
Belo Horizonte vai abrigar um novo centro de pesquisa dedicado ao desenvolvimento de vacinas e terapias com RNA. Instalado no Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC), o espaço terá como primeiro grande desafio produzir uma vacina inédita contra o tipo de malária predominante no Brasil.
O Centro de Competência Embrapii em Terapias e Vacinas com RNA (CTV-RNA) receberá investimentos de R$ 60 milhões ao longo de quatro anos. A estrutura será coordenada pela professora Santuza Maria Ribeiro Teixeira, do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), referência no desenvolvimento de imunizantes contra doenças infecciosas (em particular, a leishmaniose e a malária).
A iniciativa reúne UFMG, Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), BH-TEC e outras instituições públicas ligadas à pesquisa, à saúde e ao desenvolvimento econômico. O novo centro pretende transformar conhecimento científico em produtos capazes de atender a demandas concretas da população. Além de vacinas, a estrutura desenvolverá terapias contra o câncer e tratamentos baseados em RNA.
Vacina atenderá a uma demanda brasileira
O primeiro imunizante do novo centro terá como alvo o Plasmodium vivax, protozoário responsável pela maior parte dos casos de malária registrados no Brasil. As vacinas já disponíveis no mundo concentram-se principalmente no Plasmodium falciparum, espécie predominante na África Subsaariana.
Por isso, o projeto busca responder a uma necessidade que ainda não foi contemplada pelos imunizantes existentes. A vacina contra o Plasmodium vivax poderá representar um avanço importante no combate à doença no Brasil e em outros países onde essa espécie também circula.
O produto usará a tecnologia de RNA mensageiro, conhecida como mRNA. Essa plataforma ganhou projeção mundial durante a pandemia de covid-19, quando permitiu desenvolver vacinas eficazes em um período relativamente curto.
A tecnologia, no entanto, já era estudada havia décadas. Antes da pandemia, pesquisadores investigavam sua aplicação em áreas como o tratamento do câncer. Esse conhecimento acumulado permitiu que empresas como Moderna e Pfizer-BioNTech respondessem rapidamente à emergência sanitária.
Segundo Santuza Teixeira, uma das vantagens do RNA mensageiro é a possibilidade de alterar e adaptar vacinas com mais rapidez. A plataforma também pode provocar uma resposta imunológica mais forte.
A molécula de RNA usada no imunizante não causa a doença. Ela fornece ao organismo uma espécie de instrução temporária. A partir dela, as células produzem uma proteína capaz de estimular o sistema imunológico. O corpo passa, então, a reconhecer e combater o agente infeccioso.
Pesquisa deve gerar produtos e impacto social
Além da vacina contra a malária, o CTV-RNA pretende desenvolver vacinas terapêuticas contra diferentes tipos de câncer. Outra frente envolve tratamentos capazes de orientar o organismo a produzir substâncias cuja ausência está relacionada a determinadas doenças.
O centro será instalado em um ambiente que já reúne importantes iniciativas científicas. O BH-TEC abriga o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Vacinas e o Centro de Tecnologia de Vacinas, que caminha para se transformar no Centro Nacional de Vacinas.
A proximidade entre pesquisadores, universidades, empresas e órgãos públicos pode acelerar a transformação de estudos acadêmicos em produtos disponíveis para a sociedade. Esse é um dos principais objetivos da parceria com a Embrapii.
Durante a solenidade de oficialização do centro, o reitor da UFMG, Alessandro Fernandes Moreira, destacou o papel da universidade no desenvolvimento científico e tecnológico. Para ele, projetos dessa natureza também ajudam a aproximar a produção acadêmica das necessidades da população.
O reitor definiu o BH-TEC como um ambiente no qual a patente pode se transformar em atividade econômica e impacto social. A criação do CTV-RNA reforça esse papel e amplia a posição de Belo Horizonte como um polo estratégico de pesquisa e inovação em saúde.
A produção da vacina contra a malária ainda percorrerá diferentes etapas de pesquisa, testes e avaliação regulatória. Mesmo assim, a escolha do primeiro projeto indica a prioridade do novo centro: usar uma tecnologia de ponta para enfrentar doenças que afetam diretamente a população brasileira.
ENTENDA: Como funcionam as terapias com RNA?
Imagine que cada célula do corpo funciona como uma pequena fábrica. Para produzir uma proteína, essa fábrica precisa receber instruções.
O RNA funciona como um bilhete que leva essas orientações até a célula. Os cientistas podem criar um RNA com uma tarefa específica e introduzi-lo no organismo.
Esse “bilhete” pode ensinar as células a produzir uma proteína que ajude o sistema imunológico a reconhecer um vírus, um parasita ou até uma célula cancerosa. Também pode orientar o organismo a repor uma substância que ele não consegue produzir corretamente.
Foi esse princípio que permitiu o desenvolvimento das vacinas de RNA mensageiro contra a covid-19. Agora, a tecnologia começa a ser usada em pesquisas sobre malária, câncer e outras doenças.
O RNA não entra no núcleo da célula, onde está o DNA, e não modifica o material genético da pessoa. Ele transmite uma instrução temporária e depois é eliminado naturalmente pelo organismo.
A malária no Brasil
O Brasil registra cerca de 140 mil casos de malária por ano. Mais de 99% das infecções contraídas no país ocorrem na região amazônica. A área inclui Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.
O Plasmodium vivax (objeto da vacina que será feita em BH) causa aproximadamente 82% dos casos brasileiros. Esse parasita pode permanecer adormecido no fígado e provocar novas crises meses depois da primeira infecção. Essa capacidade de causar recaídas torna mais difícil interromper a transmissão da doença.
A malária é transmitida pela picada da fêmea infectada do mosquito Anopheles. Os sintomas mais comuns são febre alta, calafrios, suor intenso, dor de cabeça, fraqueza e dores no corpo. O diagnóstico exige exame de sangue.
A doença tem cura. Após a confirmação, o paciente recebe gratuitamente os medicamentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A maioria faz o tratamento em casa. Os casos graves exigem internação imediata.
Com informações da UFMG




























