Flor de ipê não cai na poeira

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Ipês rosa, roxo, branco, amarelo, como o da foto, colorem as ruas de Belo Horizonte nesta época do ano. Foto - Pixabay
Ipês rosa, roxo, branco, amarelo, como o da foto, colorem as ruas de Belo Horizonte nesta época do ano. Foto - Pixabay

Você já reparou como a cidade está bonita? Reparou também que alguma coisa está fora de ordem? A floração dos ipês simplesmente ignorou a regra das cores: se antes floresciam primeiro os amarelos, depois os roxos, seguidos dos rosas e dos brancos, desta vez resolveram explodir todos de uma só vez. Isso sem falar nas sapucaias espalhadas por Belo Horizonte, com suas folhas rosadas que enganam muita gente. Há quem pense que são ipês, mas o tom rosa é só uma estratégia sábia da árvore para se proteger do sol escaldante.

Cá pra nós, sem entrar em bola dividida, eventos extremos pipocam por todos os cantos, a seca se prolonga e os cursos d’água vão morrendo de sede. E pensar que nem frio tivemos. Lembro que no tempo da delicadeza as estações eram bem demarcadas, mas nada que intimidasse o Vovô Nenê. Ele não temia nem mesmo o frio de congelar os ossos. Logo ao amanhecer, Vovô atravessava a rua para tomar café com a nossa mãe. Depois chamava o Beto, pegava um pouco de Toddy e despejava no copo mantido no “cofre” do Jeep. No curral, o leite in natura, espumoso e quentinho, ainda ganhava uma dose generosa de conhaque com a devida permissão da Vovó Cocota. Ela jurava que essa combinação era um “fortificante”. Transgressão? Nada disso. Naquela época, era apenas mais um ato de amor e de cuidado.

Tudo isso ficou para trás, inclusive o sabor do Toddy original. Hoje, o foco está no clima desarranjado. Mas se para a seca temos os meteorologistas de plantão, quem desvendou o mistério dessa explosão de flores foram os engenheiros florestais. Eles explicam que a seca prolongada provoca um estresse hídrico na planta: achando que vai morrer, explode em flores para esparramar seu material genético no ambiente e preservar a espécie. Que lindo e poético. É a natureza, como sempre, reagindo com extrema delicadeza aos nossos desmandos.

Toda essa prosa me devolveu à memória um conto de Mia Couto, em Fio de Missangas. Ele narra que no início só existia a noite. Deus cuidava das estrelas que brilhavam em igualdade. Quando o Sol nasceu, exibido e arrogante, as estrelas foram ofuscadas e os homens esqueceram a harmonia da noite. Literatura e mundo real se encontram: sigo sonhando com o momento em que o Sol e a Lua voltem a dividir as tarefas para que tudo se harmonize.

Voltando ao fio da meada, ou seja, aos ipês de Belo Horizonte, no inverno a cidade se enfeita com seus mais de 44 mil exemplares roxos, amarelos, tabacos, rosas e brancos, transformando a paisagem urbana em espetáculo. Para mim, é mais do que beleza. Os ipês floridos carregam, acima de tudo, a memória afetiva do meu pai: o velho Osvaldo sempre dizia que “a flor do ipê não cai na poeira”. E que quando ela cai é sinal de chuva chegando. Caminhar por Beagá agora é sentir que cada flor é um gesto de afeto. Sigo esperançosa, torcendo para que esse conhecimento ancestral sobreviva às mudanças climáticas e continue nos lembrando que a cidade ainda respira beleza, memória e vida.

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