Sonhando com as cerejeiras

1
19
Imagem gerada por IA
Imagem gerada por IA

Para fugir da dureza do mundo real tenho abstraído com mais frequência que o habitual. Há poucos dias, por exemplo, sonhei que estava em Tóquio. A rua, com várias cerejeiras em flor, era ladeada por um rio. Nesse sonho eu não estava só. Ao meu lado o estava ator Kim Seon Ho, um querido. Tá bom! Eu confesso. Ele é, sim, meu crush.
No sonho, caminhávamos sem pressa em direção ao Café Marble. O futuro parecia suspenso. Era como se não houvesse nada além daquele instante. A associação com o ator talvez tenha vindo de Bonjour Bakery. Nesse reality, Kim Seon Ho atua como barista em uma cafeteria criada para acolher moradores idosos de uma pequena cidade do interior da Coreia do Sul. As cenas fofas transmitem acolhimento e leveza.
Detalhe importante: o cenário do meu sonho não era a cafeteria do reality: era a mesma descrita em “Chocolate quente às quintas-feiras”, livro da safra da escritora Michiko Aoyama. Não por acaso, li esse livro despretensioso durante uma viagem recente a Brasília. Estava tão mergulhada na leitura que chamei a atenção da comissária de bordo.

  • Esse livro é bom? – Quis saber a moça, confessando que já ter se interessado pela obra na livraria do aeroporto. Mas desconfio que o motivo era outro. Naquele voo lotado talvez eu fosse a única passageira lendo algo que não fosse a tela do celular. E isso certamente chamou a atenção dela.

Voltando ao ponto de partida, tudo estava indo muito bem até que aconteceu o inesperado. Antes que entrássemos na cafeteria o sonho acabou. Despertei com os latidos do Niki. Ele, com sua urgência de cão, me puxou de volta ao cotidiano. Os latidos ecoaram como contraponto àquele cenário idílico. Era o som da realidade batendo à porta.
Eu nem havia despertado direito e lá veio aquela pulguinha que insiste em me cutucar atrás da minha orelha. O que significaria esse sonho? Foi ai que me lembrei do livro de interpretações, nosso antigo oráculo familiar, que hoje repousa em uma das nossas estantes. Caiu no esquecimento porque hoje raramente sonho. Talvez seja efeito do zolpidem. Mas quando um devaneio vence o medicamento, como nesse passeio com Kim Seon Ho, sinto que há algo pedindo para ser decifrado.
Desde então estou me prometendo que ainda nessa semana (ou na próxima, quem sabe?) vou garimpar o oráculo na estante empoeirada. Quero descobrir o que há por trás desse sonho que mistura leitura recente com o trabalho de um ator que admiro.
Mas, vocês me conhecem. Como não sei esperar, dominada pela ansiedade que me consome e me traduz, fiz uma consulta rápida à Inteligência Artificial. A “sabe tudo” desse vasto mundo cibernético diz que esse meu sonho revela a necessidade de criar espaços internos de pausa, onde o tempo se suspende e a vida se mostra em sua delicadeza. Caminhar entre cerejeiras ao lado de alguém que simboliza acolhimento é um lembrete de que mesmo em meio à dureza ainda há beleza e companhia dentro de nós.
Errada a IA não está. Ponto pra ela. E para concluir, o oráculo dos novos tempos ainda diz que o despertar abrupto pelos latidos do Niki mostra o contraste inevitável entre devaneio e realidade. Talvez o sentido esteja justamente aí: os sonhos não são apenas mensagens a decifrar; podem ser convites para a gente refletir sobre o que nos falta ou desejamos cultivar. Entre o pó das páginas e o som da vida chamando de volta, permanece a certeza de que sonhar é resistência, um gesto íntimo que nos devolve ao essencial: esperança, poesia e a lembrança de que sempre há flores esperando para desabrochar.
Pensando bem, apesar de não ser real, nem tudo está perdido. Se eu nunca conseguir desfilar por alamedas floridas com o meu crush, o mais perto que chego desse sonho é visitar o encantador Jardim de Cerejeiras do Sr. Haruji Miura. Criado pelo imigrante japonês, o espaço fica pertinho de Beagá. As primeiras mudas vieram de Okinawa e se deram muito bem nas montanhas mineiras. Após o falecimento do senhor Miura, em 2025, aos 97 anos, seu legado continua firme. As cerejeiras seguem vivas, atraindo visitantes curiosos e românticos frustrados como eu. O Morro do Chapéu vira espetáculo na floração, entre o fim do inverno e o início da primavera. Até lá, só me resta sonhar e rir da ironia de ter um crush imaginário e um jardim real.

1 COMMENT

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here