Você pode achar que quando me refiro a antigos e sedimentados hábitos familiares é puro saudosismo. Não é. Mas e se fosse? Seria ruim? Essa é uma boa discussão. Acredito que o saudosismo, afinal, não é só nostalgia; é também uma forma de dar valor ao tempo, de reconhecer que há beleza em desacelerar.
Nós, os ditos saudosistas, gostamos de conversa longa. O que poderia ser apenas uma troca rápida de informações vira quase um ritual. Não precisa ser mesa de bar. Pode ser mesa de café da manhã ou de café da tarde. Como lá em casa. O cheiro do café fresco, o bolo recém-saído do forno, o pão ainda quente direto da Padaria Santo Antônio, as louças, algumas bem antigas, e a mesa. Tudo isso vira desculpa para ponto de encontro, onde o tempo parece se alongar só para caber mais histórias. Hora do café é tempo de jogar conversa fora. Lá em Conceição do Pará essa expressão é bem comum. E vou lhe dizer uma coisa: longe de ser perda de tempo, é uma arte. É nesse espaço aparentemente despretensioso que surgem confidências, risadas inesperadas e até revelações. Conversa fora é, na verdade, conversa dentro: dentro da vida, dentro da amizade, dentro daquilo que nos mantém próximos. Ainda outro dia trocamos ideia sobre isso.
Tudo isso se conecta. Conversas que não precisam de pauta, tempos que não precisam de pressa. É a lembrança de que viver bem não é acumular novidades, mas cultivar presenças.
E nesse ritmo mais lento, até o abraço ganha outra dimensão. Não precisa balançar. Não sou adepta desse tipo de modismo, de abraço que exige o balançar do corpo de um lado para outro. Já reparou que muita gente abraça “balangando”? Na minha opinião, o abraço ideal é aquele coração com coração, um coração ouvindo o outro demoradamente. É quase uma conversa silenciosa, feita de presença. Um contato que não pede pressa, que não precisa de coreografia, apenas entrega. A humanidade dos gestos não sai de moda.
Até Mário Quintana falou sobre esse abraço no poema “O laço e o abraço”. Ele diz bem assim: “Meu Deus! Como é engraçado! / Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço… uma fita dando voltas. / Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está dado o laço. / É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço. / É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido, em qualquer coisa onde o faço. / E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? / Vai escorregando… / devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço. / Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido. / E, na fita, que curioso, não faltou nem um pedaço. / Ah! Então, é assim o amor, a amizade. / Tudo que é sentimento. Como um pedaço de fita. / Enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora, deixando livres as duas bandas do laço. / Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade. / E quando alguém briga, então se diz: romperam-se os laços. / E saem as duas partes, igual aos meus pedaços de fita, / sem perder nenhum pedaço. / Então o amor e a amizade são isso… / Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam. / Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço…”
É bonito perceber como Quintana nos lembra que os vínculos verdadeiros não são correntes, mas laços: unem sem sufocar, aproximam sem aprisionar. O abraço, assim como a amizade e o amor, deve ser leve e livre, capaz de se desfazer sem ferir, deixando cada parte inteira. Essa metáfora da fita nos ensina que o afeto só é pleno quando respeita o espaço e a liberdade do outro.
Não acompanhar o ritmo frenético da modernidade não é, de todo, algo ruim. Claro, não dá para se desligar do mundo, mas há um valor imenso em desacelerar. Escutar com calma, deixar o silêncio preencher os intervalos da fala, perceber o gesto do outro. É nesse compasso que se revelam os detalhes que a pressa não deixa ver. A importância de ser profundamente humano em tempos tão voláteis talvez seja o maior aprendizado que o saudosismo nos oferece.
Talvez seja isso: que o tempo vivido com atenção vale mais do que qualquer novidade apressada. Seja em torno da mesa ou em um abraço longo, o que importa é a qualidade da presença e não a quantidade de movimento.





























