Saudade tem cheiro?

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Imagem - Pixabay
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— Ah, Gisele, você é uma saudosista. Apegada demais ao passado!
Vira e mexe eu escuto esse comentário (ou seria queixa?). Dizem que vivo contando fatos da minha infância, da adolescência, sempre desfiando memórias de família.
Saudosista? Talvez eu seja mesmo. Um pouquinho, vai. Mas a grande verdade é que a minha memória é muito mais olfativa do que visual. Ela não é feita só de imagens gravadas na mente; ela é despertada por cheiros, tecida por perfumes.
Quer um exemplo prático? Eu nem sou lá muito carnívora. Mas se entro numa cozinha ou me sento à mesa e sinto o perfume de uma carne assada, pronto, não tem jeito. É imediato. Aquele aroma me arrebata e, num piscar de olhos, me transporta de volta para a cozinha dos meus pais ou dos meus avós.
O perfume de um bife ou de um lombo chiando na chapa é caminho sem volta. É bilhete de ida direto para os fartos almoços e jantares na casa dos meus avós maternos. O cheiro é uma máquina do tempo tão poderosa que a cena se monta sozinha: quase consigo ver minha avó, com seu inseparável coque no cabelo, comandando as panelas enquanto o cheiro de comida caseira abraça a casa inteira.
Talvez seja por ter essa raiz tão fincada na comida de verdade que há certas atitudes contemporâneas que me incomodam profundamente. Comprar frutas picadas no supermercado, por exemplo, é uma delas. Onde já se viu?
Confesso, porém, que neste último fim de semana cometi um deslize e quebrei minhas próprias regras. Me rendi a um pacotinho de mix de folhas já lavadas. Elas vieram parar no meu carrinho por pura insistência da Gilda. Eu poderia muito bem ter resistido, mas acabei sendo vencida por aquela velha e conhecida preguiça domingueira. Uma fraqueza momentânea, eu garanto.
Agora, de uma saladinha lavada a comprar banana já picada é um pulo que eu me recuso a dar. Aí já é puro exagero! E por falar em limites da conveniência, essa semana fui pega de surpresa por um post aleatório sobre uma banca de ovos numa feira lá em São Paulo. A grande “novidade” do vídeo era que nessa banca você podia comprar o ovo já sem a casca, dentro de um saco plástico.
“Aí já é demais, é o fim dos tempos!”, pensei na hora, imaginando a que ponto a preguiça humana havia chegado.
Mas o instinto jornalístico apitou e resolvi ir além do lead e do sublead da notícia. Fui investigar. E não é que fui traída pela primeira impressão? Aparentemente, os tais ovos crus ensacados não estão à venda para os cozinheiros mais preguiçosos. Eles servem apenas como um mostruário, uma vitrine inusitada para mostrar aos clientes a variedade da banca: ovos maiores, menores, com gemas mais claras ou mais escuras.
Respirei aliviada. Parece que ainda há um pouco de esperança na humanidade e na nossa relação com a comida. Mas, convenhamos: toda essa praticidade estéril dos plásticos de supermercado nunca vai chegar aos pés da poesia que é o cheiro do lombo na chapa da minha avó. A saudade, definitivamente, ainda entra pelo nariz.

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