O mundo cabe em um prato

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Como você monta o seu prato? O que vem primeiro? O arroz ou o feijão? Uma das minhas irmãs começa pela salada; eu, também. Mas isso não é uma regra aqui em casa. Como somos uma família grande e barulhenta, tem pra todo jeito. O que não muda é a geometria do prato principal: o almoço inteiro vem para o prato de uma só vez, em curvas desenhadas pelo arroz, pelo feijão, acompanhados da farofa dourada, do bife acebolado e da batata frita. É a nossa geometria afetiva. Diferente de outros países, somos um povo que gosta da festa no céu da boca acontecendo no mesmo instante. Sem etapas.

Acostumada com essa nossa geometria, certa vez, durante uma viagem a trabalho pelo interior da França, fiquei encantada com o ritual do almoço em Roanne, às margens do Rio Loire. O menu servido à nossa comitiva começou com uma salada de folhas, bacon e ovo poché. Depois, o prato principal: peixe ao molho de azedinha, receita emblemática da cidade, com legumes na manteiga. Em seguida, uma seleção de queijos regionais acompanhados de baguette. Para fechar, uma tarte tatin de maçãs com creme fresco.
Se serviram vinhos? Obviamente! Vale lembrar que Roanne, além de ser a casa do lendário restaurante três estrelas Michelin Maison Troisgros (sim, do pai do nosso Claude Troisgros), produz vinhos perfeitos para a gastronomia local, fazendo par ideal com carnes, queijos e embutidos.
Fiquei sabendo em um dos ótimos vídeos do jornalista Pedro Dória que a antropóloga Lívia Barbosa se debruçou sobre esse nosso jeito de sentar à mesa e que em suas pesquisas pelas metrópoles do país descobriu que 94% dos brasileiros não abrem mão da dupla arroz e feijão no meio do dia.

Além dessa curiosidade, nesse vídeo o jornalista conta que a nossa brasilidade não está apenas no ingrediente; está no gesto. Na Itália, a massa antecede a carne; nos Estados Unidos, a salada ganha vasilha à parte e, na China, o arroz repousa recolhido em sua própria tigela. Diferente da nossa gente, que coloca tudo na mesma arena, na China, Japão, Coreia do Sul a refeição é construída em torno do equilíbrio entre um alimento principal neutro, arroz ou massa, e seus acompanhamentos. A dinâmica à mesa prioriza a partilha: na China e na Coreia, os pratos ficam ao centro para que todos se sirvam, enquanto a tradição coreana inclui ainda uma variedade de banchans (como o famoso kimchi e vegetais salteados) compartilhados ao redor das tigelas individuais de arroz e sopa. Já no Japão, há uma estrutura harmoniosa composta por uma taça de arroz, uma de sopa, uma proteína, dois vegetais e as tradicionais conservas tsukemono.

  • E como é que você sabe tudo isso?

Uai! Assistindo doramas, k-dramas e c-dramas. Ou você acha que maratono só pra ficar de olho no Kim Seon Ho, no Jing Boran e no Cheng Lei? Até poderia, mas as comidas também são um banquete à parte (se é que entendem). Não por acaso, na cozinha dessa mineira da gema o que não falta é missô, gochujang e kimchi.

Voltando ao ponto de partida (antes que eu me perca detalhando as cenas de The Lament of Autumn e The Early Spring), falemos sobre o jeito de comer e a hierarquia do afeto. Afinal de contas, na sua família quem vai por cima: o arroz ou o feijão? E o resto? Ops! Antes que você me corrija: quando digo “resto” estou me referindo à “mistura”, ou seja, da carne, do ovo frito de gema mole e daquela couve fininha… Hummm!

Há quem goste do arroz sobre o feijão; outros, do contrário. Mas nada que renda brigas familiares. A mesa brasileira é terreno de liberdade. Cada lar tem seu estatuto, sua poesia particular. Há nisso uma poética bonita de se reparar. Como disse o Pedro, o europeu organiza a sua refeição no tempo: uma sucessão de momentos, um prato após o outro. O brasileiro prefere organizá-la no espaço: tudo ao mesmo tempo, ao alcance dos olhos e do garfo, cada sabor resguardando o seu lugar.

Talvez seja por isso que o restaurante a quilo é uma invenção tão genuinamente nossa, inexplicável para quem vem de fora. Só sob o nosso céu faz sentido colocar, no mesmo prato raso, um sushizinho delicado, uma fatia de lasanha fumegante, uma concha de feijão e uma colher de farofa. Ninguém ache estranho.

É que no Brasil, com o feijão no posto de chefe e o arroz, de subchefe (ou seria o contrário?) e a vida acontecendo toda de uma vez, o mundo inteiro cabe num prato raso.

Bom apetite!

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