Nem tudo é o que parece

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Imagem Pixabay
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Aconteceu em uma tarde de sábado. Naquele dia, a massa do biscoito de queijo virou palco de uma alquimia às avessas: em vez de parmesão, sabão; em vez de sabor, ardor.

O café da tarde prometia. Havia programado servir biscoitos de queijo. Dessa vez, com novidade. Descobri uma enorme fatia de um bom queijo parmesão esquecida na geladeira. Por lá havia também vários pedacinhos de queijo Minas. Sobras de deliciosos cafés da manhã em família e de outras aventuras culinárias. Ralei tudo. Eu já me imaginava servindo biscoitos dourados e crocantes. Haveria também muitos elogios. Com certeza haveria vários huuuns e “ai, que delícia!”.

Ingredientes na gamela, tudo misturado, assim que comecei a sovar a massa apareceram os primeiros sinais de estranhamento. A cor da massa estava escura, diferente do amarelo vivo que os ovos caipiras costumam trazer. Provei um pedaço da massa, hábito antigo, confesso. O sabor não lembrava queijo. O biscoito ardia como se tivesse pimenta escondida na massa. A garganta formigava. Denise provou também e confirmou: algo estava errado.

Ainda assim, insisti. Enrolei uma forma inteira e levei ao forno. O resultado foi decepcionante: biscoitos que não cresceram, quebradiços, esfarelando ao menor toque. Cada mordida era um desafio: engolir ou desistir. O ardor aumentava. A única saída foi descartar tudo.

Dias depois, Gilda abriu a geladeira em busca de um queijo para enriquecer a macarronada. Encontrou o pedaço estranho, aquele mesmo que eu havia usado na massa.

Como sempre acontece, enquanto a gente cozinha, a Meg e o Rock que, atraídos pelo perfume, sempre aparecem com olhos pedintes. Gilda cortou um pedacinho do queijo e ofereceu aos dois. Ambos farejaram. Mas, curiosamente, recusaram o presente. Curiosa, Gilda e Beto decidiram lavar o pedaço.

  • Uai, Beto! Por que será que não comeram? Talvez seja porque a Meg está idosa demais. Mas e o Rock?

Foi aí que decidiram lavar o pedaço de queijo. Bastou um toque e surgiu espuma. Não era queijo; era sabão. E da melhor qualidade. Veio lá de Estrela do Indaiá. Foi feito pela Daguinha com capricho artesanal.

Rimos da descoberta, mas ficou a lição: nem tudo o que parece queijo é. Gilda e Jacq, como sempre, responsabilizaram o Zolpidem.

  • Já passou da hora de você abrir mão desse medicamento, alertaram quase ao mesmo tempo.

Denise, cúmplice, só observava a cena. Afinal, quem guardou o sabão na geladeira foi ela. Portanto, coautora do “deslize”. Beto exibia aquele meio sorriso de quem mentalizava: “isso não me surpreende mais”.

No frigir dos ovos, perdemos os valiosos pedacinhos de queijo curado, parte do precioso sabão presenteado pela Daguinha, ovos, polvilho, óleo e sal. Mas aprendemos que naquela cozinha, até os enganos podem render boas histórias.

Toda essa prosa me levou de volta às cenas vividas com Mamãe naquela mesma cozinha. Sempre que amasso biscoito, recordo a história que ela nos contava enquanto moldava pães de queijo, rosquinhas, rosca da Rainha… Era uma narrativa que nos fazia chorar e ainda faz, acredite.

Falava de duas famílias: uma muito rica e outra marcada pela vulnerabilidade. A mãe da família pobre cozinhava para a rica, enquanto seus filhos permaneciam em casa, famintos, aguardando sua volta. Ao fim do dia, depois de enrolar os biscoitos, ela retornava com as mãos ainda cobertas de massa e só as lavava em sua própria cozinha.

A mãe rica não compreendia como os filhos da cozinheira eram tão saudáveis se mal tinham o que comer, até que soube: o segredo estava no mingau preparado com a água da bacia onde a mãe lavava as mãos, única refeição das crianças. Quando descobriu, obrigou-a a lavar-se antes de deixar a casa. Foi uma crueldade que nos chocou profundamente.

Ainda hoje é assim. Seja em Conceição do Pará, em Belo Horizonte, em Brasília ou em qualquer lugar onde haja uma filha de Dona Nely, essa história nos move. Para nós, o ato de enrolar e amassar biscoitos tem sempre mais de um sentido. E não dá outra: assim que saem do forno, todas as delícias são compartilhadas. Essa é a missão de quem cozinha. Lição dada, lição aprendida. Afinal, Dona Nely era uma mestra. Das boas.

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