
Uma vacina desenvolvida integralmente no Brasil está próxima de se tornar realidade. A SpiN-TEC, imunizante criado nos laboratórios do CTVacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) contra a Covid-19, acaba de concluir com êxito a fase 2 dos testes clínicos em humanos. A conquista representa um marco histórico na ciência brasileira e um passo decisivo rumo à autonomia na produção de vacinas no país.
Na última quinta-feira, 8 de maio, a voluntária Maria Adelaide, de 61 anos, encerrou oficialmente o ciclo de visitas da segunda fase dos ensaios clínicos. Comerciária e moradora da Região Metropolitana de Belo Horizonte, ela participou de 24 interações com a equipe do CTVacinas — sendo nove presenciais e 15 remotas. Assim como outros 319 voluntários, Adelaide foi monitorada durante 12 meses, com coletas de sangue e exames médicos regulares.
“Estou muito orgulhosa de participar desse marco histórico. O Brasil precisa fabricar as próprias vacinas, não depender de nenhum outro país para proteger a própria população”, disse Adelaide ao jornal da UFMG. Segundo ela, a experiência foi tranquila: “Não tive nenhuma intercorrência, dor, nada”.
Tecnologia brasileira com eficácia comprovada
A SpiN-TEC, a vacina 100% brasileira, se diferencia das demais vacinas já disponíveis no país por dois fatores fundamentais: o custo reduzido e a eficácia ampliada contra múltiplas variantes da covid-19. De acordo com Helton Santiago, diretor de ensaios clínicos do CTVacinas, os resultados da fase 2 comprovam a segurança e a eficácia imunológica da vacina.
“O custo de produção é mais barato porque utilizamos uma tecnologia dominada no Brasil, com capacidade de fabricação em farmacêuticas nacionais, sejam públicas ou privadas. Além disso, a SpiN-TEC pode ser armazenada em geladeira por até dois anos, o que facilita a distribuição, principalmente em regiões mais remotas”, explica Santiago.
Essa estabilidade é um diferencial importante. Outras vacinas exigem temperaturas ultrabaixas para conservação. Já a SpiN-TEC se mantém viável por até 15 dias em temperatura ambiente, algo valioso em países com desafios logísticos.
Outro ponto relevante é o tipo de imunidade gerado pela vacina. Diferente dos imunizantes tradicionais, que se baseiam em anticorpos neutralizantes, a SpiN-TEC aposta na imunidade celular, especialmente na ativação dos linfócitos T. Essa estratégia tem se mostrado mais eficaz diante do surgimento de novas variantes do coronavírus.
“Enquanto os anticorpos neutralizantes perdem eficácia frente às mutações, a resposta celular continua ativa. É o mesmo princípio usado nas vacinas anuais contra a gripe: a pessoa pode até se infectar, mas não desenvolve sintomas graves”, detalha Ricardo Gazzinelli, coordenador do CTVacinas.
Caminho até os braços da população

Para que a vacina chegue ao Programa Nacional de Imunizações (PNI), ainda é preciso concluir a fase 3 dos testes, que envolverá cerca de 5.300 voluntários em todo o Brasil. Essa etapa, a mais complexa do processo, está prevista para começar em 2026 e deve durar pelo menos um ano. Em seguida, a Anvisa precisa aprovar os resultados com base em rigorosos critérios técnicos.
“Passamos pelo chamado ‘vale da morte’, que é justamente o trecho entre a pesquisa básica e a aplicação na sociedade. Com a SpiN-TEC, estamos vencendo essa barreira e ensinando o Brasil a desenvolver suas próprias vacinas”, afirma Gazzinelli.
Em todo o mundo, apenas uma outra vacina utiliza estratégia semelhante à da SpiN-TEC, mas ela foi licenciada na Rússia e ainda não conta com o reconhecimento de agências internacionais como a FDA (EUA) ou a EMA (Europa). Por isso, a expectativa em torno do imunizante brasileiro é ainda maior.
Se tudo correr conforme o planejado, a SpiN-TEC, a vacina 100% brasileira, poderá ser aprovada para uso em humanos já em 2028. Até lá, os pesquisadores seguem firmes no objetivo de levar aos brasileiros uma vacina segura, acessível e totalmente nacional. Um marco de soberania científica que pode redefinir a resposta do país a pandemias futuras.
As três fases dos testes clínicos de uma vacina são etapas fundamentais para garantir que ela é segura, eficaz e aprovada para uso em larga escala.
Com informações do jornal da UFMG






























