Entre formigas e afetos

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O delicioso brigadeiro, uma paixão nacional. Imagem - Pixabay
O delicioso brigadeiro, uma paixão nacional. Imagem - Pixabay

Dizem que o brasileiro não nasce, ele estreia. E, geralmente, a estreia envolve um brigadeiro. Se você colocar um doce europeu ou asiático e um brasileiro lado a lado, a diferença é clara: tanto o europeu quanto o asiático são contidos, sutis, quase tímidos. O brasileiro? Ah, o brasileiro chega chegando, brilhando na calda, gritando açúcar e pedindo um copo d’água logo em seguida.

Mas não nos culpem. Nossa “formiguice” é genética, histórica e, curiosamente, política. Tudo começou lá atrás, de quando o açúcar era o dono do pedaço. Gilberto Freyre, nosso sociólogo-mor, explicava que o doce foi o grande pacificador da nossa história. O açúcar “amaciava” o Brasil. Antes do advento da geladeira, ou você mergulhava a fruta em uma calda pesadíssima ou perdia a colheita. Aprendemos a gostar do doce muito doce porque era assim que a comida sobrevivia ao mormaço dos trópicos.

Essa doçura era tão valiosa que atravessava gerações como um tesouro de família. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando o açúcar branco era artigo de luxo e desaparecia das prateleiras, meu avô, que era agente de trem, conseguiu um punhadinho desse pó precioso. Levou para casa com o cuidado de quem carrega uma joia rara para presentear minha avó. Ela, com sua sabedoria ancestral, tratou logo de transformar aqueles grãos dulcíssimos em um prato de sequilhos de coco — uma raridade naqueles tempos difíceis.

A história, porém, guarda sua pitada de amargura: para agradar a um compadre que apareceu sem convite para o café, vovó ofereceu a iguaria, que rendeu um só prato. O homem não só se deliciou com vários como, num excesso de gentileza (alheia), levou o que sobrou para a comadre. Para a família, que assistiu à cena, ficou apenas o cheiro do coco e a decepção de ver o tesouro ir embora embrulhado em um guardanapo.

Essa escassez do pós-guerra também foi o berço do nosso maior ícone: o brigadeiro. No auge da campanha de 1945, o leite condensado surgiu como o substituto moderno para o açúcar que faltava. O Brigadeiro Eduardo Gomes perdeu a eleição, mas o doce ganhou o país. Trocamos o açúcar de tacho pela lata de leite moça e criamos uma democracia de bolinhas de chocolate. Hoje, o brigadeiro é o único consenso nacional. Nossos sobrinhos e sobrinhos-netos representam bem essa preferência nacional.

Por outro lado, meu irmão Beto ama pudins; já o caçula da nossa família grande e barulhenta gosta sem medida de todos. Não por acaso… ihhhh, melhor abafar o caso. Quanto a nós, habitantes da “casa das sete mulheres”, não há consenso. Se é para escolher, nos dividimos entre o manjar branco, a torta de amendoim, a torta morna de coco e outras delícias garimpadas dos cadernos ancestrais.

No fim das contas, nossa doçura exagerada é um abraço. É o café com colheres de açúcar “para aguentar o tranco”, é o pudim de leite que escorre calda pelo queixo, é a goiabada com queijo que resolve qualquer tristeza de domingo. Podemos até tentar ser “fitness”, mas o coração do brasileiro só bate feliz mesmo quando encontra aquele doce que faz a alma suspirar e o dentista chorar. Somos um povo em ponto de fio: doce, grudento e impossível de resistir.

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