O seu Tinder já vem com pacote de afeto?

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Imagem - Pixabay
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Venho de uma família grande. Daquele tipo em que o barulho é a trilha sonora oficial e o afeto se mede no excesso de vozes ao redor da mesa. Por isso, quando os plantões de fim de semana me obrigam a ficar sozinha em Belo Horizonte, o vazio parece ganhar contornos ainda mais nítidos.

Teve até aquele plantão no Réveillon. Foi quando a distância cobrou seu preço. Como manda a tradição, cumpri cada passo do ritual: comprei uma roupa nova, escolhi um bom espumante e preparei umas coisinhas gostosas para beliscar na virada. Na hora exata de saudar o ano que chegava, brindei com a família através da tela fria de uma chamada de vídeo. A tela exibia os sorrisos de sempre, mas o calor do abraço se perdeu na conexão. Não foi a mesma coisa. Até achei graça na novidade de passar a virada assim, quase como um experimento comigo mesma, o que não quer dizer que me sentiria bem se isso virasse rotina.

Os entendidos da mente humana diriam que estar só é diferente de sentir solidão; que a mente até entende a teoria da solitude, essa arte de ser boa companhia consigo mesmo. O problema é quando o peito prefere a prática do abraço e só encontra o vazio. Nesses momentos, uma reflexão recente do ator Selton Mello ajuda a apaziguar a dor da ausência da família e de outras pessoas que amamos: “estar dentro é mais poderoso”.

Trazer para dentro o afeto daqueles que estão longe é uma saída bonita para acalmar a saudade, já que nem as telas atuais são capazes de substituir o toque real. No entanto, quando a carência de um abraço presente fala mais alto, há tecnologias e atalhos que se insinuam perigosamente, principalmente quando a coisa extrapola e vai para o terreno da nossa necessidade de intimidade, se é que vocês me entendem. É aí que entra a história inusitada daquela milionária sul-coreana. A empresária financiou uma minissérie inteira só para atuar ao lado de um jovem ator e encomendar dezenas de cenas de carinho. Esse fato deixa de ser apenas uma curiosidade bizarra de bastidores, quando expõe como a carência emocional tenta, de formas distorcidas, fabricar conexões e transformar afeto em mercadoria.

Não por acaso, ainda no continente asiático, a indústria de tecnologia avança a passos largos na produção em massa de robôs humanoides hiper-realistas, projetados especificamente para assumir o papel de namorados, maridos e companheiros dedicados. Dotados de inteligência artificial, pele sintética aquecida e algoritmos programados para uma “lealdade incondicional”, esses robôs prometem suprir a falta de um parceiro sem as complicações, recusas ou imperfeições de um relacionamento real. O avanço dessas tecnologias revela um sintoma social profundo: a tentativa de automatizar a intimidade para contornar a dor da rejeição e o isolamento.

Nem a fartura das telas, nem a encomenda de figurantes contratados e tampouco a companhia programada de um androide conseguem disfarçar o hiato entre a vida que pulsa lá fora e a ausência que mora do lado de dentro. É um abismo silencioso onde a gente descobre que o afeto autêntico não se compra, não se programa e não se substitui por chamadas de vídeo: ele exige a presença, a vulnerabilidade, o olho no olho e o toque imprevisível que nenhuma ilusão consegue simular.

Para encerrar essa prosa que já se prolongou demais, dia desses, para ser mais exata, no Dia do Solteiro, a própria Prefeitura de Belo Horizonte postou uma espécie de “Tinder” para aproximar moradores e fazer a cidade se conectar. Se eu entrei na brincadeira? Confesso que fiquei super curiosa, mas me limitei a curtir e acabei perdendo o time. Por falar nisso, alguém pode me indicar um Tinder de respeito? Vai que aquele abraço caloroso de verdade está só esperando um bom match. Vai que, né?

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