e acrescentou uma fortuna crítica assinada por nomes como Antonio Candido, Sérgio Buarque de Holanda e Manuel Bandeira.

Os contos têm, o que fica claro pelo título, um único tema: a morte. A permear, um certo humor negro, uma queda por segredos que não ficariam destoados da obra Nelson Rodrigues. O texto é tão bem escrito que o leitor não precisa de mais do que duas ou três linhas para saber onde se passa a ação, se no Rio de Janeiro ou em Minas Gerais. Está tudo lá, escondido nas palavras cuidadosamente escolhidas e colocadas em linha, como um trabalho de artesão.

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