Cadernos que guardam histórias

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Imagem - Pixabay
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O que você costuma carregar na sua bolsa? Na minha sempre há um pequeno frasco de perfume, chaves, óculos, cartão de crédito, um santinho com oração no verso, batom e um “Moleskine”. Se é o original? Claro que não; esse custaria uma pequena fortuna, e não é o caso. O meu é artesanal, comprado em uma loja colaborativa. Na capa há imagens da Igrejinha da Pampulha: um encanto tanto de ver quanto de tocar.
Só agora percebo que, como sempre, estou aqui me alongando enquanto você talvez ainda esteja se perguntando: mas, afinal, o que é esse tal de Moleskine? Nada mais que o caderninho mais famoso do mundo. Produzido originalmente por uma pequena fábrica francesa, foi usado por artistas e escritores como Van Gogh, Picasso e Hemingway. Por isso, tornou-se símbolo de criatividade e memória. Em 1986, a produção foi interrompida, deixando órfãos os apaixonados por esse objeto do desejo de muitas pessoas, entre elas, euzinha aqui.
Descobri essa história em um post da Chantal Goldfinger: o caderno quase desapareceu, mas foi salvo pelo escritor Bruce Chatwin. Em The Songlines, ele registrou com afeto a importância do Moleskine em suas viagens, e esse relato foi decisivo para manter viva sua lembrança. Inspirada por ele, a empresa italiana Modo & Modo relançou o produto em 1998, transformando-o em ícone global. Mais que um simples caderno, tornou-se espaço em branco para histórias ainda não escritas, símbolo de criatividade, liberdade e memória. Hoje, aparece em mesas de escritores, mochilas de viajantes e até em filmes, como O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.
Seduzida por essa narrativa, lembrei da Lulu. Minha irmã guarda um caderno onde cola rótulos dos vinhos que atravessam sua vida. Talvez tenha deixado escapar algumas garrafas, mas o lado bom é que agora tem a “difícil missão” de saborear novamente certos vinhos apenas para completar a coleção. Ao lado de cada rótulo, Lulu escreve não só sobre o vinho, mas sobre o instante: a data, a companhia, o lugar. Assim, quando estiver no outono da vida, poderá revisitar não apenas notas aromáticas, mas também rostos, cenários e histórias que se entrelaçaram àquele gole. Mais que degustar, é eternizar. Encantei-me com essa ideia e, sem pudor, decidi roubá-la para mim. Ah, acabei de me lembrar que ela tem mais um caderninho. Nesse registra opiniões sobre os livros que lê.
Outra pessoa que tem um caderninho especial é a Denise. Em ano eleitoral, todo “santinho” que recebe, não importa o partido, a corrente ideológica ou a simpatia por este ou aquele candidato, o dito cujo ganha lugar de honra no seu caderno. Isso acontece há anos. Um dia perguntei a ela qual era o sentido disso. Sem pestanejar (amo essa palavra), respondeu na lata: “Uai! Pra gente saber que determinada pessoa já teve coragem suficiente para se lançar candidato e botar a cara à tapa”. O caderno da Denise é uma verdadeira preciosidade. Como diria a Vovó Cocota, “é cada figura que só vendo”.
Ainda sobre registros datados, houve um tempo em que os “cadernos de recordação” faziam sucesso. Mamãe tinha um, alimentado por pensamentos e poemas escritos pelas colegas do Magistério. Entre eles, havia um chamado Dois Cisnes, que ela apreciava tanto que vivia declamando seus versos. Ainda posso ouvi-la: (…) “Um dia um cisne morrerá, por certo: / Quando chegar esse momento incerto, / no lago, onde talvez a água se tisne, / Que o cisne vivo, cheio de saudade, / Nunca mais cante, nem sozinho nade, / Nem nade nunca ao lado de outro cisne…”
Muito tempo depois, já nos anos 1970 e 1980, nós, as filhas adolescentes de Dona Nely, mantivemos a tradição, dando continuidade a esse hábito de eternizar afetos em páginas de papel. Nossos Cadernos de Recordação eram como pequenos cofres de papel, guardando em cada página o gesto carinhoso de uma amizade. Passavam de mão em mão nas salas de aula, recebendo frases, poemas, desenhos e dedicatórias que, mais do que palavras, eram marcas de presença. Cada letra escrita à caneta colorida, cada recorte colado, cada verso improvisado transformava o caderno em um mosaico de afetos. Eram simples, mas carregavam uma delicadeza que hoje parece rara: o desejo de permanecer na memória do outro. Ao reler esses cadernos, décadas depois, não se encontra apenas a caligrafia juvenil, mas o eco de risadas, confidências e a certeza de que a amizade também pode ser eternizada em papel.
Seja no Moleskine original, seja no meu artesanal, no caderno de rótulos, no de livros ou no caderno de santinhos das minhas irmãs, no frigir dos ovos, cada um inventa seu jeito de colecionar lembranças. E você? O que anda guardando na sua bolsa, no seu caderno, ou melhor, na sua história?

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