A beleza discreta de um dia comum

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Imagem - Pixabay
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Há dias bons. Outros, nem tanto.
Em alguns, a esperança parece sair mais cedo de casa e esquecer de deixar recado. A gente acorda, cumpre o ritual de sempre, toma café, olha pela janela, mas algo não encaixa. Surge então uma dorzinha supostamente no coração. Digo supostamente porque nunca soube ao certo se coração dói. Preciso me lembrar de perguntar ao Dr. Jaime na próxima consulta.
Além dessa pontada insistente, há outros sintomas dos dias mais ou menos.
A melancolia não chega de repente. Não derruba portas nem anuncia sua presença. Ela entra pelos cantos, acomoda-se numa poltrona e vai ocupando, aos poucos, os espaços que antes pertenciam à alegria. Quando percebemos, já está à vontade. O livro continua na mesa (minha montanha de livros por ler só cresce), mas permanece fechado. A música toca, mas não encontra eco. Os telefonemas se acumulam, e responder se transforma numa tarefa surpreendentemente complexa.
É curioso como a melancolia altera a escala das coisas. Pequenos compromissos ganham o tamanho de montanhas. Uma simples decisão parece exigir o esforço de uma expedição. A concentração escapa por frestas invisíveis, e até os pensamentos mais leves carregam um peso desnecessário.
Nessas horas, o recolhimento parece ser a melhor opção. Não por falta de amor pelas pessoas, mas porque a solidão parece oferecer uma espécie de trégua. O problema é que ela cobra caro pela hospedagem. Quanto mais nos escondemos do mundo, mais escuros ficam os corredores da própria mente.
O corpo também entra na conversa. O sono perde o rumo. O apetite muda de humor. O relógio continua avançando com a mesma precisão de sempre, mas a vida deixa de acompanhar seus ponteiros.
E então surgem aqueles pensamentos que enxergam defeitos com lupa e qualidades com miopia. Tudo parece distante. Tudo parece difícil. Tudo parece um pouco sem cor.
Mas o mais curioso é que, justamente nesses dias, a memória resolve trabalhar.
Ela traz de volta o aroma do café passado pela manhã. A conversa distraída com a vizinha na calçada. Tem a flor no muro da casa ao lado. Como é que eu nunca reparei nela antes? O caminho repetido centenas de vezes entre a casa e a dentista, do consultório ao trabalho. Por ele, sigo a avenida me encantando com as árvores. As cores das copas se alternam: ora ostentam o amarelo, ora o roxo; em outras épocas, esbanjam o lilás. Tudo depende da estação. E tem aquela vitrine natalina. (Uai! Ainda ontem era Halloween…). É tudo tão banal, mas tão encantador! Coisas que, quando aconteceram, pareciam pequenas demais para serem guardadas. No entanto, ficaram. Talvez porque a vida esteja escondida exatamente ali.
Passamos anos acreditando que a felicidade mora nos grandes acontecimentos, nas datas marcadas em vermelho no calendário, nos momentos preparados para serem inesquecíveis. Mas a saudade, essa arquivista rigorosa, prefere outra matéria-prima. Ela coleciona os instantes comuns. Guarda os gestos sem cerimônia. Preserva os dias que não sabiam que estavam construindo lembranças.
Por isso gosto de pensar que a saudade não é uma fuga para o passado. É uma forma delicada de lembrar o que nos alimentou ao longo do caminho. Um abrigo improvisado contra a aspereza dos dias difíceis.
Quando a melancolia resolve aparecer e sentar-se na sala, talvez valha a pena olhar pela janela. Não para procurar algo extraordinário, mas para reparar no que já está ali: a luz entrando pela fresta da cortina, o cheiro do almoço vindo da cozinha, a voz de alguém chamando pelo nosso nome. Por falar nisso, hoje, no início da manhã, me peguei lembrando de como a Mamãe me chamava. Num breve momento, até pensei ouvir a voz da minha querida. Comemorei a presença sem o estar fisicamente presente. Era só saudade mesmo.
Tudo isso que estou dizendo é ruim? É doença? Será que estou deprimida? Aí fui pesquisar. Pelo resultado da pesquisa aparentemente uma coisa não tem a ver com a outra. O nostálgico costuma dizer: “Que saudade daqueles tempos.” Já, o deprimido tende a pensar: “Nada parece fazer sentido agora, nem no futuro.”
Notícia boa. Segundo o Google, não estou deprimida. Só ando nostálgica. Estou construindo a saudade de amanhã no agora, na beleza discreta deste dia comum que, sem fazer alarde, está acontecendo. Aliviada!

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