Façam silêncio! Nasceu uma rosa.

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Rosas - Imagem - Pixabay
Rosas - Imagem - Pixabay

A rosa não é só uma rosa. Além da sua beleza óbvia, é depositário de fé, esperança e de amor. Um elo entre o divino e o terreno. Nos dois casos, costuma surpreender. Foi o que aconteceu com uma amiga dos tempos da PUC-MG. Ao chegar na casa da mãe, Maristela deparou-se com uma cena incomum: um galho único, imponente, sustentava uma profusão de rosas vermelhas. Estendia-se por mais de três metros como se quisesse tocar o céu. Solidária e generosa como poucos, Maristela não hesitou. Com um gesto espontâneo, compartilhou conosco a imagem daquele bouquet extraordinário, como se dividisse, não apenas as flores, mas também a beleza e a emoção daquele instante.

Se parecem inofensivas, algumas espécies carregam espinhos, um contraste entre a suavidade e a defesa, a fragilidade e a força. Uma metáfora tanto para os relacionamentos quanto para os desafios pessoais. Também remetem à efemeridade. O ciclo de vida das rosas – da muda, ao botão e ao desabrochar até murcharem – reflete a passagem do tempo, uma analogia para a infância, maturidade e envelhecimento.

As rosas também marcam presença na literatura, na arte e na religião. Muitos poetas e escritores se inspiraram na flor. Cecília Meireles e Carlos Drummond são excelentes exemplos.

Não te aflijas com a pétala que voa: também é ser, deixar de ser assim. Rosas verá, só de cinzas franzida, mortas, intactas pelo teu jardim. Eu deixo aroma até nos meus espinhos ao longe, o vento vai falando de mim. E por perder-me é que vão me lembrando, por desfolhar-me é que não tenho fim.”

Enquanto Cecília Meireles utiliza a rosa como símbolo da efemeridade e eternidade da vida, Carlos Drummond de Andrade, em A Rosa do Povo, transborda sua angústia diante dos desafios de seu tempo. Sua poesia reflete o conflito da individualidade do homem moderno, revelando, com melancolia, a degeneração da existência e dos valores. O sangue derramado e a devastação causada pela morte contrastam com o brotar da flor no asfalto, uma metáfora poderosa da resistência humana que persiste mesmo diante da destruição e do caos.

“(…) Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu.”

Se as rosas são tão presentes na literatura e representam paixão no imaginário dos amantes, nelas há também um profundo vínculo com a religiosidade. São símbolos de devoção e pureza e, não por acaso, associadas às figuras sagradas, como a Virgem Maria, também chamada de Rosa Mística. Lembrando que o Terço das Rosas e as aparições marianas frequentemente envolvem rosas como sinal de graça e bênção.

As rosas têm ainda uma forte ligação com outras duas santinhas. Ambas moram no meu coração. Uma delas é a minha querida Santa Rita de Cássia. Santa das Causas Impossíveis, Rita de Cássia viveu uma vida de sofrimento e entrega a Deus. Segundo a tradição, pouco antes de sua morte, mesmo sendo inverno, ela pediu que uma rosa fosse colhida no jardim do convento. Milagrosamente, a flor foi encontrada e entregue a ela, tornando-se um símbolo de sua intercessão e de esperança diante das dificuldades.

Outra querida, Santa Teresinha do Menino Jesus, antes de falecer, prometeu que faria cair uma chuva de rosas sobre aqueles que recorressem à sua intercessão. As rosas simbolizam as graças concedidas por Deus por meio dela. Muitas pessoas relatam receber rosas inesperadamente após pedirem sua ajuda, reforçando sua promessa de espalhar amor e bênçãos. Gyslaine, uma das minhas irmãs, é unha e carne com a Santa Teresinha e, por ser merecedora, vive recebendo rosas.

Mas como nem tudo são flores, os espinhos traduzem sofrimento e simbolizam também a perseverança, o amor que se entrega, como na dor representada na coroa de Cristo.

Essa dualidade entre encanto e sacrifício atravessa diversas tradições religiosas e culturais, reforçando o papel das rosas como elementos de fé, devoção e transformação. Na Umbanda, por exemplo, as rosas são utilizadas em oferendas para orixás e entidades espirituais, com cada cor representando aspectos específicos da espiritualidade e da energia humana.

Além das tradições afrodescendentes, na Grécia Antiga a rosa também era venerada. Simbolizava Afrodite, a deusa do amor.

Dito tudo isso só posso concluir que a beleza das rosas reflete o sagrado. Que a delicadeza das pétalas e o seu perfume são sinais da presença divina. A flor carrega um encantamento que transcende o material. Como o gesto da Maristela.

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