Costumo almoçar no Edifício Maletta, um dos lugares mais icônicos de Belo Horizonte. Por lá, há muitas opções. Além disso, a comida é honesta e saborosa. E como se não bastasse, ainda é ponto de reencontro de amigos que trabalham ou gostam de bater perna pelo centro da cidade.
Ontem mesmo reencontrei duas pessoas de quem gosto especialmente. Sabe aquela sensação que mesmo passado muitos anos a gente abraça o outro como se o último encontro tivesse acontecido há poucos dias? Pois, então! É aí que mora a diferença entre amizade e relação de amizade.
Revendo um episódio de Papo de Segunda, no GNT, entendi que as duas coisas, apesar das semelhanças aparentes, são diferentes. A explicação foi dada pelo escritor Chico Bosco. Provocado pelo ator João Vicente de Castro, para quem a “Geração Z” apaga as amizades aos poucos, Chico disse que aquilo que une as pessoas, aquilo que faz com que sejam amigas é a pré-linguagem. Ficou difícil? Pré-linguagem é quando duas pessoas se entendem pelo olhar, quando você é sensível ao modo de ser do outro. Agora ficou fácil, né? Aposto que você já viveu esse momento inúmeras vezes.
E sobre a relação de amizade? Essa, sim, pode se deteriorar, se desfazer ao longo do tempo. Acontece muito no ambiente de trabalho. No dia a dia, na rotina, você se identifica com um colega ou com uma colega e, como disse o Chico Bosco, chega no ponto que vocês se entendem apenas pelo olhar. Mas, se você muda de emprego a sua vida muda junto. Chega em um ponto que você até se afasta da pessoa em questão. E se a amizade não acaba, o mesmo não ocorre com a relação de amizade. A parte boa é que quando acontece o reencontro junto vem o desejo de reatar os laços. E tcham, tcham, tcham! Nesse momento reacende a afetividade que, até aquele momento, aparentemente, estava silenciada.
Foi o que aconteceu no Maletta. Samuca, aposentado, hoje mora em Almenara. Vem a Beagá de seis em seis meses. Feliz que nesse retorno eu tenha dado a sorte de reencontrá-lo sem combinação. O acaso levou ao abraço de dois amigos que não se viam há tempos.
Também reencontrei a Simone. Trabalhamos juntas por longos e inesquecíveis anos. A convivência levou a uma amizade que distanciamento nenhum silencia. Se a relação do dia a dia não existe mais, o mesmo não posso dizer do sentimento. Esse continua, imutável, sólido, como deve ser com aqueles que se identificam e se gostam, independente de onde estejam.
Amigo bom é aquele que não repara nos nossos tropeços de verbo, mas segura a mão da gente quando a alma dá cambalhota. Ele entende quando a gente fala com bicho, elogia nosso lado esquerdo (aquele que ninguém usa) e ensina que poça d’água também pode ser espelho de céu.
Amizade não tem assunto importante. Ela se alimenta de café frio, saudade e pedacinhos de risada guardados no bolso. Ela vive no intervalo entre o “como vai?” e o “tô aqui, me chama se o mundo pesar demais”.
A gente planta amizade em vasinhos de afeto. Não precisa podar, só regar com tempo e escuta. Porque amigo que é amigo não serve só pra festa: serve pra quando a gente quer ficar em silêncio e ainda assim sentir que há alguém do outro lado da rede, balançando junto.
Poderia continuar por aqui infinitamente, me estendendo sobre amigos e amizades, mas posso sintetizar porque sei que pra você tempo vale ouro. Sendo assim, posso dizer que há palavras que traduzem uma amizade. “Sapato”, por exemplo, é coisa que a gente tira quando a amizade é boa. Ou “ninho”, que é lugar onde cabem abraços que não foram dados ainda. Há também “silêncio”, que é um modo como os amigos dizem “estou aqui” sem fazer barulho. Há outra melhor ainda: “reticências”. Essa é pra quem tem saudade dentro, mas disfarça. Quer mais? Que tal “pouso”. Essa palavra costuma morar em um ombro do amigo quando as coisas não estão em céu de brigadeiro. Por fim, “afeto”, que é aquilo que quanto mais se gasta, mais sobra.































Amizade é amor em sua total plenitude. E tempo não faz a menor diferença, né, Neuzinha? E é sem sexo. Se a gente tem sorte de ter uma amizade plena com sexo, chegou ao nirvana, não tenho a menor sombra de dúvida.
Concordo muito.
Há pessoas que cruzam nosso caminho
e encontram, no coração, um cantinho macio.
Ali se aninham, serenos, em silêncio,
e quando o peito clama por amor e carinho,
estão lá, como se nunca houvessem partido,
eternos, em sua doce e constante companhia.
Bem assim.
Ops! Fiquei muito tocado e me dei o direito de escrever algo, mesmo que não à altura. Te desejo muito amor e muita sorte Gisele.
Segue aí:
Sorte e saudade são palavras distantes.
“Descombinadas”, quase nunca cabem na mesma frase.
Saudade é palavra doída, marejada, lacrimosa. Não combina com grito, não pede alarde,
quase sempre flui em sussuros e resmungos.
Saudade é palavra contemplativa,
é memória,
é o registro de jeito e gestos.
É o afeto preenchendo a falta.
Saudade, mais do que fonema é coisa, —coisa sentida de dentro,
coisa que descompassa o coração,
aperta no estômago,
entala na garganta,
escorre dos olhos.
Saudade é palavra-dor.
Saudade é perda.
Já por seu lado, sorte é fortuna,
é palavra florida, alegre, retumbante.
É expressão cheia, completa, transparente.
Sorte é palavra tambor de boas novas.
É bumbo de bom alvitre pressupondo o futuro.
Sorte não é palavra segregada —é palavra gritada,
que pede e merece altivez na pronuncia.
Sorte, quando bem dita, é palavra desejo,
é senha de bem querências,
é palavra elo que ata amizades.
Querida,
saudade e sorte só cabem juntas quando novos caminhos se colocam à nossa frente,
quando mudanças nos envolvem, quando ciclos se concluem, quando a vida nos faz
avançar.
Não olhe para trás com lamúrias e angústias. Afinal, nenhum de nós acredita que
perderemos o contato. A boa sorte te contemplará —é essa a torcida, é esse o desejo.
Que lindo! Emocionada aqui. Obrigada por tanto amor, por tanto carinho. Sou mesmo uma pessoa de sorte.
Como sempre, você birda as palavras que gostaríamos de dizer.
É muito bom estes reencontros.
Precisamos reencontrar. Beijos amiga!
Precisamos muito desses reencontros. Apareça mais vezes.
AMEI: “Sapato”, por exemplo, é coisa que a gente tira quando a amizade é boa. Ou “ninho”, que é lugar onde cabem abraços que não foram dados ainda. Há também “silêncio”, que é um modo como os amigos dizem “estou aqui” sem fazer barulho. Há outra melhor ainda: “reticências”. Essa é pra quem tem saudade dentro, mas disfarça. Quer mais? Que tal “pouso”. Essa palavra costuma morar em um ombro do amigo quando as coisas não estão em céu de brigadeiro. Por fim, “afeto”, que é aquilo que quanto mais se gasta, mais sobra. NÃO PARE DE ESCREVER NUNCA. OBRIGADA E ÓTIMO DIA.
Muito obrigada!
É um prazer quando encontramos pessoas queridas assim por acaso. Belo texto!
Muito obrigada!
Amizade é o resto depois que tudo mais foi embora. Pra guardar debaixo do lado esquerdo do peito, debaixo de sete chaves, como quis Fernando
Não se perca nunca de mim.