Houve um tempo em que viajar de avião era quase um ritual de status. Os aeroportos eram passarelas improvisadas: homens de terno impecável, mulheres de salto alto e maquiagem retocada, todos prontos para desfilar entre balcões e portões de embarque. Voar era privilégio de poucos, e cada detalhe da aparência parecia confirmar a exclusividade da experiência.
No ar, o serviço de bordo reforçava o glamour: refeições quentes servidas em bandejas metálicas, talheres de verdade, vinhos cuidadosamente escolhidos. Era quase uma extensão da sofisticação que começava no embarque.
Hoje, os corredores dos aeroportos contam outra história. O glamour cedeu espaço ao conforto. O salto foi trocado pelo tênis, o paletó pelo moletom. Viajar deixou de ser espetáculo e virou rotina. O avião, antes símbolo de elite, tornou-se meio de transporte popular, acessível, quase banal.
E o serviço de bordo também se transformou. O requinte deu lugar à praticidade: snacks embalados, café em copo descartável, opções rápidas que acompanham a pressa de quem voa. O céu continua o mesmo, mas o modo de habitá-lo se tornou mais simples e democrático.
Ainda assim, guardo uma lembrança única: a vez em que voei de primeira classe. Retornava de uma viagem de estudos na Universidade da Califórnia quando, em uma escala em Miami, o overbooking da American Airlines nos levou a um upgrade inesperado. Durante o voo para o Brasil, me fartei com espumantes servidos em taças de cristal, comidinhas delicadas, talheres de qualidade e guardanapos de linho. Foi uma experiência de luxo, quase teatral, que contrasta deliciosamente com a rotina dos voos comuns.
Mas há algo que não mudou. Os encontros, despedidas e reencontros continuam a fazer dos aeroportos cenários de emoção. Abraços apertados, lágrimas de despedida, sorrisos de chegada. Histórias que se repetem todos os dias e que já foram tema de um programa exibido por mais de 20 anos no GNT, mostrando que, além de portões e aviões, os aeroportos são palcos de afetos.
Mas há algo de poético nessa transformação. Se antes o voo era sobre ostentar, agora é sobre chegar. O passageiro contemporâneo não busca impressionar o vizinho de poltrona; busca apenas atravessar o céu com praticidade, sem cerimônia. O aeroporto, que já foi palco de vaidades, hoje é cenário de encontros mais democráticos, onde cada um carrega sua história, seja em uma mala de rodinhas ou em uma mochila surrada.
E talvez aí esteja a beleza: o céu continua o mesmo, mas quem o habita mudou.





























