Você pode ter uma fortuna no armário

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Louças Duralex viraram objeto de desejo e podem falar fortuna. Foto - redes sociais
Louças Duralex viraram objeto de desejo e podem falar fortuna. Foto - redes sociais

Quem convive comigo sabe o apreço que tenho pelas memórias. Me apego facilmente às fotos, vídeos, livros, roupas e louças. E muito antes de virar tendência, não era segredo o meu encantamento pelas louças Duralex. Ah, você mora em outra dimensão, é da geração Z e nunca ouviu falar disso, não? Pois, então eu vou lhe contar.

Duralex é o nome daquelas louças cor de caramelo (olha o caramelo aí, gente!) que até o início dos anos 2.000 eram comuns nas nossas casas. Na minha tinha – e ainda tem – xícaras, pratos, pires, travessas e tigelas.

  • Gisele, vamos servir a salada na travessa cor de mel?
  • Gilda, a gente poderia servir o feijão na tigela cor de mel. Que você acha?

Esse diálogo remete ao tempo da delicadeza? Nananinanão! Acontece com frequência nos almoços de domingo. Refeição pronta, na hora de servir as louças cor de mel herdadas da Mamãe sempre são a nossa primeira opção.

  • Ah, vocês não têm outras louças, não?

Claro que temos e não são poucas. A questão é que as “Duralex” fazem jus à fama que têm. São bonitas e praticamente inquebráveis. E por isso ainda sobrevivem nos almoços das famílias grandes e barulhentas como a nossa.

A história da Duralex não é de hoje. Começou na França de 1945. Naquele momento as famílias ainda se recuperavam da guerra e queriam louças com preços que coubessem no bolso. Sucesso de vendas na Europa, em 1980 viraram figurinha carimbada nas nossas mesas. Ganharam fama como os pratos marrons que sobreviviam a tudo. Só que não. Vencidos pela modernidade, nos anos 2000 foram retirados de cena e encontraram morada no fundo dos armários.

Agora, parece que a nossa louça está dando a volta por cima. A internet abriu espaço para o resgate dos pratos, travessas, tigelas e xícaras. Quem tem comemora. As Duralex se tornaram o objeto de desejo de quem aprecia peças com pegada vintage. Se antes, em casas como a nossa, sobreviviam pela resistência e pelo apelo emocional, agora são vistas como verdadeiras relíquias e tcham, tcham, tcham: tornaram-se valiosas. A Duralex virou hype e, quem diria, ganhou status de estrela pop nas prateleiras digitais. Estão custando os olhos da cara, disputadas a tapa por blogueiros e colecionadores.

Esse cenário me leva a concluir – e me desmintam se estou errada – que a nostalgia tem um preço e ele não é baixo. Dependendo do estado de conservação, um único copo da linha tradicional marrom pode ser anunciado por até R$ 400. Pratos, xícaras e travessas seguem a mesma lógica: quanto mais vintage e bem preservados, maior o valor de mercado.

Quem me chamou a atenção para esse fenômeno comercial foi o Beto. Meu irmão alertou que a nossa família tem sob a sua posse uma pequena fortuna.

  • Uai! Mas como ele ficou sabendo disso?

Fácil. Beto, assim como as louças antigas, carrega um certo charme vintage. E não falo de aparência nem de idade. É que meu irmão tem uma memória ancestral, cultivando músicas, histórias e costumes que muita gente hoje já considera ultrapassados. Pra defini-lo, cabe até aquela palavrinha fora de moda: Beto é démodé. Mas não se engane. É justamente nesse seu jeito fora do seu tempo que mora sua sabedoria.

Vira e mexe, ele nos surpreende com técnicas e conhecimentos herdados dos antigos, sobretudo dos momentos vividos com Papai na lida com o gado, na construção de cercas e porteiras, ou no cuidado com o pomar e a horta. E isso, meus amigos, não tem preço. Ao contrário da nossa coleção Duralex, que até vale uma boa grana, mas não está à venda. Muito menos disponível pra empréstimos, ainda que seja só pra algum blogueirinho ostentar nas redes por segundos tão fugazes quanto a própria fama.

E pra finalizar essa nossa prosa um tanto quanto aleatória, vai um conselho (ou melhor, um lembrete, porque se conselho fosse bom, a gente vendia): antes de se desfazer daquele prato, copo ou travessa esquecidos no fundo do armário, dê uma olhadinha no valor. Vai que você tá guardando uma pequena fortuna.

Ah, o nome “Duralex”, por mais que a explicação não faça sentido, vem da expressão latina “Dura Lex, Sed Lex’, ou seja, a lei é dura, mas é lei. E estamos conversados.

3 COMMENTS

  1. Ahhh, que delícia de leitura! 🌟
    Quem te conhece sabe o quanto você transforma memórias em poesia do cotidiano. E dando vida a essas lembranças com tanta sensibilidade!
    E pensar que aquelas xícaras que a gente achava “comum demais” agora valem uma fortuna? Socorro!
    Adorei cada linha — memória boa demais dá nisso: aquece o coração e ainda rende risadas.
    PS: Pode avisar pro Beto que, se quiser vender as relíquias, vai ter que passar por uma assembleia familiar. 😂

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