Cientista mineira cria bengala inteligente para cegos

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Protótipo da bengala inteligente criado pela mineira Franciele Alves - Fotos - divulgaçao
Protótipo da bengala inteligente criado pela mineira Franciele Alves - Fotos - divulgaçao

Parada num ponto de ônibus, Franciele observava um deficiente físico caminhar em direção a ela. Sentiu uma certa aflição, uma espécie de desespero com a dificuldade dele em perceber a tempo os obstáculos do caminho. Quando sua bengala tocava em algo, praticamente já era tarde para desviar. “Imaginava que a qualquer momento haveria um acidente”, relata ela. A cena ficou na sua cabeça.

Mestre em Engenharia Elétrica, Franciele Aparecida de Souza Alvez, 25 anos, desenvolveu, como trabalho de conclusão de seu curso de graduação em Sistemas de Informação, o protótipo de uma bengala eletrônica que facilita o dia a dia das pessoas com deficiência visual.

O instrumento tem o pomposo nome de Bengala Inteligente Neural baseada em Aprendizagem por Reforço para Deficientes Visuais. Na prática, uma bengala com um dispositivo eletrônico que antecipa os obstáculos no caminho de um cego ou de quem enxerga muito pouco. Uma ideia inovadora que enche Franciele de orgulho.

“Quando tive a ideia não sabia que se tratava de algo tão novo. Foi uma surpresa pra mim”, revela ela. “As pessoas me perguntavam se tinha algum portador de deficiência visual na família”, comenta. Franciele conta que o projeto começou do zero e o primeiro passo foi a criação de um protótipo, a parte física da bengala.

Depois começaram os estudos para a conexão dos fios, dos sensores e do arduíno, uma espécie de cérebro da bengala. E, finalmente, o que ela chama de parte não física da bengala, que é a programação para fazê-la funcionar.

Franciele com professor Maury Meirelles (dir.), orientador da pesquisa, e o aluno Alexandre Neumann (esq.) mostram primeira versão da bengala
Franciele, o professor Maury Meirelles (dir.), orientador da pesquisa, e o aluno Alexandre Neumann (esq.) mostram primeira versão da bengala

Como um computador

“Por causa da rede neural, ela funciona como um computador. Esse é o principal diferencial dessa bengala em relação a outros modelos existentes no mundo”, compara Franciele.

“Isso significa que ela se adapta à velocidade de quem a usa. Se a pessoa caminha mais devagar, ela vai detectar mais à frente o obstáculo e vai emitir um alerta vibratório. Mas se a pessoa caminha mais rapidamente, ela detecta com maior antecedência, emitindo o sinal de aviso, antes do portador de deficiência tocar o obstáculo”, explica Franciele.

Depois de um ano de estudos e de muito trabalho, chegou a hora de realizar os testes com a nova bengala. “Foi muito gratificante ver o trabalho concluído. Uma ideia que me ocorreu por acaso e que eu pude desenvolver até chegar ao resultado final,” avalia Franciele.

Os testes foram realizados no Instituto São Rafael, em Belo Horizonte, escola especializada na educação e reabilitação de deficientes visuais. “Fiquei muito feliz com a aprovação deles”, lembra Franciele. A bengala inteligente tem ainda a vantagem de detectar obstáculo até dois metros de altura, evitando assim esbarrões e tropeções em galhos de árvores e caixas de correio, por exemplo.

O invento hoje encontra-se em fase de patenteamento, já tendo sido registrado pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). A Pontifícia Universidade Católica de Minas (PUC Minas), que segundo Franciele deu todo apoio e suporte à sua pesquisa, é a responsável pela patente.

Franciele fez questão de testar o seu invento
Franciele fez questão de testar o seu invento

Uma criação científica de grande importância social mas que até hoje ainda não encontrou patrocinadores para a sua fabricação industrial em larga escala. Segundo estudos da equipe que trabalhou no projeto, cada bengala hoje sairia ao custo de R$ 110 a R$120. Um valor nada exagerado para o avanço que representa na autonomia e segurança das pessoas com deficiência visual.

População esquecida

A cada 5 segundos, 1 pessoa se torna cega no mundo. O levantamento é do World Report on Disability 2010 e do Vision 2020 (iniciativa para eliminar cegueira evitável até 2020), projetos da Organização Mundial de Saúde (OMS). Do total de casos de cegueira, 90% ocorrem nos países emergentes e subdesenvolvidos. Segundo dados do IBGE de 2010, no Brasil, mais de 6,5 milhões de pessoas têm alguma deficiência visual.

Desse total, 528.624 pessoas são incapazes de enxergar (cegos); 6.056.654 pessoas possuem grande dificuldade permanente de enxergar (baixa visão ou visão subnormal); outros 29 milhões de pessoas declararam possuir alguma dificuldade permanente de enxergar, ainda que usando óculos ou lentes.

Do total da população brasileira, 23,9% (45,6 milhões de pessoas) que declarou ter algum tipo de deficiência, a mais comum foi a visual, atingindo 3,5% da população. Em seguida, ficaram problemas motores (2,3%), intelectuais (1,4%) e auditivos (1,1%).

Mas os números parecem não sensibilizar a sociedade para os problemas enfrentados por essas pessoas no seu cotidiano. “Se a gente for parar pra pensar, é uma parcela esquecida da população. São poucas as iniciativas voltadas para a melhoria de vida dessas pessoas”, lamenta Franciele. Para a jovem cientista, essa seria a razão para não haver ainda interesse na produção das bengalas inteligentes.

Filha de uma professora aposentada de Matemática, Franciele, que  acaba de concluir o seu mestrado, hoje  trabalha como free lancer na área de informática. Ela conta que gosta muito de criar e que sua mente está em constante ebulição. Números, equações, fórmulas matemáticas, robótica, inteligência artificial são sua paixão.

A pesquisadora agora se dedica a criar algorítmos inteligentes que vão classificar movimentos de imagética motora. O que isso significa? Franciele está estudando soluções para ajudar pessoas que sofrem de esclerose e perderam os movimentos do corpo. “O cérebro produz o sinal de movimento, mas o sistema nervoso não recebe esse sinal. Estou pesquisando uma maneira de fazer a pessoa conseguir movimentar próteses só com o pensamento”, revela a criadora da bengala inteligente.

 

1 COMENTÁRIO

  1. É sempre prazeroso acessar este site, com tantas notícias boas. Invenções que facilitarão a vida de pessoas normalmente excluídas do convívio social e tantas informações preciosas para nossa vida.

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