Nem sempre o amargo é ruim

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Imagem gerada por IA
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Já faz tempo, aqui na minha família, o café não chega adoçado à mesa. Os excessos cobraram seu preço e o diabetes nos obrigou a rever hábitos. Uns preferem o grão puro, outros recorrem ao adoçante. Vai do gosto de cada um. Eu mesma só tomo sem nada quando o café é de boa procedência; caso contrário, cedo ao adoçante. Mas se na minha casa o amargo se impôs, na maioria dos lares brasileiros ainda reina o café docinho, memória afetiva que atravessa gerações e embala manhãs com aconchego.
Vai aqui uma ressalva importante: acostumar a beber café sem açúcar exige coragem. É aceitar o amargo como ele é, descobrir notas escondidas, saborear a autenticidade. Pode até funcionar como uma metáfora da maturidade: aprender que nem tudo precisa ser suavizado, porque é justamente no contraste que mora a beleza. O amargo nos lembra que nem todos os dias são doces, que há travos e resistências, mas também nos mostra que é nesse contraste que floresce o brilho da conquista.
O jiló, injustiçado por tanto tempo, ensina a mesma lição: não existe ingrediente ruim, apenas comida malfeita. Até aquilo que um dia torceu nosso nariz pode, com o tempo, virar motivo de orgulho e sabor inesquecível.
Adoraria saber se você é do time que torce o nariz ou daquele que se rende a esse fruto que, para mim, é uma verdadeira joia.

  • Uai, por que o estranhamento? Você não sabia que o jiló é um fruto?

É fruto, sim, e é primo em primeiro grau da berinjela e do pimentão. Refogado, à milanesa ou acompanhado de um fígado acebolado faz festa no céu da boca de quem é mineiro raiz. No caso, mineira, ou seja, euzinha aqui. Gyslaine, a nossa primogênita, até então inimiga do jiló, apaixonou-se quando ficou gravida do João Guilherme. E lá se vão mais de 40 anos.
Mas não pense você que esse fruto de personalidade forte mora apenas nas nossas cozinhas. Ousado, quebrou barreiras e virou o queridinho da vez e passou a brilhar em cardápios de restaurantes sofisticados. De comida de passarinho e de lembrança amarga de infância, o jiló ganhou uma segunda chance na alta gastronomia.
E como sou dessas que aprecia uma metáfora, assim como o café sem açúcar, gostar de jiló exige aprendizado. A coisa vai acontecendo aos poucos. Primeiro há um estranhamento, depois uma descoberta: afinal, jiló não é tão ruim assim como dizem.
É assim com os nossos desafios. Para vencê-los é preciso acumular histórias. Só assim para entender que o amargo nem sempre é inimigo; é profundidade. O jiló não entrega prazer fácil como faz o danadinho do açúcar, mas recompensa com camadas de memória e afeto.
Na última crônica até resgatei parte da minha história com ele. Quem leu já sabe que estou falando do doce de jiló, uma das muitas experimentações culinárias da minha avó Cocota. Esse doce foi uma unanimidade? Todos apreciaram a iguaria inusitada? É claro que não. Alguns gostaram, outros rejeitaram de primeira. Acabaram deixando para a minha avó a tarefa de continuar desafiando o paladar da família. No fim, nem vencidos, nem vencedores. A experiência virou história para ser contada. Desse jeitinho que estou fazendo aqui.
Seguindo o exemplo de resistência do jiló, outros sabores também saíram das sombras para conquistar lugar de honra nas mesas contemporâneas. O chocolate intenso, a cerveja IPA, aquela que os jovens erguem como se fosse medalha de maturidade, e até a ousada flor de sal, que meus sobrinhos detestam, ganharam espaço.

  • Tia Gisele, nem pense em colocar sal na cobertura do brigadeiro do bolo chocolatudo, escuto com frequência.

E, confesso, faço ouvidos de mercador: sigo firme na minha convicção de que o contraste é que dá graça ao paladar.
No fim das contas, seja no café sem açúcar, no jiló ousado, no chocolate cem por cento cacau ou na cerveja, o que aprendemos é que o amargo também tem seu lugar: ele nos desafia, nos educa e nos amadurece. Porque a vida, assim como a mesa mineira, só encontra sentido no contraste. E é justamente o amargo que faz o doce valer a pena.

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