Uma chave para o desconhecido

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Sempre fui uma entusiasta das novidades que a tecnologia nos traz. Gosto da vida simplificada, do cotidiano sem percalços. Afinal, a promessa de ter mais tempo para o que realmente importa, graças à praticidade que um simples toque na tela nos proporciona, é quase irresistível. No entanto, o cenário que começa a se desenhar diante de nós traz um arrepio sutil, uma pulga atrás da orelha que não posso simplesmente ignorar.
Se em Conceição do Pará manter as portas trancadas é uma regra aprendida desde a infância, um ensinamento de mãe que a gente carrega na bagagem, aqui em Beagá é uma necessidade quase instintiva. É um gesto antigo, quase um ritual: conferir os trincos das janelas, girar a chave na fechadura e recolher o corpo para a calmaria do lar. Dentro de casa, a vida guarda o seu ritmo mais afetuoso e acolhedor: o cheiro do café passado na hora inundando a cozinha, o zumbido quase imperceptível da geladeira mantendo o frescor das coisas, a promessa silenciosa de um repouso seguro. Mas o que acontece quando a fresta por onde a vulnerabilidade entra já não é a janela do quarto nem a porta da sala?
O recente episódio ocorrido em supermercados da França foi um aviso ruidoso sobre o lado sombrio dessa nossa desenfreada hiperconexão. Hackers invadiram remotamente o sistema de refrigeração das lojas e alteraram o comando dos aparelhos, fazendo com que geladeiras e freezers atingissem inacreditáveis 50 °C. O ataque causou a perda de toneladas de alimentos, curtos-circuitos e pequenos incêndios. Um perigo silencioso, destrutivo, orquestrado à distância por mãos invisíveis.
Mas o desassossego não para no circuito das máquinas; ele avança sobre a tessitura do próprio coração humano. Do outro lado do mundo, na China, empresas investem alto no desenvolvimento de robôs equipados com inteligência artificial, projetados para substituir o convívio presencial e preencher a dor da solidão com presenças sintéticas e conversas sob medida. O afeto, essa matéria tão imperfeita, demorada, preciosa e cheia de meandros, passa a ser empacotado e vendido como um produto programável de prateleira.
E essa ilusão cobra o seu preço na vida real de formas profundamente dolorosas. Nem é preciso esperar pelo robô chinês. Há poucos dias, um pedreiro de 49 anos atravessou mais de dois mil quilômetros de ônibus, saindo do Maranhão rumo à nossa Belo Horizonte, alimentado pela promessa de se casar com a mulher dos seus sonhos e viver com ela em uma fazenda. Ao desembarcar na rodoviária, encontrou a dura e fria realidade: a noiva prometida não passava de uma imagem criada por IA, um perfil gerado para engajar e iludir. O peso da solidão no peito, que o fez cruzar o país atrás de um abraço morno que não existia, encontrou no desembarque apenas o vazio das telas.
Sem querer ser saudosista, mas já sendo, bons tempos em que o máximo da conectividade com o objeto do desejo era o velho ICQ. Quem aí ainda se lembra desse avô do Tinder e do WhatsApp? Pois eu cheguei a conhecer um mocinho de Campinas usando exatamente essa ferramenta. Quando foi mesmo? Ah, foi no tempo da delicadeza, quando as conversas tinham outra cadência. Se deu match? Muito.
Agora, assistindo aos meus doramas e k-dramas, me pego lembrando desse paulista dos olhinhos apertadinhos que sorriam pra mim na tela do computador. Algumas pessoas próximas conhecem essa história (ou parte dela, se é que me entendem…). Um dia, quem sabe, conto os pormenores. Ah, e vai que a pessoa em questão se reconhece nesta crônica? Aí tudo pode acontecer. Inclusive um match de novo. Ou não.
Opa! Abstraindo de novo, perdendo o fio da meada…
Voltando ao xis da questão: o que me assusta de verdade é esse contraste. A rapidez com que a tecnologia deixa de ser uma assistente amigável para se tornar um território suscetível a ataques invisíveis e a ilusões profundas. Abrimos as portas da nossa rotina para a automação, o forno ligado à distância, a lâmpada que obedece à voz, a geladeira conectada, mas esquecemos que a mesma fresta que deixa entrar o conforto pode ser devassada por algoritmos intencionados a manipular nossas carências mais essenciais.
Não vou resistir ao que a modernidade nos oferece; seria tolice. Mas é impossível não olhar para o horizonte sem um fundo de inquietação. O risco não está no avanço tecnológico em si, mas em entregar a condução da nossa vida e dos nossos afetos a sistemas tão complexos que mal conseguimos decifrar. Por mais fascinante e inteligente que a máquina possa parecer, o cuidado com a existência ainda exige manter a mão firme no controle, o coração atento e os pés bem fincados no chão do mundo real.

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